sábado, 16 de março de 2013


Sexta-feira, 13 de Outubro de 2010 De volta aos hortos, em grande. Mais duas hortas cumpridas, conversa com a vizinha escapada ao marido, que continua a ser o mais importante livro de aprendizagem aberto. É sempre tudo bom, naquele sítio.


Madrugada de segunda-feira, 16 de Outubro de 2010 Depois de ver de enfiada (finalmente) o “Kill Bill”: há dois realizadores que me fascinam mais que quaisquer outros – o Tim Burton, pelo maravilhoso; e o Quentin Tarantino, pelo horripilante.


Madrugada de quinta-feira, 19 de Outubro de 2010 Dia de Hortos com a primeira matadura de praga, depois de muita couve comida. Remédio santo, porque da ciência inventado a derrubar inexoravelmente as poucas lagartas verdes que restaram, depois de vários dias a tirá-las à mão. Primeiro lançando-as para os matos vizinhos, voltaram; depois, esmagadas a fazer adubo, continuaram ainda; agora, ficaram a revolverem-se à queima da calda, mas só depois de muito dias e mais estrago. Sempre lamentável, mas necessário. Que os dois baldes e meio daquilo, a matar numa horta e a prevenir noutra, sejam unguento à boa produção, agora menos biológico à brancura leitosa da mistura.
Depois, mais um rego aberto a encher das favas que sobraram de sexta-feira passada. A semente de salsa trouxe-a para casa, pois já me falhou por duas vezes no sítio e os vasos em estufa da marquise devem dar-me mais garantias. Depois trarei um pouco do campo cá para casa a aumentar à terra das floreiras que quero ver a explodirem nos rebentos verdes aromáticos. Que assim seja.

De permeio a estes labores, o telefonema da empresa com evento adornado a secretário de Estado com convite para a revista. Pedi a necessária reciprocidade, mas não, julgam-se notícia e não interesse comercial – nunca aprendem nada e eu já não tenho paciência para ensinar que novidade não é notícia. Que fiquem com os seus vinhos. E que deixassem o secretário de Estado na sua secretária. Uma vez que não resolve os problemas do país, pelo menos não gastaria dinheiro ao erário público nestas operações de marketing político a coadjuvar o marketing comercial de quem quer ser notícia sem custos. É isto que recuso a aturar.

(por inícios de Outubro)
“Deus é Amor” – eis a frase que tudo encerra! Tudo o resto é perversão.


Madrugada de sábado, 23 de Outubro de 2010 Terminadas “As Regras da Vingança”, de Christopher Reich. Bom, para o género (espionagem), mas, insisto, nestes livros destes novos autores americanos, o manancial de informação é de tal forma que impede a exploração literária dentro do género. Os enredos são fabulosos, dentro desta espécie de inventar sobre o inventado, mas as narrativas tornam-se autênticos guiões cinematográficos e pouco ou nada resta do que uns lampejos d’ambrósia de palavra escrita, o que é uma pena.
Mas enfim, é o mundo do hoje, aqui e agora, em que os deputados (da direita, claro), passam das comissões de inquérito à multinacional a quadros dessa mesma, numa vertigem vergonhosa que a todos constrange, como os noticiários não deixaram de denunciar, ontem e hoje. E as caras e expressões, destes homenzinhos que fazem estas coisas, são o espelho do monstro que devora os últimos resquícios de seriedade política.

Tudo isto em dia atípico, com adiar de afazeres mas outros encontrados, já madrugada dentro, para além da ida ao mercado a comprar mais umas verduras a fazer crescer nos Hortos. E pela falta de estufa, alguma semente de salsa posta nas floreiras com terra queimada pelo sol, agora revirada para fazer crescer melhor, para alegrar a cara-metade que fez magnífico cozido.

Noite dentro, deixo ainda ficar no sítio os últimos volumes da II Guerra e pego em título fantástico e prometedor, de Katherine Howe: “O Livro de Feitiços de Deliverance Dane”. Com súmula interessante, gostaria que fosse narrativa masculina, mas não. Bah, arrisca-se! O problema é que não gosto de parar, mesmo quando não gosto.


