sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Madrugada de sexta-feira, 23 de Julho de 2010 Com uma profunda pena, arranquei à terra a última das alfaces da temporada. Vai Julho alto e as nabiças já escasseiam, o brócolo já chegou ao fim e as cebolas já estão todas encaixotadas. Aguo agora as abóboras pouco mais que desenxabidas e luto pela suculência de menos de uma vintena de couves lombardas, que me parecem prometer, mas que a vizinha há muito me anunciou costumarem sair muito rijas.
Agosto está à porta e anseio já pelas culturas de inverno. Nova semeadura de nabiça e estreia à couve penca, para provar no Natal.
Prosseguirei para já a limpeza do terreno, talvez a recuperação de partes de muros e, se nada mo impedir, este fim-de-semana coloco a primeiro uso o aparelho com o herbicida, pois os silvados das bouças vizinhas caem outra vez cobrindo as pedras arruinadas.
Com alguma sorte, a bomba de água avariada irá amanhã para o representante, segundo promessa de amigo com quase um mês de palavra dada, a ver vamos.


Madrugada de sábado, 24 de Julho de 2010 Vivemos tempos interessantes. Há dois dias um alto dignitário da igreja portuguesa veio a terreiro insurgir-se contra os responsáveis financeiros pela crise económica que atravessamos. Com um ar de quem, sem a batina, e faria bem passar por mais um banqueiro, falou das culpas dos bancos neste frenesim de créditos distribuídos a torto e a direito, de uma forma que muito poucos se atreveram a fazer recentemente; da condenação dos mais vulneráveis às tentações do crédito fácil, concedido por quem deveria ter mais responsabilidade na sua atribuição. E acabou por apelar à revolta social.
No dia de ontem, na resposta ao torvelinho do jornalismo, desafiou os detentores de cargos políticos, eles também no rol das suas acusações, a cederem vinte por cento dos seus rendimentos às organizações que trabalham para os mais necessitados.
Hoje responderam os políticos, da esquerda à direita. Que a caridade é com cada um, que a doutrina católica ela própria diz que a mão esquerda não vê o que faz a direita, que têm a consciência tranquila no que toca às suas contribuições caridosas.
É fácil e óbvio dizer que o sacerdote não tem base de sustentação no seu apelo, porque é assim mesmo. Mas, digo eu, até que enfim alguém da hierarquia mais notória, que não um simples pároco, dá finalmente um murro na mesa exigindo um “basta” à horda de bancos e instituições financeiras que ainda há bem pouco, nas suas próprias palavras, lhe haviam oferecido uma quantia exorbitante para que fosse de férias… a pagar depois.
Ainda bem que há padres com eles no sítio.

No meio disto tudo os resultados aos “testes de stress” feitos a noventa e um bancos europeus, que constituem dois terços da estrutura bancária da Europa. Os quatro maiorres bancos auditados revelaram resultados positivos. Falharam os testes cinco caixas de aforro espanholas, um banco grego (admira ter só sido um) e um banco… alemão.
Isto é Deus a escrever direito por linhas tortas.


Madrugada de domingo, 25 de Julho de 2010 As coisas simples são mais belas, porque mais sozinhas. Compõe-se um quadro com uma só flor, representa-se uma flor com somente uma pétala, monta-se uma película apenas a duas cores…
Esta madrugada mais filme do mui brasileiro Canal Europa seleccionado da colecção gravada; “A Segunda Noite de Núpcias”, filme italiano escorreito em fímbrias de humor mediterrânico, assim racontando o dramatismo da vida do pós-guerra. Um postal de vidas e, como tal, pequenas lições de crescimento deste género que, de tão humano, quase animal. A simplicidade complicada colocada na vida de um simplório que explicou porque todos os outros são menos ainda, ainda que entendendo-os melhor sem reciprocidade versa.
Descanso assim vendo e conforto-me comigo, conformando-me com o sono a meu lado, amando-o(a) até. Nunca quero perder de vista o quanto tenho e sou, só por tê-la.


Madrugada de terça-feira, 27 de Julho de 2010 Depois dos “testes de stress aos bancos”, que visavam aferir das capacidades de resposta perante cenários de crise financeira, com pouca liquidez na banca, onde provámos estar melhor que os bancos alemães, seguem-se os “testes de mercado”. Aguardo curiosamente os resultados.
Depois dos primeiros dados saídos a público, a bolsa continuou a afundar e só hoje houve recuperação digna de nota. Mesmo em melhores condições, não conseguimos, sozinhos, inverter a insegurança dos mercados dentro do país. Farto de continuar à espera dos outros, sem gente que saiba fazer sair disto.
Que se danem todos! Num país com a capital mais quente da Europa, a mais de quarenta graus centígrados, com previsão parecida para os próximos dez dias, pelo menos, refugio-me nos Hortos para aguar a abóbora e a nabiça. Regador acima, regador abaixo, já perto da hora do jantar com a temperatura a secar tudo à minha volta, e a mim mesmo, ouço a vizinha a vituperar o marido enquanto dá ordens para sacar a batata da terra. E que linda que ela é! A branca e a vermelha. Fico-me pelo amor às minhas cabaças tenras e desenxabidas, de alimentar porcinos, donde I. faz sopa que muito aprecio. A nabiça resiste, sempre. E eu também, debaixo do sol de fim de dia a parecer meio-dia, ou agora aqui, a escorrer água no esforço do laptop apoiado nas pernas flectidas enquanto escorro água pelo pescoço debaixo desta imensa barba de peregrino, a ser no próximo mês de Agosto à Santiago Composteliana deste Ano Xacobeo.
Iremos.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2012


Madrugada de terça-feira, 20 de Julho de 2010 Hoje anoto, porque voltei a”O Meu Outro Diário”. Por lá me fico, o tempo não dá para tudo e ainda nem iniciei as minhas leituras de cama.


