Madrugada de quarta-feira, 15 de Setembro de 2010 – Da vergonha nacional, ética, moral e desportiva, que foi o despedimento do seleccionador nacional, fica-nos as palavras de Luís Figo, talvez o melhor jogador português de futebol de todos os tempos e actual director desportivo do Inter de Milão, à pergunta da jornalista da eventualidade de se candidatar à presidência da Federação Portuguesa de Futebol: “Gosto muito de Portugal e dos portugueses, mas ainda estou queimado de há pouco tempo”.
Referia-se ao caso “Freeport” onde foi envolvido juntamente com o primeiro-ministro, num caso de tráfico de influências, peculato e ganhos indevidos. E concluiu, num sorriso,em palavras que muitos queriam finalmente ouvir a alguém, neste país de tons cinzentos com muito branco e poucos ou nenhuns negros: “Quando quiser ter problemas, volto a Portugal”.
Tudo dito por um dos melhores na sua arte. Tanto no futebol em si mesmo, dentro e fora de campo, como naquele talento de ser um senhor no mundo.
Figo está longe, mesmo quando cá está. Está onde deve estar.
D. Carlos Azevedo, presidente da Comissão Episcopal Social, na sessão de abertura da XXVI Semana Pastoral Social, em resposta à situação de crise que o país e mundo atravessam, disse que o actual modelo económico é “indecente, injusto, desigual e desproporcionado”, uma vez que “agrava a pobreza e a exclusão social”.
Dia após dia, parecem estar cada vez mais longe os tempos de conivência entre o poder religioso e aquele do Estado, conivência essa que abriu larga brecha na sociedade que, revoltada pelo desamparo que a elite dos representantes de Cristo a votou ao longo de séculos, se abriu a outros poderes, substituindo o abraço da Igreja por sistemas ideológicos que, tão simplesmente, prometiam oferecer precisamente aquilo que Cristo dois mil anos antes apregoara: a igualdade entre os homens!
Pela muito humana e natural necessidade e premência do factor religioso no espírito de cada um, milhões através de todos os continentes acabaram atirados para ideários políticos que, copiando o próprio modelo organizacional da própria Igreja, se imiscuíram entre antigos fiéis proletarizados, analfabetos, fragilizados, arrebanhando-os para as suas fileiras postas muito longe do conforto espiritual intrínseco ao ser humano –uma das principais razões, talvez a principal, do seu falhanço.
Hoje a corrente muda, constatamo-lo todos os dias. Por isso é um conforto ouvir e ler D. Carlos lembrar que “não são as pessoas que estão ao serviço da economia, mas a economia ao serviço das pessoas e dos povos”. Conforta-nos o seu lembrete de que “o capitalismo fez muitas vezes da mão-de-obra mera mercadoria”, logo avisando que “só com modelos humanistas se poderá ultrapassar a crise económica”.
Finalmente a Igreja, com coragem e frontalidade a vir dizer aos poderes instituídos e que nos conduziram a este desvario que “os princípios morais têm de estar inscritos no coração das pessoas”, olhando entretanto e designadamente para quem nos governa. E de acrescentar, a quem põe e dispõe, que há a necessidade de “reinventar o espaço público como lugar de deliberação e de diálogo comum”, firmemente garantindo que “a Igreja não abdicará dessa intervenção política” que, muito justamente refere, é “decorrente do modo cristão de estar na sociedade”.
No entanto, não deixou de fazer notar que apesar de os portugueses em geral serem “generosos”, culturalmente sofrem de “muito pouco hábito de partilha” e que “só em momentos de catástrofes é que partilham”.
Ouvi-o e reduzo muito do seu discurso a algo mais simples: tem faltado muita Catequese na actual sociedade portuguesa.
Cinema pela segunda vez em menos de uma dúzia de dias. Isto em muito tempo, mas não estou a voltar. Impunha-se pelo título, um remake dos originais dos anos 80/90 e que preencheram uns momentos de parte da minha vida e respectiva transição.
No papel principal, um jovem de doze anos. Admiro-me sempre. Estes actores, ainda imberbes, já têm um olhar analiticamente maduro. Poderia apontar milhentas razões para isso mesmo, mas o importante é a súmula final em qualquer deles: não gosto. Sejam quaisquer que sejam as razões para este fenómeno, noto as mesmas expressões que vejo às crianças pobres urbanas da Índia e do Bangladesh. Advirão de motivos distintos, mas todos eles terríveis, sempre. Uma criança tem de olhar como tal, ou já não é criança.
Depois, madrugada dentro, o final de “Momento Decisivo no Pacífico”, de Mark Healy com ilustrações de Chris Warner. A guerra no Pacífico no virar da corrente. Na verdade, as nações do Eixo só foram até onde os deixaram, não haja ilusões. A ilusão foi sempre toda dos seus líderes.
No particular: se a I Grande Guerra o foi no mosaico da Europa (e a partes de África), a II Grande Guerra foi feita por puzzles que recobriram uma grande parte do mundo. Esta a única “guerra mundial” dos homens.
Nestes livros, extraordinariamente escritos com base numa informação aturada de mais de sessenta anos, torna-se possível identificar todas as cores e tons de cada peça, seja de uma batalha ou de toda uma campanha. Simultaneamente, isso reduz a ideia da própria guerra geral, colocando-a muito bem nos seus particulares.
Não tenho dúvida, é uma das colecções temáticas de maior interesse que alguma vez adquiri.
Madrugada de sexta-feira, 17 de Setembro de 2010 – Passo a “Rommel em Retirada”, Julho de 1942, o décimo quarto volume da colecção, assim regressando às areias quentes do deserto norte africano. No texto de Ken Ford ilustrado por Howard Gerrard, os últimos confrontos entre alemães e italianos contra ingleses (enfim, com todas as suas tropas coloniais formadas por sul-africanos, indianos, neo-zelandeses e australianos, para além de franceses e gregos) antes da chegada dos americanos.
Agora, entra em cena Montgomery reatando tácticas de até então, para exasperação de Churchill, mas incutindo novos níveis de confiança, estratégias, e, sobretudo, reorganização.
De facto a Inglaterra não o é por acaso. De uma ou outra forma, sempre soube como, a par de uma tenacidade que só é possível aos povos bárbaros liderados por uma elite excelente. Por cá passa-se o contrário, desde D. Manuel I, poucas excepções à parte.
Madrugada de segunda-feira, 20 de Setembro de 2010 – Hortos neste fim de estação com o verão a parecer a pino, se bem que à entrada do Outono. Principais limpezas feitas, mantenho a horta das abóboras onde vão pululando, para gáudio da cara-metade que lamenta o fim próximo da reserva de cebolas. Para o ano faz-se mais e oferece-se menos, aquelas já cumpriram o seu objectivo.
Puxo do rendimento até ao fim, E a terra dá-me troco, com o brócolos a romper novamente à sementeira natural. Dá que recebes, diz-me todos os dias destes últimos anos, Tenho feito por isso.
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