sábado, 31 de dezembro de 2011



Segunda-feira (idem) de 19 de Abril de 2010 Todas as manhãs me custam. Sempre uma irritação profunda sem objecto específico, mas simultaneamente a tudo dirigida. Tudo me dói: a coluna, as costas, o pescoço; as pernas perras, o exterior dos braços, até aos dedos mindinhos das mãos, sem circulação. Um mal-estar psicológico que vê inimigos em qualquer brilho, em qualquer som. É como que se uma guerra me esperasse. Vencer o início do dia começa por isso com coragem, a seguir olhar de frente a sua claridade para que o cérebro permanentemente muito mal descansado comece a funcionar e só aí começo a engrenar, lentamente, até começar a conseguir algum embalo com algo no estômago para que possa receber o primeiro café do dia. Conquisto, a pulso, as primeiras duas horas do dia como que de uma escalada se tratasse. Depois, independentemente da forma como me corra a jorna diária, essa é feita de uma constante tomada de velocidade que só mesmo as primeiras horas da madrugada e o cansaço intrínseco me conseguem abrandar. E no entanto, recolho-me entre lençóis desejando viver o dia que se segue; e mormente o sono de insónia que já toma conta de mim, estupidificando-me, não desejo dormir querendo viver sem perder tempo. Também por isso o ritual destas páginas de agora, que encontram similares no passado longínquo ou no mais e menos recente. À mão ou à máquina, ou até apenas entre vilosidades cerebrais. Sempre me recordo de me fazer em letra de forma. Mas tenho de me ler com atenção ainda que não me possa levar ainda mais a sério.

Hoje o rapaz mais velho passou por cá, depois de meses. Algo alterado, mas a que acrescenta uma dose de auto-controlo, não vá eu corresponder reciprocamente.
Já não o incomodo por isso, ou por coisa nenhuma, não vale pena e, é óbvio, nunca teve qualquer resultado que verdadeiramente importe. Está fisicamente alterado. Diz que está mais gordo. Eu ter-lhe-ia respondido que está é mais inchado.
Sempre que tenho contactos com eles saio extremamente afectado. Quero-os muito mas de outra forma e não sei como tê-los assim: como estão. Como gostaria de os haver, para que se tivessem a si próprios.

*

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Domingo (mesma mentira porque já madrugada do dia seguinte) de 18 de Abril de 2010 Hortos de tarde porque sempre que posso. Plantio de alfaces a aproveitar a terra tratada que sobrou do cebolo, o qual parece ter pegado bem. As mais antigas estão lindas e as couves de brócolos quase triplicaram de tamanho nestes últimos dias chuva. Muito compensador; e que não me falte a água.
Ainda sachar e mondar as hortas e a terra em torno das árvores, enquanto que, com a simplicidade dos néscios (claro que não!), vou falando com os vegetais. Nunca esquecerei as roseiras da minha moradia do Porto, quando da licenciatura, que secavam as flores quando vinha para Viana e floriam esplendidamente poucos dias após o meu regresso, facto que constava na vizinhança.
Na quietude das boas horas passadas nos Hortos, sob os protestos dos melros e a curiosidade – que, creio, já afectiva –, do pisco do costume, tanta reflexão sobre as coisas do mundo, porque lá é fácil pensar e o tempo que aí me passa esvaí-se sem que dê por isso, sendo sempre suficiente.

Na salvação deste trabalho de Deus, o pensamento refugia-se no choro do Papa quando se encontra as vítimas da pedofilia dos padres católicos, enquanto se desloca à Malta de S. Paulo; reflicto neste Vaticano há meses sob ataque e na grande Bíblia que namoro há uns anos na livraria do Centro Católico e que gostaria de adquirir.

Tanta coisa para fazer e tão pouco tempo. Nos Hortos o reencontro do meu equilíbrio, a consciência do que de mim é verdadeiro; e neste ficheiro Word o que pode me importa nos acontecidos do mundo. Contudo, sempre a dúvida acerca da correlação destes com aqueles todos que correm e, depois, a procura da razão autêntica. É o que me impele para os Hortos, se bem que sempre temendo que de fuga se trate. Mas creio que não no mau entendimento da expressão, pelo menos.

*

segunda-feira, 28 de novembro de 2011



Sábado, madrugada (pois) de 17 de Abril de 2010 Mais um dia na cidade a distribuir o corpo do trabalho, esquivando-me à chuva. Distribuo o meu labor e palavra escrita em revista com “Linchado – Tudo!”, que causa sensação onde o deixo. Falo com toda a gente, mais que o costume. Depois de a poeira assentar sobre a morte por linchamento do jovem alegadamente chefe do gang local, neste não se resolve, as pessoas tornam-se mais opinativas e, na ausência de atitude própria, pedem ao jornalista que force a mão, que ataque na acção que ainda não tiveram. Um destes, revendedor da revista à..., que já sofreu diversos assaltos com portas arrombadas pela calada da noite, queixa-se-me do grupo misto de sem-abrigo e pequenos delinquentes que, expulsos pela operação da PSP do largo Vasco da Gama na quinta-feira da semana anterior, naquela hora se acoitam nos bancos de pedra sob o resguardo do edifício do antigo hospital da Misericórdia. Ensaio conversa de circunstância, com os leitores dos jornais expostos nos escaparates do quiosque e não arredam pé. Outros chegam e ficam, ouvintes. Da conversa mole passo a considerações sérias. Digo-lhe que tem de tratar aquele espaço sobranceiro à sua porta como que do seu quintal se tratasse. Que aquilo é dele e que, assim, tem é se comportar como tal; que não pode abrir a porta, pela manhãzinha, ou fechá-la ao fim da tarde, encolhido junto à parede, fingindo que não os vê, evitando a aproximação ao grupelho, seja este constituído por quem ou quantos for. Que tem de os encarar directamente nos olhos desse modo afirmando que está ali, que os vê, dando a entender que se algo acontecer ao que é dele saberá quem é que por ali rondou. Nunca sorrir, nunca resguardar-se, fitá-los na certeza de ser quem é, quem pagou, com os seus impostos, a pedra que forra o chão daquela praça. Quer-se encolher ao meu discurso, não o faz por decoro, a esposa assenta que sim com a cabeça à minha razão, com sangue a afluir-lhe nas carótidas. Tenho razão. A malta que finge ler os jornais anui às minhas palavras que saem em tom elevado, fazendo todos ouvi-las, grupelho incluído. Despeço-me na minha pressa dizendo, uma vez mais, que vou passar junto aos tipos porque, eu, não lhes dou o meu espaço da rua e faço questão que saibam disso mesmo. Atrás de mim os leitores dos títulos em escaparate permanecem quietos, muitos observando-me.