Madrugada de quarta-feira, 21 de Julho de 2010 Traduzo bem a felicidade desta fase da minha vida, nestes últimos anos, no tempo que consigo arrancar aos dias para estar nos Hortos a regar, um imperativo de respeito à vida que optamos por criar; também aos momentos que cumpro de leitura lúdica e que transformo em horas diárias.
No primeiro caso, nunca falhei mais longe do que numas poucas folhas de alface queimadas, por algumas horas de atraso no regador despejado; no segundo, no máximo à custa de horas de sono, retemperadas pela calma de disciplina a que me impus na última década da minha vida, talvez já mais um pouco.
Tudo isto a coberto de uma estrutura de conforto que só o deixa de ser por escolha própria. Se menos sou ou estou do que fui ou estive, é porque a alteridade, e como tal o mundo, se têm vindo a degradar. Mas na redução a que assisto, contas feitas, só me sinto engrandecer.

Em fim de noite assisto com I. a um episódio da nova temporada do “Vai Tudo Abaixo”, em canal por cab (porque aquilo não caberia num canal emitido em antena aberta). De sobrolho franzido, leio um aviso prévio ainda antes do genérico:

“Neste programa não molestámos qualquer animal racional ou irracional.
Todos os intervenientes autorizaram o uso das imagens recolhidas.
Por favor, não confundam ridicularizar estereótipos com a realidade.
Afinal isto é apenas televisão.”

Num país verdadeiramente livre, a produção deste tipo de programas não sentiria a necessidade de perder tempo com isto.
Está a acontecer em todo lado. A secção de “apanhados” fotográficos do jornal regional de maior expansão cá no distrito também já coloca uma nota de conteúdo com a mesma intenção. Isto nada mais é que um pedido prévio de desculpas. É muito mau que programas de crítica humorística e, especialmente, a imprensa, se veja na necessidade de se auto-censurar desta forma, porque há outras, que vão apenas de encontro ao equilíbrio das coisas.
É isto um sinal dos tempos, com o maior partido da oposição ao Governo a preconizar uma Presidência com poderes para levar a cabo governos de “iniciativa presidencial”, aumento dos mandatos de deputados e PR, fim da gratuitidade do Ensino, de uma Saúde tendencialmente gratuita, entre outras pérolas que nos fariam regredir mais de trinta anos, depois de tudo isto ter falhado nos próprios EUA.
Mas não são estes tontos da direita que me assustam. Como não sou nem serei candidato político e posso dizer o que me apetecer, digo que o que temo é a permanente ignorância deste povo que bem pode colocar energúmenos que defendem este tipo de ideário civilizacionalmente retrógrado (e perfeitamente assassino) no poder. É que, verdadeiramente, nunca tive confiança alguma no “eleitorado”. Como poderia ter?
Quanto ao “Vai Tudo Abaixo”, continua brilhante. Diz um dos actores da rubrica “Os Homens da Luta” enquanto acompanham uma maratona de luta contra a fome: – “Contra a fome o que eu faço é comer, pá!”. É difícil encontrar algo tão simples e tão piadético.


Madrugada de quinta-feira, 22 de Julho de 2010 Sempre senti uma ponta de vexame nos outros ao longo de grande parte da minha vida. Por uma razão muito simples: nunca deixei de cumprir as horas marcadas e, nos poucos casos que isso não aconteceu, sempre por motivos de força maior, dei nota disso mesmo atempadamente. Não os outros e, por isso, eu mais que eles.
É um problema nacional deste país que nem horários consegue cumprir. Seja para o trabalho, quer para o lazer. O Eça descreveu muito bem este sortilégio pátrio com cada empregado de escritório a medir a sua importância relativamente ao colega do lado no tempo de atraso ao encontro. Quanto mais atrasado, mais importante seria o seu patrão.
Mas hoje ultrapassei todas as marcas. Na verdade, o caso até nem foi o atraso propriamente dito. Na verdade, esqueci-me completamente das gravações prévias ao programa de rádio “30 Dias”, que mantenho desde Abril do ano passado na (...) e só o telefonema do radialista responsável pela parte técnica me alertou, passava meia hora daquela acordada.
Não me lembro de alguma vez ter tido uma coisa destas. Aborrece-me particularmente que tenha acontecido, pois esta coisa da assumpção de compromissos e do respeito pela hora marcada é parâmetro essencial no meu ser-estar.
Poderia dizer que tudo se arranjou, que a coisa se fez (que se arranjou e ficou feita), mas problemas nas definições do programa informático acabaram por pesar ainda mais no atraso das gravações e foi mais o tempo de espera à custa disso mesmo do que o que ficou perdido pelo meu esquecimento. Por isso as minhas desmesuradas desculpas foram menos sinceras no fim do que no princípio; até porque ninguém se pareceu importar muito pelo material que não estava nas condições de afinação requeridas, desde o técnico ao director-geral da estação.
Às tantas, o mais estranho nisto tudo foi o meu cuidado com as desculpas apresentadas. Nem duvido, até.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012


