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Madrugada (idem) de sábado, 10 de Abril de 2010 – Hoje à noite fui ao Teatro Sá de Miranda ver uma versão contemporânea da Shakespeareana peça “Romeu e Julieta” que começou com uma poça de sangue fresco à porta da bilheteira. Terminei escrevendo em correio electrónico ao OB:
Só para saber o que é feito de si...
Viu o "Romeu e Julieta"? Vai escrever alguma coisa ou nesta edição de Maio ou posso tomar o seu lugar? É que fiquei cheio de vontade de escrever acerca da coisa.
Na verdade, em muitos anos finalmente voltei a ter momentos em que fui, somente, espectador, com tudo o resto no chão: a desconfiança, o hipercriticismo, o cinismo...
Com poucas dúvidas disto, digo que me caiu, verdadeiramente, o criticismo, repito, a momentos caiu-me tudo e apenas fruí, sentindo-me na minha cadeira do teatro, em determinados espaços do tempo cénico, comovidamente abalado.
Tudo por causa de uma Sara Barros Leitão a encarnar Julieta, que me deixou todos os poros entupidos, toda a respiração suspensa – a aeróbica e a anaeróbica.
Mas antes disso.
Trata-se de uma adaptação do original shakespeariano pelo galego Eduardo Alonso, numa produção conjunta entre o Centro Dramático de Viana, o Teatro Noroeste, de Santiago de Compostela, e a ACE que disponibilizou a sua companhia profissional, o Teatro do Bolhão, uma vez que “os meios financeiros” do CDV não são “bastantes” até porque a peça exige um elenco relativamente alargado e muito jovem. E assim, neste diálogo e neste segmento do Eixo Atlântico “chegou o teatro mais depressa que o TGV”.
É uma peça que se vê ora rindo – porque por vezes divertidamente estapafúrdia nas jovens turbulências –, ora de dentes cerrados – porque com momentos tremendos à la Shakespeare, já não nos custasse mais ainda as mortes dos mais jovens –, tendo sido a mais interessante a que assisti nos últimos anos, o que, para quem não tem saído muito de Viana pode não significar grande coisa, claro.
Pena a “morangada” intrínseca e que nos fez desconfiar do trabalho, pelo menos nos seus momentos iniciais, uma “opção estética” que se crê inerente à actualidade mas que é coisa com que não concordo até porque a contemporaneidade ali vista, se calhar até já passou de moda.
Isso assim foi até à entrada em cena, já tardia, de uma Julieta que o era pelo encanto que logo espalhou, pela figura, pela postura, pela voz e que, sozinha, encheu todo o palco, apagando luzes, adereços e todos os seus pares; um carinho de menina ainda mais linda que nas fotos dos cartazes promocionais onde já parecia, sem sombra de dúvida uma verdadeira Julieta.
Só a intensidade dramática desta actriz, Sara Barros Leitão, terá, a meu ver, e a dada altura, arrastado o restante elenco e, designadamente o próprio Márcio Carneiro, a dar corpo ao personagem de Romeu, também o elevando. A actriz, que o é de forma inteira, esteve sempre muitos furos acima do restante elenco.
Porque marcou indelevelmente esta versão da obra homónima do grande dramaturgo inglês, duas palavras ao nu que surge (e que só por si garantiu a bilheteira até ao final do tempo em que a peça esteve em cena).
Num tempo em que, nestas andanças da representação, se mete o nu de qualquer maneira só para que não deixe de haver, aqui entrou, lá em cima, no plano elevado – enquanto cá em baixo acontecia o texto –, suave, suavíssimo à meia contra-luz assim cumprindo o Amor em que o casal de actores nos conseguiu fazer acreditar – o que já não é coisa pouca –, dessa forma concretizando-o. Mas não só por isso! Também porque esse nu não foi apenas feminino mas de igual forma masculino, integral, tornando-se credível, justo, porque igualitariamente recíproco.
E quem me diria que poderia voltar a acreditar e a ser, por isso, mais feliz?