No meio da leitura de “Terra”, de que hoje fiz gazeta, inicio a leitura do segundo livro (“Hitler em Paris”) da colecção sobre a II Guerra Mundial, a vários volumes, editados pela inglesa Osprey Publishing. Este volume é da autoria de Alan Shepperd e com ilustrações de Terry Hadler. A distribuição da obra está a cargo de distribuidora portuguesa. Recebi hoje a encomenda com os volumes II e III, depois de ter lido o I comprado num quiosque em Valença do Minho, na distribuição da revista de há dois meses. Li esse em dois dias. Este, vou mastigá-lo mais um pouco.

*

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sexta-feira, madrugada (como quase sempre) de 16 de Abril de 2010 Os flirts são o sal (e por vezes o açúcar) das relações sociais e afectivas.


Hoje (ontem, claro), enquanto o trabalho nocturno decorria, li-lhe o meu artigo de opinião sobre a peça “Romeu e Julieta””. Quando falo na entrada da actriz, insistindo na impressão que me causou em mais de uma frase, reage, mexe-se na cadeira, sorri enviesada, reprime-se no verbo. Não fosse o volume do que tínhamos ainda para fazer, tê-la-ia tocado, apertado ligeiramente, dizendo-lhe: “Vá, ciúmes não valem!...”. Sei como reagiria. Da mesma forma como reagiu quando, solicitando-a para trocar o inconcebível “você”, para o meu nome próprio - acrescentando que lhe ia saber bem dizê-lo, especialmente se bem mastigado -, se encolheria para logo se expandir, sorriria disfarçando um riso, meteria a cara nos longos cabelos negros lustrosos, faria o corpo comprido reduzir-se encorcovando-o, juntaria as pernas e enrubesceria muito. Outras oportunidades haverá, até porque amanhã vai ao teatro.
De hoje a oito dias brincarei novamente, esperando fazê-la rir, porque merece!

Leio o terceiro capítulo de “Terra” fascinando-me com os relatos in loco dos eventos que antecederam o telúrico desaparecimento da ilha de Krakatoa, em 1883, e nem me apercebo dos eventos vulcânicos que passam nos telejornais e que derretem os glaciares da Islândia lançando toneladas de cinzas na atmosfera; de resto, tal como aconteceu precisamente um século antes de Krakatoa, no ano de 1783, com a Europa em pânico devido ao verão com os ares cor-de-laranja à conta das poeiras suspensas também de origem vulcânica, quer na Islândia como no sul da Europa, e que provocaram um acentuado arrefecimento global.
Entretanto, os ataques globais à Igreja Católica devido à pedofilia de sacerdotes eminentes e ao quase silêncio do Vaticano, até já colocaram alguns manifestantes americanos a exigir que o Papa seja despedido… os doidos!
Pergunto-me: que prenúncios serão estes? E não será, juntamente com o terrorismo dos radicais muçulmanos e a crise económica global, a guerra prevista por Nostradamus, e outros, para o início deste milénio? Irá tudo isto piorar?

*

sexta-feira, 11 de novembro de 2011



Quarta-feira, 14 de Abril de 2010 Hoje quase de certeza que me ruiu um projecto – de há pouco tempo, é verdade, inesperado, com certeza – mas que há muito desejava ver concretizado e, sem dúvida alguma, possível. No entanto, o xadrez da coisa alterou, no fundo devido a inerências das condicionantes circunstanciais que não poderiam deixar de ser esperáveis, bem entendido… e a coisa não deverá acontecer.
Seria expectável nisto, que a desilusão me invadisse, sorumbática, inexorável… mas não! Mantenho os mesmos níveis de animação, para além de uma sensação de alívio saudável, até porque o cometimento era-o (e é-o) verdadeiramente, nos seus comprometimentos financeiros, na formação necessária, na dedicação à coisa em si, et caetera, passível de tudo e mais alguma coisa exaurir. Enfim, talvez aconteça no futuro mais próximo, ou menos; não interessa, absolutamente.
Mas enfim…
Entretanto, terei de continuar aquilo a que o projecto se destinava sem elementos mecânicos, fazendo-o manualmente, nos dias em que o puder, atrasando irrevogavelmente as metas a que me tenho imposto, porque sempre muito exigente para comigo próprio.
Sobre o volume de trabalho que se mantém elevado, a indisponibilidade total de tempo que seria requerida, o labor em si transformado em dores físicas sempre perseguindo o vento que nunca alcançarei, só uma expressão: ainda bem!
Perguntar-me-ia do porquê deste ardor de felicidade que me permanece, quando o tempo me começa a escapar nesta corrente de vida que é a minha, colocando seriamente em causa a possibilidade de não conseguir o cumprimento do quase tudo a que almejo. A resposta afinal é simples: é que nessa falta de tempo, cada vez maior que sinto, todo aquele que me resta é cada vez mais importante para mim e o meu único medo lógico seria a não maximização desse tempo que ainda existe.
Neste virar da vida, porque estou a atingir metade dela (Deus queira que não menos do que isso), olho o futuro, o próximo e o mais longínquo, com uma ânsia de vida que me faz sentir a felicidade e a esperança próprias das crianças e dos simples. Só de o conseguir, transbordo de agradecimento pelo dom da Vida!

*

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

*

Madrugada (idem) de sábado, 10 de Abril de 2010 Hoje à noite fui ao Teatro Sá de Miranda ver uma versão contemporânea da Shakespeareana peça “Romeu e Julieta” que começou com uma poça de sangue fresco à porta da bilheteira. Terminei escrevendo em correio electrónico ao OB:

Só para saber o que é feito de si...
Viu o "Romeu e Julieta"? Vai escrever alguma coisa ou nesta edição de Maio ou posso tomar o seu lugar? É que fiquei cheio de vontade de escrever acerca da coisa.
Na verdade, em muitos anos finalmente voltei a ter momentos em que fui, somente, espectador, com tudo o resto no chão: a desconfiança, o hipercriticismo, o cinismo...