Madrugada de quinta-feira, 15 de Julho de 2010 Nestas notas (por vezes diárias) que escrevo, são compassos de vida que acabam por ficar registados. Esses ultrapassam sempre no seu volume o intuito primeiro que esteve na forja destas mesmas: a terra em que enraízo o corpo e os livros que me refrescam a mente.
No entanto, o avassalamento deste mundo desvairado, que se torce e contorce procurando a linha direita, firmam-me amiúde os dedos nestes discursos de branco no preto em tudo o que é tergiversação daquilo que realmente importa; precisamente porque a inexorabilidade da loucura humana continuamente nos espanta sempre o espanto.
Hoje, vários bancos portugueses foram baixados num nível pelas empresas de rating, e dois deles dois níveis, entre estes últimos o maior banco privado português que chegou já, inclusivamente, a apresentar lucros superiores à toda-poderosa “Caixa”.
Tido como exemplo do empreendedorismo bancário privado durante largos anos, desde o seu surgimento, arrasta-se agora do engano em vigarice, mudando conselhos de administração, e até já o seu mais notório accionista individual quase pede a “nacionalização”. Por certo quererá nacionalizar sim, as suas dívidas, à custa dos dinheiros dos contribuintes…
No actual caso da tentativa de compra da brasileira Vivo à portuguesa PT por parte dos espanhóis da Telefónica, os mesmos grandes accionistas decidiram a venda da subsidiária (depois vetada pela golden share do Estado português), apesar da importância da empresa brasileira para a PT, sendo daí que resultam sessenta por cento das suas receitas. Só mesmo a falta de liquidez pode explicar a decisão venda ao desbarato de um dos maiores capitais empresariais nacionais, privado ou não. Estão sem dinheiro, é o que é!
Entretanto, os accionistas de uma empresa do maior grupo de fabrico e distribuição alimentar em Portugal (os mesmos grandes accionistas, está-se mesmo a ver), decidiu, há dois anos, não pagar dividendos devido ao crescendo de dificuldades; ou seja, continuam a pedir dinheiro aos investidores, mas decidiram cortar nas contrapartidas. Ainda por cima com a forte desvalorização dessas mesmas acções. Ou seja, isto é pedir caridade, coitados.
Hoje mesmo, estive no banco a protestar uma “alteração das condições gerais” do meu mais recente cartão de crédito, porque os senhores querem que os clientes paguem as despesas de cancelamento em caso de perda, desvio ou furto; ou seja, a antítese daquilo que é um cartão de crédito, que normalmente inclui um pequeno seguro, precisamente para cobrir este tipo de eventualidades, sendo esse tipo de segurança intrínseca àquilo que sempre definiu os cartões de crédito. Estes coitados desnorteados que já não tem a noção do que é o decoro ou a vergonha, já não sabem, onde ir buscar dinheiro, os pobrezinhos.
Isto é, de facto, um país com “elites” que são uma verdadeira vergonha! Estes pseudo-todo-poderosos, afinal, não passam de uns pés rapados, que só se aguentam nos mercados quando as coisas correm bem, e mesmo assim sempre sob o chapéu de protecção do Estado. Grandes neo-liberais, sim senhor! Sem dinheiro, sem artes de o fazer ou, sequer, de manter aquele vindo do tempo das “vacas gordas”. Afinal, não passam de um bando de zés-ninguém é o é.


Madrugada de segunda-feira, 19 de Julho de 2010 Nada mais excitante do que a tentativa e erro. É um jogo onde se aprende sem que se esqueça e assim têm sido os Hortos.
As aboboreiras, ainda que com pouco fruto, invadiram-me tudo, cobrindo as cebolas, as nabiças, as alfaces, que já são poucas, e continuam a correr campo fora. Até é fácil rir com aqueles metros todos percorridos em pouco mais de quarenta e oito horas.
Sem escolha possível, arranquei todas as cebolas que descortinei da terra, enquanto ia arrastando os caules e folhedos gigantescos. Duas cabaças ficaram sem o cordão umbilical, mas foram só essas mesmas. Vieram para casa, ainda pequenas, a ver se amadurecem. Com as cebolas já trazidas, as que hoje esvaziaram o restante corredor plantado, perfizeram duzentos e cinquenta tubérculos, mas posso ter-me enganado numa, para menos. Outras terão ainda ficado entre o castanho fofo do solo; poucas serão, mas ainda recuperáveis.
Para o ano que vem, sei o que é que tem de ser diferente e o meu gozo será maior. Tudo se trata de organização do espaço. A dificuldade maior: ser muito; mas chegarei para tudo. E mais ainda
Com a máquina alemã fabricada da China, voltei aos baldes e regadores. Poupa-se na água e na gasolina mas, convenhamos, a chuva que veio a cada dois dias ao longo dos últimos dias, desde o fim-de-semana passado para cá, quase, salvou-me o serviço de distribuição da revista, feito com uma tendinite feia do lado oposto do tornozelo onde, volta e meia, me surge. A coisa custou, mas hoje já estava bem composta.
Foi uma bela semana, esta. Permitiu-me toda a parte comercial, a edição de texto e imagem do número de Agosto e ainda umas belas arrumações no contentor dos Hortos onde coloquei estrados de madeira, a boa oferta de bom amigo que cumpriu parte da palavra. Benfeitorias também em casa, com uma I. conformada consigo e amada por mim. Agora, recomeço a montagem de nova edição da revista, em mais um dia trabalhado do almoço até às zero horas de terça-feira. Ou mais um bocado, como é costume.