Madrugada de domingo, 24 de Outubro de 2010 Impõe-se a escrita; e a contagem.
Hoje talvez tenha terminado os plantios e semeaduras para a época de Natal. Abri dois regos novos (não contava ter de abrir o segundo), botei-lhes cerca de cinquenta pés de couve tronchuda, devidamente adubada, aguada, e ainda lá deixei mais de uma vintena de novas alfaces a compor o ramalhete.
Hoje conto: na horta seca há brócolos, couve-flor, nabiças e “ervilhas-tortas”; na outra, couve penca, a tronchuda, nabiças de nabo, quatro variedades de alfaces, cebola “de inverno”, mais ervilhas, favas, abóbora e ainda salsa.
As alfaces pegaram melhor agora do que na primavera e as primeiras, as vermelhas, ditas “de inverno”, crescem a olhos vistos. Não falta água e a temperatura tem-se mantido estável. Agora, vigio e guardo.
Mas talvez ainda não tenha terminado: uma hortelã ao lado da salsa iria muito bem…


Madrugada de segunda-feira, 25 de Outubro de 2010 Hoje choveu. Em muito tempo, para a época. Depois de várias promessas ao longo do mês por parte da meteorologia, depois de não ter queimado os montes de ervas secas acumulados, eis que chove copiosamente no seguinte à farta rega nos Hortos, para grave lamento dos recursos desbaratados – água do poço e gasolina.
Mas teve de ser. A semana de trabalho que ora começo, é proibidora de mais folgas em trabalho campestre, pelo menos até sexta-feira próxima e, por isso, não podia arriscar um stress hidráulico às culturas; muito menos depois do largo trabalho desenvolvido ao longo de todo o este mês.
Esta faina agrícola tem muito mais a ver com o trabalho editorial do que à primeira vista possa parecer. Em ambos me disciplino, ao nível de uma tropa. Nos horários e períodos cumpridos, quase religiosamente; na disciplina auto-imposta; no bem-fazer à primeira, assim evitando duplicação de trabalhos e facilidades na renovação seguinte.
Até sexta espero, entretanto, o regresso ao idílico local de que cada regresso de imediato se transforma em saudade; sou lá e só. Lá feliz, permanentemente; saído recomposto, sempre.


Madrugada de terça-feira, 26 de Outubro de 2010 Pela tarde dei-me ao luxo de uma hora em esplanada à borda d’água a fazer a leitura dos jornais regionais da semana passada.
De través à praça da Liberdade, já com algumas páginas lidas, sentam-se, presumo que, mão e filha, esta bem ensinada, menina da escola de música, em filial raccontami do dia. Um prazer de fina conversa logo esvanecido pela chegada de duas análogas, um pouco mais velhas, nos quinze, dezasseis anos, mas mais a cheirar à gazeta às aulas da tarde.
“Quem pode, pode!”. Chegaram em altos brados alvancados a palavrão do pior, redundante e grosso. Sentaram-se na mesa a meu lado sustentando o nível do vozeirão, nutrindo a imundice. As rédeas estavam na mão da mais desbragada, a conspurcar o nome do pai e da família – “Quem pode, pode!”. Que o pai chegara e dissera: “Vamos ao restaurante”. “Que era uma falta de respeito, por quem fizera a comida” e que “lá fomos, para o c… do restaurante”. – “Quem pode, pode!”, e outra, de ar timorato mas como que obrigada ao passo de corrida da língua da colega, repetia: -  “Quem pode, pode!”. Que a mãe “andava a pensar comprar um Smart”. E logo a seguir: - “Quem pode, pode!”, regado à obscenidade do turquilópio.
A cidade (e a vida, presumo) está agora cheia destas moças. Entopem as ruas, atravancam os espaços, cobrem passeios e avenidas, aos pares, em grupos de três, quatro, ou mais de uma dezena, aos fins-de-semana, nos acessos ao centro comercial, assim como nestas esplanadas à beira-rio. São estas as dos “dá cá o telemóvel”, das agora aposentadas professoras. São as mães de amanhã, de que país, pergunto eu na pesarosa reflexão que nem ínvios caminhos encontra que emendem estes globais desvios do ser, agora tão perto, também, do não haver.
Nem lei dos homens, nem lei de Deus.