Com poucas dúvidas disto, digo que me caiu, verdadeiramente, o criticismo, repito, a momentos caiu-me tudo e apenas fruí, sentindo-me na minha cadeira do teatro, em determinados espaços do tempo cénico, comovidamente abalado.
Tudo por causa de uma Sara Barros Leitão a encarnar Julieta, que me deixou todos os poros entupidos, toda a respiração suspensa – a aeróbica e a anaeróbica.
Mas antes disso.
Trata-se de uma adaptação do original shakespeariano pelo galego Eduardo Alonso, numa produção conjunta entre o Centro Dramático de Viana, o Teatro Noroeste, de Santiago de Compostela, e a ACE que disponibilizou a sua companhia profissional, o Teatro do Bolhão, uma vez que “os meios financeiros” do CDV não são “bastantes” até porque a peça exige um elenco relativamente alargado e muito jovem. E assim, neste diálogo e neste segmento do Eixo Atlântico “chegou o teatro mais depressa que o TGV”.
É uma peça que se vê ora rindo – porque por vezes divertidamente estapafúrdia nas jovens turbulências –, ora de dentes cerrados – porque com momentos tremendos à la Shakespeare, já não nos custasse mais ainda as mortes dos mais jovens –, tendo sido a mais interessante a que assisti nos últimos anos, o que, para quem não tem saído muito de Viana pode não significar grande coisa, claro.
Pena a “morangada” intrínseca e que nos fez desconfiar do trabalho, pelo menos nos seus momentos iniciais, uma “opção estética” que se crê inerente à actualidade mas que é coisa com que não concordo até porque a contemporaneidade ali vista, se calhar até já passou de moda.
Isso assim foi até à entrada em cena, já tardia, de uma Julieta que o era pelo encanto que logo espalhou, pela figura, pela postura, pela voz e que, sozinha, encheu todo o palco, apagando luzes, adereços e todos os seus pares; um carinho de menina ainda mais linda que nas fotos dos cartazes promocionais onde já parecia, sem sombra de dúvida uma verdadeira Julieta.
Só a intensidade dramática desta actriz, Sara Barros Leitão, terá, a meu ver, e a dada altura, arrastado o restante elenco e, designadamente o próprio Márcio Carneiro, a dar corpo ao personagem de Romeu, também o elevando. A actriz, que o é de forma inteira, esteve sempre muitos furos acima do restante elenco.
Porque marcou indelevelmente esta versão da obra homónima do grande dramaturgo inglês, duas palavras ao nu que surge (e que só por si garantiu a bilheteira até ao final do tempo em que a peça esteve em cena).
Num tempo em que, nestas andanças da representação, se mete o nu de qualquer maneira só para que não deixe de haver, aqui entrou, lá em cima, no plano elevado – enquanto cá em baixo acontecia o texto –, suave, suavíssimo à meia contra-luz assim cumprindo o Amor em que o casal de actores nos conseguiu fazer acreditar – o que já não é coisa pouca –, dessa forma concretizando-o. Mas não só por isso! Também porque esse nu não foi apenas feminino mas de igual forma masculino, integral, tornando-se credível, justo, porque igualitariamente recíproco.
E quem me diria que poderia voltar a acreditar e a ser, por isso, mais feliz?
Claro que esta é uma peça adaptada, “contemporaneizada”, pelo que, sabíamo-lo, muito do discurso falado do original se perderia, o que viemos logo a confirmar. Mas pena, mesmo pena por isso, foi no monólogo de Julieta quando se depara com Romeu morto em que a representação física acabou por exceder em muito um texto brilhante no seu original e que constitui o culminar da história.
Outras notas menos boas ficaram-nos também, pois está claro, a maioria decorrente da juventude do elenco com as culpas maiores a caírem na direcção artística, portanto. Os tempos de entrada das vozes por vezes sobrepunham-nas e os discursos saiam demasiadamente fluidos, rápidos, tornando-se por diversas vezes difícil captar o que era dito, porque dito demasiadamente depressa. Ainda nas vozes, essas por diversas vezes a serem atiradas para o fundo de cena e em tom baixo, o que as tornou ininteligíveis. Mas nada que não se corrija.
Entendo, também, que os efeitos de luz poderiam ter sido um pouco mais trabalhados, estou a lembrar de diversos exemplos ao longo da coisa. Também possível melhorar.
A grande estragação da coisa foi mesmo a segunda situação em que o encenador faz despir o casal e mete um desnudo Romeu em cima de uma despedia Julieta, com o primeiro a pensar que a segunda estava morta. Despiu-se e despiu-a, porquê? Para quê? A tolice do senhor será assim mesmo, claro está, mas cada um tem as suas preferências, pois está claro…
A inverosimilhança chegou-nos foi com o personagem da “Mendiga”, que no original do texto é cumprido por um padre, inverosimilhança essa que se tornou o erro mais palpável e evidente no armar da narração, pelo paroxismo da personagem que, devendo fazer (e fazendo) o contraponto aos excessos da juventude, corporizando o contraditório no desenvolvimento da história, afinal era dealer… facto incompreensível, a meu ver, o que tornou a personagem incongruente, patética e perigosa na sua mensagem. De resto. Quem vende drogas não anda a mendigar transportando o que tem de seu num carrinho de compras desviado do hipermercado mais próximo.
Ainda uma referência ao público presente no dia seguinte ao da estreia, sábado, dia 9, em que fomos. Quando a cretinice não está no palco, está na plateia, e nas frisas, e nos camarotes. Foi terrível e constrangedor estar no meio de tanta abestunta que não sabe estar, mantendo conversas paralelas, atirando dichotes dirigidos aos actores, continuamente perturbando. Foi uma sessão em que metade dos espectadores esteve a mandar calar a outra metade que a momentos ficava basbaque a olhar os corpos nus do casal de actores, para logo se manifestar numa espiral de parolice por demais confrangedora. E a maioria desses autênticos parolos, eram, precisamente, os mais novos, o que nos faz reforçar a ideia de que o país está a andar para trás, como respondia à entrevista de uma revista Pedro Boucherie Mendes (da SIC e SIC Radical): “Os portugueses têm uma relação difícil com o sexo. Espero que no quarto não tenham, mas no dia-a-dia têm”. Mais adiante, na mesma entrevista embora noutro contexto, mas que tem tudo a ver, acrescentava: “Portugal é um país subdesenvolvido a vários níveis”. É, sem dúvida, quando os nossos jovens parecem os mais idosos e não são as calças largas, surradas e rasgadas, ou o boné dos “Yanques”, que conseguem menorizar este drama nacional.
Mas porque ficámos a ser mais felizes com estes putos do Porto, e em grande medida nos reconciliou com o teatro que temos cá em Viana, resumimos:
- Bibó Bolhão, vibó Porto, bviva Viana, bivó o Norte e viva Portugal, carago!
Das notas postas durante o decorrer da peça, escritas na escuridão da plateia, comecei por registar estas que são as palavras com que, agora, termino: Sara Barros Leitão, jovem, ainda em formação, de quem ainda ouviremos falar, tenho a certeza. Teremos país para ela?
Ah! E viva Shakespeare, sempre!