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Madrugada de domingo, 11 de Julho de 2010 Aguardo com curiosidade bastante a Final jogada neste domingo. Acabará assim este Mundial que fez a Europa (e o mundo) regressar a África. O destino parecia querer escrever isto mesmo: o cenário, a África do Sul; o governo do país, negro; o antigo colonizador holandês disputa a sua honra. Receberá o prémio maior da mão do governante?

Ambas as equipas jogam logo de início com os seus blocos bastante subidos no terreno de jogo, ao contrário daquilo que se viu neste Mundial. É por isso mesmo que esta Espanha e esta Holanda são as equipas finalistas. A partida começa logo com jogo vivo, oportunidades para ambas as partes, com um ligeiro ascendente da Espanha que joga vibrante e com alegria; os Holandeses seguem frios o percurso da bola, cerebrais. Sem prejuízo dos seus méritos, estas selecções traduzem bem o futebol das equipas do Barcelona e do Inter de Milão, ou não estivessem estas turmas recheadas dos seus jogadores, as duas melhores equipas europeias neste ano futebolístico.
Ao intervalo de uma primeira parte bem jogada, 0-0, a traduzir igual pressão de futebol excelentemente interpretado de parte a parte, com pequenas doses de quezilice a apimentar e algumas iminências de golo.
Se houve alguma ascendência espanhola do início, o intervalo chega com o crescendo holandês.
A partida recomeça com mais picardia. À alegria e dinâmica do jogo espanhol, opõe-se o nervosismo concentrado dos holandeses que impedem sucessivamente as saídas da Espanha travando os seus jogadores em falta. Os cartões amarelos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, mas ainda assim é a laranja mecânica que cria as melhores oportunidades com Robben a falhar incrivelmente na cara de Cazillas. A eficácia pertence toda à equipa do norte, mau grado o mau humor implícito.
Há mais posse de bola para a Holanda do que para a Espanha que é com bola que gosta de jogar, como aliás foi dito depois da derrota imposta a Portugal, que lhe entregou o esférico durante quase toda a partida. Poderia estar aqui a chave da vitória laranja.
O meio disto, segue David Villa na imitação de Robben e falha clamorosamente, muito perto do minuto setenta. Menos de dez minutos passados é o jogador com ar de estrela rock, Sérgio Ramos, que cabeceia por cima da barra.
agora, a Espanha volta a assumir as despesas do jogo, consegue o canto, mas as sucessivas manobras batem no muro holandês.
Na recta final do tempo regulamentar, Robben faz uma arrancada conduzindo a bola a solo numa corrida impressionante, bate Pujol na velocidade, mas a experiência do catalão impede-o na sua progressão com a bola a ficar em Cazillas. No protesto com o árbitro, o ex-Real Madrid acaba amarelado.
Últimos cinco minutos, ninguém arrisca. Um erro pode matar o jogo, que acontece no meio campo. Ainda um fogacho holandês, mas é fora-de-jogo.
Três minutos de tempo-extra, a toada mantém-se e as equipas técnicas recomendam calma e assim se segue para prolongamento.
É a Espanha a primeira a fazer suspirar, mas bola sai na rede lateral. Passam dez minutos. O intervalo chega sem golos e no segundo tempo a Holanda é reduzida a dez. É à chegada do minuto cento e quinze que Andres Iniesta, o pequeno jogador, recupera a posição regular para uma bola cruzada fugindo ao fora-de-jogo e sobre a direita fuzila a baliza adversária fazendo o mais importante golo deste Mundial 2010.
 Espanha consegue assim a “dobradinha”, depois da vitória do Europeu em 2008; a Holanda, essa, continua a ser a grande equipa das finais perdidas.
No fim de tudo, e apesar de tudo, fico a matutar que Portugal acabou precocemente eliminado… mas aos pés do Campeão Mundial; também que África teve os seus 15 minutos de fama positiva.


Madrugada de terça-feira, 13 de Julho de 2010 Soube hoje, segunda-feira, do suicídio do único filho do Dr. F., E., cujo pai é meu conhecido e da minha família desde que me conheço, e meu anunciante na revista desde a primeira hora. Muitos anos antes já enfrentara o suicídio de sua filha e uma primeira tentativa do agora malogrado.
Não perguntei pormenores, nunca me interessam. O que é que interessam? Um jovem morreu porque se matou. Várias versões do sucedido correm desde a madrugada de sábado, altura do triste episódio, ocorrido em Santa Marta de Portuzelo. Fonte próxima diz-me que ainda telefonou ao progenitor dando conta da intenção. A emergência foi logo accionada, mas a chegada dos meios seria sempre tardia, como se veio a verificar.
A notícia foi-me dada por I., por volta das dazesseis horas, quando almoçávamos em casa. Desde aí, passei o resto do dia, sempre de trabalho até depois das vinte e uma, numa espécie de limbo devido ao choque e à tristeza; também muito preocupado com os meus próprios filhos de quem vivo fisicamente distante. Acabei por telefonar para o D., no Porto, e senti-me um pouco melhor.
Apesar das tendências suicidas já reveladas anteriormente, há uma ténue raiva e fina revolta que me envolve o espírito. Deve-se à minha incompreensão da escolha desta opção terminal por quem tinha apenas trinta e oito anos, uma vida à frente, já alguns anos cumpridos com obra feita de alguma relevância. E. tinha tudo o que alguém da sua idade poderia querer. Família, estabilidade financeira e amor à sua volta, inquestionavelmente, apesar de tudo.
Esta manifesta incompreensão da minha parte, leva-me a preocupar com os meus próprios filhos. Até que ponto, perguntei-o toda a tarde nos meus contactos pelos revendedores da revista na cidade e não só, é que seremos nós, os mais velhos, quem não está a compreender? É que eu acredito que, fundamentalmente, precisamos de muito pouco para viver, e os maiores problemas que nos levam ao mais fundo dos desânimos, mesmo mantendo-se o berbicacho, no dia seguinte tomam sempre novo aspecto. E então descobrem-se novas forças interiores, o alento recobra-se, a vida simplifica-se e tudo se torna mais plano, esperando os nossos passos mais resolutos que voltam a transportar consigo a própria vida.
E. conseguiu relativamente cedo aquilo que nem todos conseguem ao longo de uma vida, deu um importante contributo para alguns desportos náuticos até a nível internacional, lançou uma marca que franchizou, bateu um recorde do “Guinness Book”. Tinha amigos; tinha pais a caminho da última idade. Se ele não aguentou, quais dos outros aguentarão?