Madrugada de quinta-feira, 28 de Outubro de 2010 Termina-se longo dia, de muitas horas de trabalho em manhã, tarde e noite; pesquisa; exterior e execução; fontes informativas, distribuição da revista (até Espanha) e foto-digitalização; a começar em casa, subir a norte e saída da Redacção depois das vinte três. Para ceia de meia-noite, conversa à cara-metade também com poucas horas de sono e mais planos diários de serviço para o dia de amanhã, já contando com as gravações para o programa radiofónico desta sexta-feira próxima.
De permeio, a viagem a subir a norte, junto à costa, com amigo trabalhador e solícito, colaborante nos meus mesteres que ajudam ao seu saldo mensal; boa conversa, outrossim tainada breve a queijo e jamon que regou a cidra. Depois, o patriótico regresso em pressa e ligeiro atraso para umas horas de montagem com companhia fresca e airosa, a prometer mais para a semana.
De parceira já no sono reparador, mas sempre nervoso, o fascículo de colecção comprado em mãos, a antecipar a leitura interessante, mas sem horas onde a meter; também a juntar a um outro, vindo em primeiro número da colecção respectiva. Bonecadas por que me apaixono.
Colecciono primeiros números e os primeiros exemplares acumulam-se. Gostaria de os ler todos, mas o espaço já me falta tanto quanto o tempo, tão mingado quanto maiores são as pilhas de livros alinhados a ler, a apreciar com certeza, a tocar sempre, garantindo às narinas o seu odor reconfortante, como de pão fresco na cozinha e o vinho que não bebo, na garrafeira.
Na impossibilidade de tudo ler, algum escrever que já é longo caminho de vida e cujo princípio há muitos anos não descortino, quase outra vida. Sou agora moléculas outras, mas ainda cerne de antes corpo haver, sou memória de mim.

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sábado, 9 de março de 2013

Madrugada de quarta-feira, 06 de Outubro de 2010 Nas entrevistas de rua a propósito das comemorações do Centenário da República, muitos cidadãos e cidadãs anónimos, com predominância das últimas, fazem apologia da monarquia. Talvez achem que as revistas “Maria” ficariam mais interessantes.
Foi por isto que os revolucionários de 1910 afinal não lhes deram o direito de voto. Mas não é isto o mais preocupante. É este país continuar, agora e sempre, dividido.


Madrugada de quinta-feira, 07 de Outubro de 2010 Vejo um programa de sátira política norte-americana, num canal da TV por cabo (haverá outra?). Entrevistam o chefe sindical local sobre o facto das manifestações contra as actuais condições de trabalho de uma grande cadeia de supermercados serem formadas não por trabalhadores, mas por indivíduos contratados a agências de trabalho temporário para cumprirem os protestos entoando cânticos enquanto empunham cartazes reivindicativos; também acerca do facto desses temporários serem retribuídos nas mesmas condições dos tais trabalhadores da tal cadeia, os quais não se apresentam à manifestação para não verem os seus ordenados diminuídos.
O sindicalista que nada nega, diz abertamente, após muitas hesitações, que não sabe “o que é que deve responder” às questões do (convenhamos) pseudo-jornalista do programa.
É possível ser-se tão imberbe? É possível, aquilo? É!


Madrugada de segunda-feira, 11 de Setembro de 2010 Socorrendo-se da imagem e voz do velho actor respeitado, sorridente, em anúncio publicitário na TV a grande empresa de telecomunicações, faz saber que é a melhor, “porque é a que mais cumpre o que promete”. Como se algumas promessas não o fossem, verdadeiramente. E tal como o actor, o pagode aceita e ri.
Estes são tempos cegos e não há sequer zarolho que nos salve disto.


Madrugada de quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 No jogo de hoje em que a selecção portuguesa ganhou por sofrível “um-três” à Islândia, país –economicamente depauperado e que protesta ao som das panelas de cozinha batidas na rua pelos seus cidadãos aos governantes –, o rapaz, talvez o mais brilhante de todos a seguir ao nosso mais-que-tudo do futebol luso, foi bem o paradigma deste país que esvazia as suas energias e inteligência como balão furado.
Bem-apessoado, galã de meninas, foi já dado como caso de sucesso, exemplo do jovem proveniente de bairro social que singrou na sua arte à conquista do mundo. Mas não concordo. O verdadeiro êxito pessoal não se consegue através dos contratos milionários que apenas serão, porventura, o efeito; consegue-se, sim, colocando em jogo na vida, a honestidade, o rigor e a probidade. O talento com que nascemos tem de ser utilizado de forma positiva, construindo-nos, assim, ao longo de tudo. Mas ele perdeu-se em volteios, simulações, e eu fico a perguntar o que não alcançaria, e outrossim a sua equipa, se toda aquela inteligência e recortes técnicos fossem postos ao serviço de um desempenho íntegro, limpo de subterfúgios.
Tão bons somos na arte do fingimento, mas tão maus para com a verdade. A desportiva, ou outra qualquer.


Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 “Estive com Deus e com o Diabo. Ambos lutaram por mim, mas eu agarrei a mão boa”. Foram estas as palavras de um dos primeiros mineiros a ser resgatado da mina chilena que sofreu colapso em Agosto passado, soterrando-os.
No dia 13 de Outubro, dia de Nossa Senhora, os trinta e três mineiros começaram a chegar à superfície, ao ritmo de meia em meia hora (33 em 33 minutos?). Também continha 33 caracteres, a primeira mensagem enviada para o exterior, logo que as comunicações entre a superfície e a bolsa de confinamento, a 700 metros de profundidade foram tornadas possíveis.
Com toda esta numerologia, relacionada com o surgimento da Mãe aos pastorinhos em Fátima e a idade adulta do Cristo, todos chegaram vivos e bem, de saúde física e mental.

Sobre o fenómeno destes dois meses de confinamento do grupo que reagiu sempre positivamente, dos impactos físicos e psicológicos, das inerentes descompensações e da forma como compensaram, a Medicina está interessada, a Psicologia também e até está a investigação espacial. Os técnicos das áreas investigam e discutem (devem fazê-lo, aliás), mas a resposta estará bem mais próxima do que a formulação de hipóteses científicas poderia admitir. O sempre católico Chile compreende bem esta força dos seus mais esforçados, porventura dos economicamente e até educacionalmente mais débeis, que labutam esforçadamente todos os dias do mês de trabalho, erigindo os seus lares, criando as suas famílias. A energia destes trabalhadores em paupérrimas condições materiais, condições essas que, por pouco, não os matou a todos, adveio e advém da força da Fé. Todos o afirmaram. Todos, sem excepção.
33 os dias de perfuração.
33 o número de países alí representados por jornalistas. 
União (entre os homens), Esperança (na salvação) e Fé (em Deus), três sentimentos comuns no discurso religioso, permitiram àqueles trabalhadores, ao longo daqueles 69 dias indubitavelmente difíceis, confrontados com a forte possibilidade de morte, manterem a serenidade a que assistimos ao longo destes  dois meses.
Quais psicologias, qual carapuça?!
Estes três sentimentos apenas que, dizemos nós, foram verdadeiro “remédio santo”.

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sexta-feira, 1 de março de 2013


Madrugada de segunda-feira, 27 de Setembro de 2010 Hortos precisamente uma semana depois. Saído da aposta na Redacção (que resultou), nos Hortos fiquei, uma vez mais, mais tempo do que pretendia e regressei já noite, com o trabalho planeado feito e um pouco mais ainda.
O Outono entrou e nem dei por ele. Interessa-me o ciclo semanal da chuva, porventura mensal, à medida do trabalho de secretária e das voltas a pé que tenho de dar; as leituras auto-impostas a cumprir.
Hoje terminei “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, o mais pungente episódio de guerra que até agora conheci. Move-me o sofrimento de todos os massacrados e até de todos os outros que das falésias, das colinas ou donde fosse, mantiveram os dedos crispados em torno dos gatilhos que fizeram soçobrar mais de duas mil vidas em menos de nove horas. Muitos destes tiveram que viver o resto das suas vidas com o que tiveram de fazer.
Enquanto aguardo nova remessa, volto às americanadas em volume cujos caracteres do nome do autor são maiores que o título. Por isso: Christopher Reich e o seu “As Regras da Vingança” é o livro que segue, de que espero enredo à forma de filme com pouca literatura e suspense na acção que baste.


Madrugada de quarta-feira, 28 de Setembro de 2010 O primeiro-ministro anunciou medidas tidas por draconianas para fazer baixar o deficit. Ouço-as e sei-as duras, mas não me larga a sensação de que já deviam estar há muito tempo atrás.
Mas falta o resto e, dessas, duas principais: à uma, uma apertada fiscalização de todos esses empresários que chegam ao final do ano com não mais que uma centena de recibos passados, que andam em automóveis de gamas que o seu pequeno e único negócio (correctamente taxado) nunca proporcionaria, assim como as férias nas Suíças e Bruxelas que fazem todos os anos com mulher e filhos; à segunda, a criação, para além deste novo imposto aos bancos, de escalões de taxamento sobre o nível de lucros desses mesmos e das agências financeiras.
Bem feito, isso punha este país no domínio da hombridade em seis meses.