*

domingo, 30 de outubro de 2011

  
*

Madrugada (idem) de sexta-feira, 9 de Abril de 2010 Entrou na Redacção esbaforida, mas não apenas pelo atraso costumeiro relativamente à hora marcada. Tinha discutido com o colega por causa da sentença da psicóloga condenada a três anos de prisão efectiva por ter atropelado mortalmente duas mulheres e estropiado uma terceira, em Lisboa, nas últimas horas da madrugada do verão do ano passado.
Três anos de prisão efectiva! Inaudito na Justiça portuguesa, algo que aguardo há um ror de anos como medida de justiça de um país que quero, verdadeiramente, desenvolvido. O país de brandos costumes de gente que mata na estrada e logo encolhe os ombros dizendo que se tratou de um acidente que poderia ter acontecido a qualquer um…
Do alto dos seus 24 anos, diz-me que é um exagero, que os peões são muito atrevidos, que, que…
Começo por lhe explicar que está a reagir assim porque, condutora, logo se projectou na personagem representada pela assassina do volante em causa. Assenta que sim. Acrescento que não precisa, que não matou ninguém e que, agora, com esta sentença será uma condutora ainda mais cuidadosa.
Logo adianto que a condenada foi alvo de um processo justo usufruindo de todas as condições de defesa e que, à excepção do próprio advogado, não houve ninguém que a defendesse a nível de testemunhas do acidente, antes pelo contrário.
Continuo dizendo – apesar de alguma dose de especulação porque não vi e não assisti ao julgamento –, que se tratava de alguém que àquela hora vinha da boa vida, enquanto as vítimas se dirigiam para o trabalho; que conduzia a 122 quilómetros por hora, numa zona cuja velocidade permitida era de trinta; que os atropelamentos de que fora considerada única responsável aconteceram em cima de uma passadeira com semáforos, naquele fatídico momento com luzes vermelha para os automobilistas e verdes para os peões; que entrou em contradição por diversas vezes nas suas declarações; que chegou ao cúmulo de mentir em tribunal afirmando que o seu automóvel tinha ganhado vida; que ao longo do processo do julgamento nunca revelou arrependimento; no entanto, evidenciou frieza perante o sofrimento de terceiros; entrava sistematicamente no edifício do tribunal de óculos escuros e lenço a tapar o rosto, assim dando relevo a algum sentimento de culpa; por fim, que entrou nesta última sessão desacompanhada, não teve um familiar ou amigo(a) que a acompanhasse.
Não lhe disse que, no que me toca, esta psicóloga é uma gaja qualquer que não merece qualquer contemplação.
Ficou um pouco mais convencida, mas muito longe de totalmente.
No fim acrescentei, em modo de conclusão, que a Lei serve para defender os mais fracos e que entre alguém que atravessa, a pé, uma passadeira e um condutor protegido dentro do seu automóvel, à face dessa Lei considerado objecto potencialmente perigoso, não há dúvida de quem é o mais forte, neste caso.
Não deixei ainda de relembrar os últimos casos semelhantes e mais mediáticos ocorridos em Portugal, quer devidos a condutores quer embriagados, quer simplesmente irresponsáveis, sem que tenha havido qualquer pena de prisão efectiva para os assassinos em quatro rodas.
Conclui dizendo que, com este acórdão, aconteceu um corte epistemológico na Justiça portuguesa, que Portugal subiu mais um pequeno degrau na longa escada do desenvolvimento e que, por princípio, haverá menos hipóteses de quem quer que seja me atropelar na via pública. Ou a ela.

*

sábado, 22 de outubro de 2011


Madrugada (idem) de quinta-feira, 8 de Abril de 2010 Não me contenho e, a algumas páginas lidas, que não são as meia-dúzia que há pouco referia em conversa conjugal, mas já 44, rendo-me às evidências postas a nu por Saramago e muitos autores estrangeiros, acerca da Lisboa pré-terramoto e o seu povo. Algo que cheguei até a detectar em páginas de obras da Fina d’Armada e muito bem descrito no livro de Peter Prince, “Adam, O Espertalhão (do inglês original, “Adam Runaway”) – se bem que mantendo alguma distância porque desconfio sempre dos autores ingleses no que toca às suas peculiares opiniões sobre os povos não britânicos – e que evidencia a vida de luxo e opulência desmesurada da capital setecentista portuguesa.
Mas não é isso o que mais me impressiona. É a sujeição alarve e irracional aos poderes inquisitoriais, sujeição sempre autorizada, por inerência, e que alienava este povéu de Deus transformado em armada de mesquinhos demónios perante todos os outros, perante si próprios. Até descrições encontrei sobre como os lisboetas procuravam, entre abalos sísmicos, salvar as estátuas do Santo António de Lisboa antes mesmo de tentarem salvar os próprios filhos. Aqueles mesmos cidadãos que enchiam o Terreiro do Paço, em festa, para assistirem aos autos-de-fé.
Deus escreve mesmo direito, por linhas tortas. A um de Novembro de 1755, pelas 9h40 da manhã, dá-se o primeiro sismo de três, quando mais de meia Lisboa se encontra no interior das igrejas e capelas, esperando a tarde para a queima dos hereges. Intencional ou não, há sempre uma mensagem subjacente a este pormenor. Não sei se será exagerado chamar àquela Lisboa fanática e perdulária, uma Sodoma, ou Gomorra, dos tempos modernos e, como tal, castigada. Se calhar, o próprio tsunami de há poucos anos que varreu parte da Insulíndia não deixará de ter a ver com a própria região, que entre outras actividades é uma das zonas mundiais de maior turismo sexual, famosa também pela profusão de pedofilia…
Enfim, divago, bem sei.

*

sábado, 15 de outubro de 2011


*


Feriado da Páscoa, segunda-feira, 5 de Abril de 2010 Depois do Natal que o não foi verdadeiramente, na realidade pela primeira vez apesar dos outros bem tristes que o antecederam, agora, uma não-Páscoa, acompanhada de coisa nenhuma.
Terei tempo para voltar a isto, mas não agora. Apenas o registo porque tão importante como aquilo que passa e que é o que não passa devendo passar.