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012


Madrugada de sábado, 10 de Julho de 2010 Na obrigação da rega, noto que há semanas que trabalho sem o cinto de apoio à zona lombar. Tinha a permanente sensação de que me faltava algo. O boné? Não. As luvas? Impossível seria. Mas então o quê? È o cinturão, sim senhor.
Quem diria. Eu, que com as mazelas de anos imberbes de sobre-esforços e discos desviados, estou a levantar dezenas de baldes com mais de treze quilos e peso a nove metros de profundidade e já nem me lembro do cinto ainda há bem pouco imprescindível, sob pena de quase mobilização em dores. Quem diria, hã?
Tivesse eu seguido os conselhos do médico na juventude e, hoje, às tantas já andava de muleta. Viva eu!

Noite funda. Lá em baixo, no jardim público, corre a Feira do Livro. A música que chega ao meu recanto de descanso faz-me sentir um meio-desejo de me envolver; outrossim os emails que diariamente recebo dos serviços de relações públicas da biblioteca municipal. Também a vontade de vivenciar a festa do livro de que tenho sido fruidor ao longo de todos estes últimos anos, especialmente quando lancei o projecto “Viana Social & Cultural”. Mas este ano não estou lá, mau grado este afecção inabalável de quem ama o toque e o cheiro dos volumes, as ideias e experiências que os construíram.
Na verdade, mais ainda estou farto. Da feira, do festival de teatro que deixou de ser internacional “porque as pessoas não percebiam o galego”, segundo os seus responsáveis (cretinos), dos ajuntamentos, desta multidão que não percebe, destes vendedores que vendem os livros como quem venderia outra coisa qualquer; a bem dizer, destas gentes que se reúnem sob as luzes, envolvidas pela música que quer celebrar o livro, mas que não o compram e ainda menos o lêem; desta organização que transforma a feira do belo artigo num arraial onde o óleo doce das farturas se mistura com o odor agradavelmente acre dos volumes… a paredes meias com os carrosséis. Não, não assim, canso-me e por isso, hoje descanso, depois do dia de campo, do dia comercial e do dia editorial que cumpri para além do dia doméstico, porque o lar não pára e só cá está em casa meia parte de gente.

Do quebranto da tanto dia assim, ou mais ou menos, que começa por terminar nos magazines culturais gravados automaticamente durante o dia para ver à entrada da madrugada a anteceder as leituras finalizadoras, para que a exaustão possa ser, finalmente, completa, e o sono possa vencer então vencer a insónia reinante, de há trinta anos, em muitos meses faço zapping e detenho-me, pela curiosidade no estranho semelhante, num reality show na MTV, pleno de “joves” norte-americanos. São rudes, vulgares, as suas relações estapafúrdias, brutais. Por aí paro e insisto. Piora a olhos vistos, tudo passado como num filme, numa série de um futuro próximo já agora. Nada existe para além deles e mais uma vez temo o futuro longínquo, menos o próximo porque, com aquilo, podemos nós bem. Com juventudes assim se comprometem países, se hipoteca o devir, mas lá diz o ditado que quem tem olho é rei. E aqueles não o serão, com certeza.

Ainda hoje e agora: neste momento de fim do meu dia, no nó da noite, nesta hora madruguenta onde já se vislumbram os alvores de novo dia, termino bem o “Hitler Desafiado em Moscovo” (União Soviética, Setembro de 1941) de Robert Forczyk. Tem-me sido difícil estabelecer preferências neste novo seguimento da minha vida da maior das guerras do séc. XX, objecto dos meus maiores interesses históricos de sempre, só mesmo comparável à paixão que sinto pela civilização romana – República e Império.
Já dei conta da Polónia primeiro, depois a França, o norte de África, a ilha de Creta e agora esta invasão da Rússia. Continuo sem saber o que poderei explicar melhor ou, melhor dizendo, menos compreender: se o falhanço nazi no cometimento, se a sobrevivência soviética.
Arrumado o volume na companhia dos restantes, com a leitura da oferta do amigo P. em suspenso e o meu “Jesus Cristo” de Ratzinger, sempre aguardando aquele momento (ainda o magnífico trabalho sobre José Saramago publicado na Playboy portuguesa que junto à leitura em espera da revista “Exame” – os jornais regionais e a Revista de Imprensa da VS&C levam-me o todo o tempo), início, em prazer, “O Livro Inacabado de Dickens”, de Mathew Pearl, em edição da Planeta – editora de boa-ventura que me surgiu na vida com a transferência de funções de B. de comunicação e marketing da Bertrand para essa.
Foi o livro que seleccionei daqueles recebidos no último mês e meio para as páginas de divulgação da revista; este, pedido especificamente e não estou nada arrependido, ou não acertasse quase sempre. É um romance intrincado, que asperge laivos que, de facto, fazem parecer que foi escrito na época. “Pearl enriquece a sua história através de um conhecimento profundo não só da carreira de Dickens como das suas obras literárias” (Library Journal).
Devo lê-lo com calma. Intrincado, com muitos personagens, locais e circunstâncias, para além de definir muito bem o pensamento da época, o que me distrai sempre, apresenta uma riqueza narrativa que me enleva. A fazer durar, o que se torna difícil pois a antecipação desta espécie de thrilller de época, impera no meu espírito.