Fui levar “As Reflexões” ao padre director. O artigo que não foi publicado na edição deste mês e o seguinte. Optei por entregá-los em mão porque perdeu o primeiro.
Entretanto, de Julho para cá, tenho lido integralmente o jornal paroquial, porque quero conhecer tudo o que lá é escrito. Quando nos metemos num buraco, deve-se conhecer bem quem já lá está; depois, os outros que entram também. É que, agora, faço parte da equipa (farei?). Nisto vou redescobrindo porque nunca me meti nestes fossos da vida. Muita da linguagem que lá é utilizada, é agressiva. Muito hostil e até provocadora, como geralmente não se vê nos outros tipos de publicações periódicas. Ainda assim, a minha colaboração neste jornal tem-se vindo a tornar para mim muito interessante a nivel intelectual e espiritual. Mas em pouco tempo já entrou no domínio político. Sairei brevemente?


Madrugada de quinta-feira, 30 de Setembro de 2010 Dia terminado a ligeira dor de cabeça. Pensar pouco e boa postura no sofá, para não culminar em enxaqueca só debelada a comprimidos.
Cumprindo promessa à cara-metade desmarquei o trabalho de montagem da revista, tempo também pedido pela designer, e fomos ao cinema para ver sequela que há algum tempo queria. Tive de decidir acerca disso ou do jogo do campeão nacional na liga milionária. Optei contra todos, que estavam a seguir o jogo e meti-me na sala de cinema. Decidi bem, contra a corrente deste mundo de deficit, dívidas e mais deficit. A acumulação de pontos no cartão da empresa proporcionou-nos dois bilhetes gratuitos para sala totalmente por nossa conta, em cinema de quatro salas completamente vazia.
Nada como obrigar os poderosos a servirem-nos só a nós, melhor ainda que ganharmos em futebol a ingleses e alemães. Mas desta vez, nisso, perdemos.


Madrugada de sábado, 02 de Outubro de 2010 Quase não escrevia isto porque ainda tenho as unhas cheias de terra. Depois das compras de ontem, hoje o plantio e sementeira, na terra tratada esta semana mesmo.
Começou novo ciclo de vida nos Hortos, com o anterior a produzir ainda, para além da renovação natural que brotou entre as daninhas, em pintalgos de surpresas já traduzidas em brócolos de semente que me aumentaram a felicidade. Junto couve penca, mais alfaces e nabal, este último em terreno novo a partes mal cavado. A ver as conclusões da experiência.
Estou à frente do meu tempo neste regresso à terra de que só lamento não ter começado dez anos antes, pelo menos. O corpo já só é para manter nestes anos que avançam inexoráveis. Aproveitar bem o tempo que resta desmultiplicando-o em cada segundo de vida percorrida. Construir este futuro que começa hoje, com esta energia que move mundo cada vez mais cara e transportes mais dispendiosos. Um dia acabará a maçã do Chile barata e até as laranjas da vizinha Andaluzia. Não haverá cidades cada vez maiores e luminosas, mas um mundo mais parecido com o antigo, onde os custos de transportes nos farão regressar à terra e as cidades encolherão porque ficará muito caro percorrer as distâncias até ao centro todos os dias para trabalhar. Os projectos de construção inacabados darão origem a leiras, courelas, bouças e pauis, muito mais depressa do que se poderia imaginar, porque a Natureza vai buscar o que é dela muito mais rapidamente do que nos lembramos. E os promotores imobiliários que corriam a transformar o artigo rústico em prédio de construção, vão perceber que a procura será o seu inverso para que a hortaliça para a sopa e a fruta da sobremesa possa vir a ser mais barata na meã da família constituída.
Por isso, depois do desvario e da crise, auguro um mundo melhor, de energias mais limpas e maior comunhão com a Natureza, com as pessoas a perceberem que o que lhes vinha a ser vendido como “ecológico”, “orgânico” e “sustentável”, mais não era do que a necessidade do próprio mercado que entendeu que essa era a única via possível.

Depois do verão de quase suão furioso, a chuva que começou por cantar ainda antes das últimas pencas estarem metidas na terra, agora bate furiosa trazida pela borrasca que mais agrava. Depois da entrada do Outono acabou definitivamente o Verão, confirmo, enquanto rezo para que as alfaces aguentem o vendaval.

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