 
Madrugada (sempre) de quarta-feira, 7 de Abril de 2010 Ontem o término da lição Ian Fleming; logo outro volume desvirgo: “Terra”, no título original do geólogo britânico Richard Hamblyn.
Do primeiro fica-me muito: a experiência aventurosa, “verdadeira”, corporizada em letra de forma do mundo feio, ignóbil e necessário das tensões políticas que transmutam a natureza idealmente boa do Homem, em que continuo a acreditar; a assaz mordacidade como moratória das fraquezas humanas; a atitude boccaciana num quase não te rales que nos abre o devaneio perante as complexidades da vida…
Outras análises também me seriam possíveis, mas infindáveis. Por isso uma menção à escrita óbvia de um aristocrata que não deixa de tudo engavetar, bem arrumadinho, na observação fleumática tão britânica, quer se refira a raças, a costumes, a culturas, hábitos, usos e práticas, com uma frieza nada indiferente, apresentando sem qualquer dúvida tipologias, o que será, hoje em dia, pouco aceitável.
Durante as leituras dos quatro volumes em questão, nunca deixei de pensar no primeiro Tintim, de Hergé, cuja aventura passada na Rússia foi completamente obliterada pela intelectualidade europeia do séc. XX, porque politicamente incorrecta à luz das ideologias de esquerda da época e que dominaram a intelectualidade. Felizmente, a obra foi recuperada e bem, digo-o também. Afinal, era tudo verdade.
Nunca, tanto como hoje, a marcação de diferenças foi tão importante, de resto como o preconceito. É ele que nos orienta na vida. Polícia bom, ladrão mau, é óbvio, tão simples como isto - E como andaríamos nesta vida se o não soubéssemos? Não foi o conhecimento a priori que determinou a esfericidade da Terra pelos primeiros sábios gregos?
Contudo, digo-o eu, foi neste esbatimento das diferenças – das raças, por exemplo, assim como aquele dos ritos de passagem –, que o desnorte das sociedades modernas se instalou abrindo caminho às hordas de jovens que, agora, procuram vincar cada vez mais as diferenças com arremedos de heranças de natureza tribal, onde profusamente se instalam piercings, tatuagens, cortes de cabelo escaganifobéticos, como diríamos em miúdos, numa espécie de caminho inevitável da nossa própria existência: procurar saber quem somos!

E depois de Fleming, “Terra”, com os capítulos correspondentes aos “quatro elementos: A Terra, o Ar, o Fogo e a Água. O primeiro, o terramoto de Lisboa de 1755. Porque raciocino a ler e a escrever, sempre voltarei a esta postila que hoje escrevo (o meu dia é feito entre as 12 e as 4 horas) mas, por agora, nota à confirmação de uma Lisboa pré-terramoto dobrada ao poder dos padres inquisitoriais, mas não só, de multidões raivosas, risonhas e ululantes face aos autos-de-fé, numa Lisboa faustosa, mas miserável. Já não tenho qualquer dúvida, pena é que tenham sido os autores anglo-saxónicos quem me revelou a terrífica verdade.
(mal)Bendito Marquês de Pombal!

Não será isto o mais interessante deste livro que agora afagarei entre mãos e dedos nos próximos dias. Outra coisa será, sinto-o no peito e abdómen, agita-me mãos e braços…

*

sábado, 8 de outubro de 2011


Quinta-feira, 1 de Abril de 2010 No dia das mentiras, quinta-feira dita “de cinzas”. Mentira, mesmo, porque poucos se lembram ou importam, um pouco à medida da moral sexual da igreja, ou os já findados discursos de várias horas de Fidel de Castro ao seu povo adormecido.
Neste tempo Pascal, mais próximo me sinto da profunda compunção pela prisão e sanguinário assassínio de Jesus de Cristo, do que da alegria na sua ressurreição. Não é o que quero, mas é o que aqueles que me estão mais próximo do coração me trazem. Pelos actos sim, mas sobretudo pelas omissões, piores que qualquer acção directa e inequívoca com que me pudessem alguma vez ter agastado.

Entretanto, renovo a leitura na continuidade do imaginário das aventuras de 007. Já com alguma nostalgia, termino os contos do “Quantum Of Solace” e pego no último livro da colecção, ”Vive e Deixa Morrer”, cujo título parece fazer-me um discurso directo: segue a tua vida e deixa estar o que não pode ou não quer ser movido. É! De facto, sempre que os tento puxar mais parecem enterrar-se no lodo, como que me obrigando ao esforço enquanto mais se atolam. Nesta luta sem tréguas, esmoreço perante todo o quebranto a que presencio; parecem não perceber da lama que não os deixa respirar, enquanto quase sorriem no estertor do afogamento. Não sei se já desisti, se bem que ainda me revolte; não sei o que serei quando deixar de os ver, definitivamente afundados.


Sábado, 3 de Abril de 2010 Depois de uma tarde inteira de trabalho na Redacção, a montar a edição deste mês da revista, à noite vejo uma (pretensa) versão cinematográfica da Lenda da Excalibur, de um tipo qualquer que, diz a sinopse é “uma impressionante e espectacular versão ‘em Excalibur’, realizada pelo visionário John Boorman”. Não poderá haver maior ridículo acerca da, com certeza, mais bela das lendas medievais. Impressionante, é como os americanos conseguem estragar tudo. Impressionante, de facto!

*


sábado, 1 de outubro de 2011


Madrugada de terça-feira, 30 de Março de 2010 A pena chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona-me. Hoje, pouso-a… mas só depois disto.