Sábado, 10 de Julho de 2010 Para um público mundial menos intenso, que espera a final de amanhã, hoje a disputa do terceiro lugar deste Mundial corporizado no Uruguai-Alemanha. Mas a partida não esteve de acordo com o sentimento mundial. Correu um jogo eléctrico, a todo o comprimento do campo, com duas reviravoltas no marcador e cinco golos feitos, o último quando já se cheirava a prolongamento.
Os teutões cumpriram aquela insustentável superioridade germânica perante a emoção do jogo uruguaio, latinizado da respiração ao toque de bola…
(e por aqui me fico, cansado…)

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Madrugada de quarta-feira, 07 de Julho de 2010 Na primeira “meia-final” disputada, a Holanda, uma das minhas apostas a par da também semi-finalista Alemanha, carimbou o passaporte para a Final deste fim-de-semana, por 3-2.
Um golo do outro mundo abriu a contagem para os holandeses que viram o resultado empatado antes do final da primeira parte. Mas o futebol tricotado da “laranja mecânica” conseguiu encontrar espaços impossíveis fazendo voltar aquele perfume que a Europa já conheceu noutros tempos, especialmente com as subidas de Robben e o repentismo de Sneidjer, bem suportados pela disciplina táctica de todos os outros.
Deste Uruguai um nome fica: o do avançado Diego Forlán, filho de um defesa dos anos 70/80, saiu muito cedo do Manchester (um erro do colosso britânico?) para rumar ao Villareal e daí brilhar no Atlético de Madrid onde juntamente com Simão Sabrosa, tem feito os “colchoneros” parecerem mais equipa.
Forlán saiu do jogo ao minuto 83, num momento quase simbólico da partida quando os uruguaios perdiam por 3-1, se bem que tivessem conseguido depois reduzir a desvantagem já em tempo de descontos e quase conseguido igualar.
Do Mundial, até agora, uma certeza também se adquire: a de que, pela primeira vez na história, uma equipa europeia será campeã fora do seu continente. Fora? Isto é África, se calhar nunca a Europa saiu de lá, verdadeiramente…


Madrugada de quinta-feira, 08 de Julho de 2010 O perfume do futebol espanhol bateu a eficácia alemã. Quem o diria ainda há bem poucos anos? Com o resultado de 1-0 esta Espanha de scores minimalistas segue rumo à final deixando uma Alemanha a discutir o terceiro lugar com um até aqui sempre surpreendente Uruguai.
Mas não terá sido por acaso. Mesmo a jogar entrosada, com este futebol de recorte técnico a lembrar Portugal, a minha aposta iria sempre para os teutónicos. No entanto, houve aqui um novo elemento que se imiscuiu alterando a estrutura. A exigência, antes do jogo, de Lahm, em permanecer com a braçadeira de capitão mesmo após o futuro regresso de Ballack, retirou a paz de espírito de calma certeza de que os campeões necessitam para o serem. A selecção germânica estava menos equipa por isso e, por isso mesmo, perdeu a meia-final.
Terá faltado, nesta parte, a genialidade do ser, ultrapassando questiúnculas, mas Lahm não é um génio, é apenas talentoso. Aos génios, perdoa-se a perda de compostura; de talentosos parvos está o mundo cheio.

Está feito: o Tribunal Europeu decidiu contra Portugal no caso da golden share que detém na Portugal Telecom, indo de encontro ao parecer da Comissão Europeia do liberal (a cheira a “ultra”), Durão Barroso, esse, o português que leccionou nos “US of A” e que foi posto a presidir à dita Comissão por influência americana; esse que viabilizou a segunda invasão do Iraque; esse que foi fazer queixinhas à Europa do déficit de Guterres; esse boneco que lá colocaram para que, assim, alemães e franceses não estivessem sempre a apontar o dedo uns aos outros.
No entanto, que lamentar nisto? Não foram os próprios accionistas que votaram a venda da brasileira “Vivo” aos espanhóis da “Telefónica”, essa corja sem pátria? Esses “pseudo-muito-ricos” que não valem nada e que, sem liquidez, desaparecem do mapa e por isso mesmo agora vendem os anéis de família?
Quase nos faz isto desejar que vendam tudo, PT incluída. Talvez as chamadas telefónicas, a Net e a TV nos ficassem mais baratas…
Uma tristeza, este país de falsos poderosos, de pretensos liberais que não se desenrascam sem a protecção da regulamentação do Estado e sem os seus investimentos. Gente a brincar nesta nação de gente pequenina que anda aos papéis agora que descobriu que o segundo carro para a família não cabia no orçamento e se acha igual ao estrangeiro cuja dificuldade é pagar a hipoteca da casa de férias e não da casa da família.