Claro que esta é uma peça adaptada, “contemporaneizada”, pelo que, sabíamo-lo, muito do discurso falado do original se perderia, o que viemos logo a confirmar. Mas pena, mesmo pena por isso, foi no monólogo de Julieta quando se depara com Romeu morto em que a representação física acabou por exceder em muito um texto brilhante no seu original e que constitui o culminar da história.
Outras notas menos boas ficaram-nos também, pois está claro, a maioria decorrente da juventude do elenco com as culpas maiores a caírem na direcção artística, portanto. Os tempos de entrada das vozes por vezes sobrepunham-nas e os discursos saiam demasiadamente fluidos, rápidos, tornando-se por diversas vezes difícil captar o que era dito, porque dito demasiadamente depressa. Ainda nas vozes, essas por diversas vezes a serem atiradas para o fundo de cena e em tom baixo, o que as tornou ininteligíveis. Mas nada que não se corrija.
Entendo, também, que os efeitos de luz poderiam ter sido um pouco mais trabalhados, estou a lembrar de diversos exemplos ao longo da coisa. Também possível melhorar.
A grande estragação da coisa foi mesmo a segunda situação em que o encenador faz despir o casal e mete um desnudo Romeu em cima de uma despedia Julieta, com o primeiro a pensar que a segunda estava morta. Despiu-se e despiu-a, porquê? Para quê? A tolice do senhor será assim mesmo, claro está, mas cada um tem as suas preferências, pois está claro…
A inverosimilhança chegou-nos foi com o personagem da “Mendiga”, que no original do texto é cumprido por um padre, inverosimilhança essa que se tornou o erro mais palpável e evidente no armar da narração, pelo paroxismo da personagem que, devendo fazer (e fazendo) o contraponto aos excessos da juventude, corporizando o contraditório no desenvolvimento da história, afinal era dealer… facto incompreensível, a meu ver, o que tornou a personagem incongruente, patética e perigosa na sua mensagem. De resto. Quem vende drogas não anda a mendigar transportando o que tem de seu num carrinho de compras desviado do hipermercado mais próximo.
Ainda uma referência ao público presente no dia seguinte ao da estreia, sábado, dia 9, em que fomos. Quando a cretinice não está no palco, está na plateia, e nas frisas, e nos camarotes. Foi terrível e constrangedor estar no meio de tanta abestunta que não sabe estar, mantendo conversas paralelas, atirando dichotes dirigidos aos actores, continuamente perturbando. Foi uma sessão em que metade dos espectadores esteve a mandar calar a outra metade que a momentos ficava basbaque a olhar os corpos nus do casal de actores, para logo se manifestar numa espiral de parolice por demais confrangedora. E a maioria desses autênticos parolos, eram, precisamente, os mais novos, o que nos faz reforçar a ideia de que o país está a andar para trás, como respondia à entrevista de uma revista Pedro Boucherie Mendes (da SIC e SIC Radical): “Os portugueses têm uma relação difícil com o sexo. Espero que no quarto não tenham, mas no dia-a-dia têm”. Mais adiante, na mesma entrevista embora noutro contexto, mas que tem tudo a ver, acrescentava: “Portugal é um país subdesenvolvido a vários níveis”. É, sem dúvida, quando os nossos jovens parecem os mais idosos e não são as calças largas, surradas e rasgadas, ou o boné dos “Yanques”, que conseguem menorizar este drama nacional.
Mas porque ficámos a ser mais felizes com estes putos do Porto, e em grande medida nos reconciliou com o teatro que temos cá em Viana, resumimos:
- Bibó Bolhão, vibó Porto, bviva Viana, bivó o Norte e viva Portugal, carago!
Das notas postas durante o decorrer da peça, escritas na escuridão da plateia, comecei por registar estas que são as palavras com que, agora, termino: Sara Barros Leitão, jovem, ainda em formação, de quem ainda ouviremos falar, tenho a certeza. Teremos país para ela?
Ah! E viva Shakespeare, sempre!
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