Terça-feira, 30 de Março de 2010 Encontrei-a na rua vinda de Inglaterra. Há muito tempo (o suficiente para não me recordar) que não nos víamos. Parou do outro lado da estrada que atravessei, feliz e forte. Aproximámo-nos. Ela insegura, expressão muito vincada; eu, sorridente e afectivo. Beijámo-nos e perguntei por ela, toquei-lhe muito, ela sensibilizou-se ainda mais, mantendo ainda assim a estatuária corporal; contudo, hesitante na atitude, apesar de não vacilar, não tem ânimo para ter a coragem de o revelar.
“Estás velha”, disse-lhe. “O fumo conserva”, replica. Sorrio o mesmo sorriso que lhe levei inicialmente, enquanto penso que o fumo conserva coisas mortas. Sinto que parte do seu espírito está assim. Creio que já partiu para a grande ilha um pouco nesse estado, há muitos anos.
Está coberta de maquilhagem, para além do aceitável, perdeu as gorduras faciais que emprestavam juventude, cobre vários dedos de anéis de todas as formas e feitios, com ouro à mistura e pulseiras várias, mormente os empréstimos pedidos por telefone a Portugal. Usa as unhas com o mesmo corte de muitas que conheci na rua, revela tatuagens e veste como se para a noite em restaurante de renome. Será assim pelas grandes bretanhas, ainda não é dentro dela, acho que nunca o será verdadeiramente.
Não gosto de quase tudo, mas sorrio, apesar de sempre preocupado por dentro.
Pergunto-lhe pelo filho, diz-me que está a tirar umas férias dele e do marido. Tergiversa desde o princípio, o que é uma pena e dá na sinceridade que procuro mas já não sabe ter. Obriga-se então a perguntar pela minha I., pede-me que lhe dê os seus cumprimentos ao que respondo que com certeza, enquanto penso que teria a obrigação de o fazer pessoalmente.
O mesmo sorriso continua na minha expressão de menino. Não o faço propositadamente, é mesmo assim pois, apesar de tudo, a felicidade do momento nunca me abandona; ela não tem a mesma sorte que eu, permanecendo a asserção pétrea do rosto. Despeço-me dizendo-lhe para telefonar para irmos tomar um café, esboça um nim, pouco à vontade consigo própria enquanto paira sobre a lama da incerteza que o momento lhe cola.
Despeço-me sem lhe perguntar quando se vai embora de regresso ao desemprego e ao bairro “Shameless”, pois não vale a pena. Não telefonará apesar das saudades inevitáveis, da mesma forma que não me deu nota desta sua vinda, agora já de há dois dias. Este encontro foi puramente casual, o que é uma pena, como é óbvio.

Telefonou-me do Porto onde estuda em busca de Novas Oportunidades, literalmente. Um estado de vigília, que foi o primeiro, assustou-o… e teve medo de adormecer esta noite. Sou esteio firme dos seus sustos, desde pequenino; continuarei a sê-lo por mais comprido que esteja. Gostaria de ter sentido assim tanta firmeza.

Família: chegam-se-me e logo não durmo.

Disse que pousei a pena. Não pude. Mas não porque me chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona. Apenas porque e tão-somente me sustenta!

 *
 *

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


Segunda-feira (mais ou menos) 3h00 de 29 de Março de 2010 Terminada a leitura do “Dr. No”, de Ian Fleming, o terceiro volume de quatro da colecção recebida da Contraponto, através da Distribuidora Bertrand, logo ataco a colecção de contos “Quantum Of Solace”. Depois do breve “Casino Royale”, uma literatura expurgada de quaisquer maneirismos, outro envolvimento literário neste “Dr. No”, a certificar-me dos dotes linguísticos do inglês amaneirado, então muito criticado pelo forte pendor narrativo em detrimento daquele descritivo. E nisto encontro um Bond muito humano, quase frágil, como não poderia deixar de ser num homem são saído da guerra, que pouco tem que ver com o personagem cinematográfico que admiro e sempre admirei. Essa afeição permanece com o progredir da leitura, cresce ainda mais e eleva-se porque o personagem baixado à terra dos homens.
As histórias curtas deste “Quantum” enlevam-me na sua simplicidade, quase contra a natura das narrativas elaboradas das películas. Só se assemelham nos títulos. Um inicial “Alvo em Movimento” que só necessita de uma estrada, uma árvore, um esconderijo de brincadeiras da criançada e um enredo pouco rebuscado; simples e directo. Depois, uma “Missão Ultra-secreta” que tipifica uma história pouco burlesca de vingança, baixando tão simplesmente o romantismo das missões dos agentes secretos ao assassinato retaliatório.
Mas nestes contos onde ora viajo, descortino já a narração implacável das agonias e que tanto impressionaram os leitores e críticos coevos; porque habituados às doces mortes dos westerns hollywoodescos, sem sangue, rápidas, mortes fáceis em ecrãs, quando as verdadeiras mortes, tal como as descritas em Fleming, são lentas e dolorosas, como que antecipando os grandes planos dos “westerns spaghettis”.
No entanto, nem de perto nem de longe pornográficas como aquelas que se lêem hoje em dia em alguns autores consagrados. Lembro-me no imediato várias agonias oníricas, assim como as mortes dissecadas ao pormenor em Dan Brown, até ao fim fazendo acreditar que há uma réstia de esperança e que nunca se cumpre.

 Mas…

Leituras à parte, hoje passeei. Depois de um fim de tarde domingueiro de jornalísticas escritas, com lua-cheia que condicionou uma vez mais o comportamento da companhia, por isso alterada, saio em direcção ao centro a anteceder a hora de jantar.
Dia brilhante este, maravilhoso, daqueles que se seguem à chuva e surgem sem vento para além da aragem vinda do monte de Santa Luzia. Nestes dias de Março as gatas vagueiam, ou empoleiradas nos muros antigos que ainda não soçobraram, prenhes, melosas e de olhares pungentes, fitam-nos nas ruas esvaziadas de gentes. Rua da Bandeira, avenida Conde da Carreira, um ou outro automóvel, apenas, a que forço a paragem à presença da passadeira. Quedo-me apreciativo das obras da nova rua projectada à rua Nova de S.º Bento, passo a do Gontim, avenida Rocha Páris, quase nenhuns transeuntes, a agora pedonal Mateus Barbosa, subo a Sacadura Cabral e estou na praça da República, despida.
Sei que há futebol, que muitos já jantam, mas será igual daqui a uma ou duas horas, exceptuando as hordas costumeiras de jovens desgarrados, alienados de serem e que são e o são cada vez mais. A cidade está morta, porque já ninguém acredita nisto, aqui ou noutro lugar qualquer. Nem os cafés estão abertos.
Se podia haver dúvidas desta agonia tão real, essas só esmorecem dentro do centro comercial onde vou espreitar a fauna local. Mas mesmo aí só os comes-e-bebes mantém alguma actividade digna de nota. Muitos espaços encerrados cobertos com taipais decorados com fotos da Viana antiga… plena da gente do tempo. Comércios encerrados é o que é, nem sequer os costumeiros dísticos anunciadores da próxima inauguração. Outras marcas instalaram-se em espaços mais pequenos, mais baratos, portanto; outras, inclusivamente, saíram para as ruas de Viana incorporando o comércio dito tradicional.
O centro comercial, numa cidade, constitui o super-predador da estrutura comercial da urbe. Tal como na vida selvagem, o biótipo mais saudável e forte é aquele que mais predadores consegue suportar e fazer sobreviver, alimentando-o com toda a cadeia abaixo. Este está doente. Adoeceu pouco menos de um ano após a abertura e a chaga dos espaços vazios alastra mês após mês, com as algumas das salas de cinema, em invariáveis vezes, a nem sequer darem início às sessões. Isto não contando com aqueles espaços que foram mudando a gerência de ano a ano, quando não a cada seis meses.
Finalmente as pessoas perceberam que não podia ser, que não se pode suportar tanto. Talvez agora possamos começar muita coisa de novo, depois de percebermos a felicidade de não ter e de não dever.