Madrugada de sexta-feira, 09 de Julho de 2010 Sozinho em casa! A cara-metade com a irmã, na Galiza, e eu atado à distribuição do número noventa da revista (e que linda que ficou). Já comecei bem, com distribuição pelo litoral norte e Galiza, a expensas do gráfico, Deus o proteja, café e lanche incluído. A rega dos Hortos é que teve de esperar. Que a diminuição da temperatura hoje registada dê as horas que as alfaces e as couvinhas precisam. Amanhã será esse o primeiro serviço do dia; depois, algumas voltas nos pontos de venda, para acabar a tarde, já noite, na Redacção e jantar depois a refeição que ainda não sei nem imagino. Talvez uma volta com a companhia, se entretanto não tiver a sorte da disponibilidade do amigo para meter a bomba de água na oficina, ou no representante, para fazer valer a garantia. Nem tempo tenho para saudades.

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Madrugada de domingo, 04 de Julho de 2010 Antes deste último jogo dos “quartos”, tinha dito que ou havia um golo precoce, de qualquer uma das partes, ou o filme da partida seria uma Espanha favorita que teria de passar grande parte do tempo a procurar desmontar um Paraguai que não chegou até aqui por acaso.
Depois, tudo dependeria de quem tivesse maior presença mental dentro de campo. Se do conjunto bem articulado do Paraguai, ou do brilhantismo colectivo desta Castela/Navarra que gosta de jogar com a bola nos pés.
Assim foi. A coisa poderia ter dado para ambos os lados e os dois penaltis falhados por ambas as turmas foram prova disso mesmo. Na verdade, um jogo que poderia ter ido a prolongamento com decisão posterior nas marcas de grande penalidade, acabou por sê-lo ainda antes disso dessa mesma forma. Num terceiro penalti, os espanhóis já não falharam.
Vai às meias-finais a Espanha porque foi mais madura. Mereceu-o.

Já noite dentro, arrumo “Operação Barbarossa II – para Leninegrado” na prateleira, onde esperavam os cinco primeiros da colecção. Gosto de tudo. De os receber, abrir, tocar, cheirar, folhear, fruir letras e imagens, odores, até à colocação no sítio e do seu restar quieto, mas que, para mim, vibra.

Amanhã tenho Hortos, no mínimo para rega. Os chuveiros inesperados de sexta-feira deram-me 24 horas de descanso, permitiram-me a leitura de jornais e revistas, a correcção de algumas notas, revisão de provas, mas senti saudades.
Mais um domingo com quatro conjuntos vestidos diferentes. Para a ida de bicicleta, para o trabalho no campo, na estadia em casa e para a saída em fim de tarde. Esta última, talvez.


Madrugada de segunda-feira, 05 de Julho de 2010 A canícula chegou em força. Na ida para os Hortos, já tarde para efeito de rega, quase ninguém em lado nenhum. Eu e o suor. Na chegada, as alfaces mirradas, sedentas, recozidas, plantadas na terra como ovos estrelados, escuras. Banhei-as todas. Se não fosse do sol, a morte seria por afogamento, mas uma hora depois respondiam com novo viço, graças aos céus e ao esforço de braços, ombros e costas, porque a rega, a mais de trinta graus à sombra, foi feita a partir das 14, não continuasse a traquitana da bomba de água sem se querer mexer, mormente os meus esforços, mais contidos hoje porque a parte direita do corpo estoirada quarta-feira passada a dar ao cabo de arranque… que não arrancou nada.
Teria desistido hoje, ao fim de dois meses de colheita de ervilhas, da respectiva aguada, mas a oferenda de mais sessenta ervilhas no topo da ervilheira transformada quase em palha, a par de bruxuleantes novas flores, fizeram-me protelar a desistência. Pareciam pedir-me o líquido e eu acabei por anuir. Deram-me muito, mormente a vagens fibrosas, mas já a vizinha me dissera que, este ano, “não esteve bom para as ervilhas”.
No passeio de regresso, debaixo do calor, até calafrios senti nas palmas e dedos das mãos, depois dos mais de trinta baldes tirados do fundo do poço, cada vez com menos água. Coração ou coluna? Não sei, mas sei que fiz o que poucos conseguiriam fazer, ao longo de mais de duas horas a subir dezenas de baldes e a transportar, campo fora, dois regadores cheios.
Tenho comido daquele terreno com o suor do rosto… e dos braços, tronco, pernas e belas dores de cabeça em fim de dia combatidas à força de paracetamol. Ufa, ufa!

Uma nota interessante nesta madrugada dentro: o nosso Cristiano Ronaldo vai ser pai. Está encontrada a explicação de tanto desvario. Que se recomponha depressa e seja melhor do que foi. No campo e fora dele, principalmente.


Madrugada de terça-feira, 06 de Julho de 2010 Os dias não me chegam. As horas são curtas, por mais que por vezes os minutos pareçam pequenas eternidades. Tanto para fazer. O dia de amanhã começará e já estará meio gasto. Não tenho alternativas a não ser prosseguir com a sensação de tudo acumular à minha frente, arrastando o que defronte mim está com a vontade louca de fazer de braços abertos, tudo abarcando mas que me esmaga, até que, parece-me, não saio do sítio e a vida corre fora de mim. Gigante plantado me sinto.
Já não são os dias e as horas, mas as semanas e os meses que perpassam; é verão com metade do país a alerta laranja e ainda há pouco saí do inverno. Sou hoje sem primavera e amanhã estarei nos fins de tarde de Outono antevendo o inverno que me trará o Natal, comigo a pensar na roupa de verão e na praia onde não cheguei a estar.

Do dia de hoje, feito das rotinas havidas dos meses desde o início do ano, fica-me o banco inglês que me tenta vigarizar, o português que deixou de ser caixa económica na imitação dos caminhos do primeiro, o centro regional de segurança social que a tiques de empresa me quer espremer, o ministério que me suga a mulher, o amigo que amua, os filhos cada vez mais longe, a família ao longe aqui tão perto…
Prendo-me às palavras que escrevo buscando sustentáculo, mas a porosidade destes tempos não me permitem alicerçar o dia de amanhã. Voltarei aos Hortos envolto em suor para dessedentar as alfaces feitas ovos estrelados e regressarei para desejar recomeçar tudo um pouco de novo, mas sem vislumbrar objectivo que me ilustre as névoas turvas em que me sinto envolto.
Em muitos anos, só queria dormir, dormir, acordando em mundo novo. Tem isto um nome e chama-se depressão. E só não a lamento mais porque se justifica.
Mas são quase seis da manhã e não me apetece dormir porque terei de acordar. Gostaria de poder ficar num mundo com o tempo congelado, até que este gelo no espírito enfim derretesse.

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Madrugada de sexta-feira, 02 de Julho de 2010 Sabermos reconstruir a vida dentro de nós próprios como ela é; eis o segredo de viver e de com a vida nos preenchermos.

Sei que a tua dor é grande, minha querida, porque só pode ter o tamanho da minha incompreensão dela, que é enorme.
(por acaso é bonito, o que escreveste)
Eu sei que sou magnífico, amor.


Madrugada de sábado, 03 de Julho de 2010 O Brasil de fora a escorregar pelo ácido sumo da “laranja mecânica”. 2-1 depois de terem estado a ganhar, foi o que os brasileiros levaram para casa sem perceberem o que lhes aconteceu. Bem dizia eu para se atentar à Holanda… e à Alemanha, que amanhã terá uma espécie de ante-final com a Argentina. Será aí que veremos a fibra de “El Pibe”. Nem sei o que prefiro. Futebol por futebol, que ganhe a Argentina, para além do tudo o resto que se passa neste mundo, também às mãos dos germânicos. De resto como sempre.
Já o Gana, a última das nações africanas em prova, soçobrou após prolongamento e pontapés da marca de grande penalidade, contra uma maior disciplina e clarividência dos jogadores uruguaios. O resultado nada teve que ver com a “sorte dos penaltis”, essa é que é a verdade.

Termino a leitura de “Operação Barbarossa II – para Leninegrado”, de Robert Kirchubel e inicio na continuidade de mais uma madrugada branca, o “Hitler desafiado em Moscovo, de Robert Forczyk, com ilustrações de Howard Gerrard.
Depois dos exércitos de invasão do Sul (sudeste e Balcãs), do Norte (Países Bálticos e Leninegrado), agora, segue-se o do Centro (a caminho de Moscovo).
É incrível como o “pequeno” exército do Eixo, face ao “monstro” soviético bem poderia ter ganhado esta guerra, e mais incrível ainda como a perdeu.
Na exploração do tema geral da II Guerra, esta bem está a ser uma das fontes de informação mais importantes desta minha dedicação desde há, talvez,  30 anos para cá. Não se trata apenas de uma questão de pormenor da informação. É que – e não sei aqui se até não se tratará de fruto da idade – tem-me sido possível descortinar os níveis de dor e sofrimento de combatentes e civis mais do que qualquer outra leitura anterior, ou visionamento de série televisiva. Têm sido diferente, até porque estes textos narrativos não abordam os documentos coevos, para além das fotos incluídas que, diga-se, não têm a preponderância que eu lhes daria em termos de mancha no conjunto das páginas.


Sábado, 03 de Julho de 2010 - A Argentina inapelavelmente batida pela Alemanha, nestes quartos-de-final de um Campeonato Mundial de Futebol que pertence aos humildes. A esses porque o espectáculo futebolístico nunca ficou entregue às estrelas, antes pelo contrário. A selecção alvi-celeste jogou o que os seus jogadores, designadamente, conseguiram jogar. Já a turma teutónica jogou aquilo que o seu colectivo produziu, eficazmente e sem rodeios.
Quando a estrela da companhia Ballack desaparece da equação dos onze, todos os outros aumentaram a sua importância, ganhando com isso o conjunto. Neste jogo em particular, quando subiam, o bloco desmultiplicava-se por vezes quase desdobrando o onze. Quando defendia, os jogadores pareciam crescer em altura. Todos os golos surgiram com naturalidade, quer aqueles do ataque organizado, ou os outros do contra-ataque rápido.
Este não foi um mau resultado para o mundo. É que há que saber ler que, à medida da selecção francesa campeã da Europa e do Mundo, esta é multiculturalmente constituída, com grande evidência para os jogadores de ascendência “de Leste”, da Turquia e até… negra. Isto é Deus a escrever direito por linhas tortas.
Pessoalmente também é gratificante. Muito tenho apostado nesta Alemanha que já provou ser superior à de há quatro anos, sem que ninguém até agora ainda tenha dado por isso. Têm-me sorrido, quando falo numa Alemanha 2010 campeã. Aconteça o que vier a acontecer, já não sorrirão mais, assentirão sérios como que se tivesse sido sempre esta a opinião dominante.

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