*

*

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


*


Sábado, 27 de Março de 2010 A espaços, invadem-me sentimentos de nostalgia. Antes, vinham-me sem que me recordasse da vez anterior, mas já não agora, que vêem em separadas e distintas ondas, às vezes por menos de um dia.
É uma saudade profunda que me aperta o peito, ao centro, fazendo-me sentir o coração em medo. Têm sido cada vez mais fortes e recordam-me, pouco vagamente, creio que a segunda metade dos anos 80, até que, já emparelhado e com os três rebentos, caí do meu pairar conhecendo as razões deste mundo no fundo dos ossos.
Há pouco, foi a recordação dos "Marillion", agora velhos (mas melhores, como o vinho do Porto, sem dúvida; não, não é cliché), que preparam, para hoje mesmo, um concerto “fechado” a apreciadores da banda, em Lousada, onde se encontram numa quinta de turismo rural.
Não busco as razões deste sentir tão fundo que num pesar me parece dizer que “nunca mais”; creio que delas não quero saber, porque o meu espírito já as conhece bem. Eu, apenas não quero aperceber-me delas, que serão muitas e mais ou menos terríveis: a distância daquela felicidade meia adulta, meia imberbe e que já não volta; os filhos cada vez maiores e cada vez mais longe com os seus silêncios impertinentes cada vez mais longos, primeiro de dias, depois de semanas, a rapariga de anos, se preciso for; a entrada na meia-idade (a idade a meio da vida, é o que é) que espero que tenha razão para assim tomar o seu nome; a doença da companheira que nunca me pode acompanhar no passo comprido e estugado de horas sobre montes e vales e… esta secura ao fundo da garganta desde há um ano e que agora me começa a incomodar o engolir e, por vezes, me condiciona a respiração durante o sono nocturno, a conversa mais longa ou o tom mais alto em que tento colocar a voz. Secura cada vez maior, que me agarra o catarro e que, até ao momento, ainda não conheceu olho clínico que a espreite…

*


sábado, 10 de setembro de 2011

Quinta-feira, 25 de Março de 2010 Convidei-a a substituir quem saiu da revista, mas acho que já me arrependi, ou vou acabar por fazê-lo mais cedo ou mais tarde. Diz que “temos muito que conversar”, depois de mais de trinta minutos de faladura inconsequente ao telemóvel, comigo com ambas as orelhas a arder da radiação. Diz que sabe porque é que as pessoas compram a minha revista, sem nunca a ter lido, classifica-me de volúvel, sem nunca ter estado comigo, quer fazer uma sociedade por quotas, sem que eu saiba de quê; diz-me “eu faço o que quero”, a máxima do “Hellfire Club” celebrizada pela saga cinematográfica “Emannuele” e repete-a várias vezes, concluindo: “Temos que falar!”.
*

Receio esta gente louca. Tenho passado os últimos anos a fugir deles todos, mas os ossos do ofício acabam sempre por me obrigarem a isto. E, eu, tenho mesmo azar nestas coisas, saem-me os duques todos.

Pelas 3h00 Pouco mais de uma hora após levantar-me, mais cedo do que devia às horas de sono, digo a mim próprio que nada do que possa correr ao longo do dia mo poderá estragar. Os dias, ou melhor dizendo, semanas de downloads através de Emule pagaram-se a si próprias. Consegui muitas gravações antigas de Jethro Tull e o seu rock progressivo (adolescentes, chamávamos-lhe "rock medieval") admirado pelos melhores entendedores norte-americanos, de vez rendidos, inicialmente a conjuntos como os Beatles e Manfred Mann, depois Led Zeppelin e Deep Purple, Pink Floyd… No meio disto tudo, Ian Anderson e sua banda que continua a preencher-me o imaginário maravilhoso. Pela pantomina, o ridículo transformado no belo, o teatro, o guarda-roupa. Consegui fazer as gravações e, apesar de em ficheiro avi, o velho leitor DVD comprado a preço depreciado nos primórdios da tecnologia, conseguiu fazer o reconhecimento dos dados que, no ecrã da TV ainda com cinescópio que mantenho, me ofereceu um espectáculo imenso de encontro com o maravilhoso. Sinto-me, uma vez mais na vida, Alice no País das Maravilhas.

No entanto,

                   tão grande pode ser o engano. Não, não foi o imenso trabalho ao longo dia nem as obrigações (e tantas impertinentes) que acabaram com o fascínio e encanto em que me deixei submergir, feliz como um menino. Foi o texto que, tal como ontem, me ocupou várias horas até à chegada da maquetista cuja chegada à Redacção tardou e me fez fazê-la ir trabalhar no próximo fim-de-semana, situação por si deveres inconveniente e arrasadora deste resistir a que diariamente me imponho. O texto sistemático, construído sinteticamente a partir de diversas fontes de informação, oficiais e não, acerca do linchamento ocorrido no passado dia 5 de Março do filho e sobrinho de conhecidos meus de décadas, talvez há já mais de trinta anos. As minhas faces contraem-se várias vezes à medida que leio, transformo em frases telegráficas a narração dos eventos, os discursos directos das fontes, sempre ocultas, a ausência de detenções quase três semanas após a morte do jovem de 19 anos sob os pontapés no crânio dos quatro a cinco energúmenos apontados à boca fechada. Nunca um texto jornalístico me custou tanto em quase vinte e sete anos de textos jornalísticos. A prova a que estou submetido continua a mortificar-me dia após dia, enquanto procuro e a transformo num único texto.
Pais e tios do rapaz continuam a negar o seu envolvimento nos distúrbios e desacatos havidos nos dias, semanas e meses que antecederam o linchamento. Os moradores das redondezas não o negam. Os antigos companheiros do desgraçado continuam a assegurar vingança ao episódio por todos descrito como um caso de “justiça popular”. Não sei quando isto terminará e o fim não está à vista, apesar da Polícia Judiciária assegurar que a resolução do caso está para breve.
A minha afectação é grande, a dos meus filhos também, pois conheciam bem o rapaz, deles vizinho. Escrevo o Editorial desta edição a espaços. Tenho princípio e o final compostos, ainda não sei o que incluir no desenvolvimento. Pouco material dessa peça escrito ainda, mas que me parece já tão longo.
Não vejo a hora de acabar.
Lá fora, a chuva e o vento matam-me as alfaces nos Hortos.

*

domingo, 4 de setembro de 2011

 *

Quarta-feira, 2h00m de 24 de Março de 2010 Os Hortos! Há muito devia ter referenciado aqui o meu lugar, mil metros quadrados de terra de cultivo na freguesia vizinha, lá, atrás de tudo, onde me perco e encontro. A referência era há muito necessária, forçosa até porque me sinto obrigado à memória… para que não me apague, no mínimo.
Hoje, aprendi mais umas coisas do livro que é a vizinha, Maria de nome, mas não só, Conceição também, “Maria Parola” chamam-lhe ainda, mas mais esperta que todos eles juntos. E hoje o Livro ensinou-me duas coisas que me parecem fundamentais: “Ensinou-me uma coisa muito grande”, retorqui-lhe ao ensinamento: “Não ponha o cebolo esta semana, que há lua, e espiga”. Pois, espiga, claro está, serão vinte e quatro horas muito luminosas durante uns dias, até que a noite caia de vez no Quarto Minguante. “Porque não mete uns brócolos?”. Sorrio. “Brócolos?”. “Sim, já viu lá em cima? Vá ver, vá ver!”. E lá fui acima, à sua horta das alfaces, da couve tronchuda, das favas, das flores e mais ainda, mas daquilo nada encontrei. Vi o resto, que espreito sempre para aprender e aspirar a mais um pouco, mau grado o escasso tempo disponível para este cometimento. Pouco depois confessei-lhe que não encontrei, por muito que procurasse. “Então não viu, no meio da selada?!”. Afinal vira, aquelas minúsculas folhinhas, a iguais distâncias no meio das alfaces. “Ponha, ponha, depois tira a selada e deixa ficar os brócolos”. Pois, assim tão fácil. “Muito obrigado, Dona Maria. Então devo deixar passar a lua para o cebolo. Que me diz, daqui a quinze dias, na Lua Nova?...”. Sorri satisfeita, percebe que percebi.
Duas coisas fundamentais que deviam, desde logo, me fazer ganhar o dia: o cebolo planta-se na Lua Nova; já os brócolos podem ser feitos em consociação com as alfaces. Fixo isto, mas falta-me tanto mais…
Sim senhor. Esta sexta-feira farei um segundo plantio dessas últimas e o cebolo ficará para a outra sexta, daí a quinze dias. Entretanto, não preciso regar tanto as ervilhas que estou a fazer, pois precisam de menos água; mas, para as alfaces que estão e para as que hão-de vir, tenho de ter mais cuidado com a rega que tem sido parca (também o soube hoje). Entretanto, vou limpando a terra à volta das árvores que plantei e limpando a horta das nabiças, a primeira, aproveitando o terreno já algo enriquecido com adubo orgânico e um pouco do químico.
Pena este trabalho, que tanto me limpa o peito e a alma, não dar dinheiro!

*

segunda-feira, 29 de agosto de 2011



*

Terça-feira, 2h00m de 23 de Março de 2010 Mais de um mês passado sobre o desastre “natural” na Madeira – e apesar de ter sido logo accionado o respectivo fundo de emergência da União Europeia, do Governo do “contenente” ter disponibilizado toda a ajuda imediatamente possível e o cacique local ter levado avante, uma vez mais, o seu orçamento –, os estabelecimentos comerciais das grandes marcas deste país continuam a pedir-me dinheiro. Seja na aquisição de equipamento desportivo, de roupa, nas mercearias, na comida de plástico ou no bilhete de cinema, insistem em pedir para arredondar (para cima) o valor das minhas compras… “para ajudar a Madeira”. Continuo a dizer que não.Mas a tão propalada “onda de solidariedade” persiste e insiste, nos canais de televisão, da rádio, na imprensa escrita e na Net. Bem vistas as coisas, já quase só se deve à iniciativa do principal grupo comercial que domina as despensas desta pátria que exime as muitas culpas na nacional esmola, e que até parece que é oferecida ao Estado. Fazem saber a isso, sabem-na toda…
Mas não é. É um grupo privado que há muito vem a fazer diversas filantropias (para as criancinhas, para os idosos, para os desgraçados da vida) com o dinheiro do Zé povo, que não sabe disto ou não tem a coragem de dizer “já chega!”. Mete o seu rico dinheirinho nos cofres do enorme monstro que tudo domina – hipermercados, centros comerciais – e que tudo seca à sua volta, em todo o país, obliterando os negócios de muitos daqueles que, ora, não sabem ou não conseguem dizer “não” ao sorriso da jovem caixa, especialmente à frente da fila que aguarda pacientemente a sua vez… de pagar a esmola que, dada em nome do grande grupo económico, vai subtrair ao seu valor a pagar em sede de IRC ao Estado português. Suga-os a todos duas vezes e, a mim, uma, pelo menos.
A Madeira já está bem. Os trabalhos de reconstrução seguem a bom ritmo e os empreiteiros voltam a fazer milhões no meio da crise. Os industriais do turismo já esfregam as mãos com o retorno dos turistas, retorno esse constatado pelos telejornais. Os trabalhos de limpeza varrem as lamas e detritos à Primavera ora chegada, as chuvas que continuam imensas fazem branquear o resto.
No meio da teimosa contumácia do arredondamento “para a Madeira”, não esqueço que muito rapidamente se deixou de mencionar os quarenta e dois mortos e os sessenta e oito feridos que ficaram para trás – na memória também levada pelas águas malditas –, devidos à irresponsabilidade de construtores civis e governantes locais, apesar dos avisos de décadas de cientistas e grupos ambientalistas. Não interessam as malfadadas recordações das vítimas, até porque é mau para o negócio; já não, não vão ensombrar o espírito de solidariedade promovido pelos gabinetes de comunicação daquelas grandes marcas que não me largam e repetem, já muito inoportunas, todos os dias, a mesma pergunta: “Arredonda-se para a Madeira?”. Impertinentes!

Todo este tempo passado, todos estes dinheiros corridos, e ainda nada ouvi acerca de indemnizações às vítimas e às famílias dos mortos.

*