segunda-feira, 29 de agosto de 2011



*

Terça-feira, 2h00m de 23 de Março de 2010 Mais de um mês passado sobre o desastre “natural” na Madeira – e apesar de ter sido logo accionado o respectivo fundo de emergência da União Europeia, do Governo do “contenente” ter disponibilizado toda a ajuda imediatamente possível e o cacique local ter levado avante, uma vez mais, o seu orçamento –, os estabelecimentos comerciais das grandes marcas deste país continuam a pedir-me dinheiro. Seja na aquisição de equipamento desportivo, de roupa, nas mercearias, na comida de plástico ou no bilhete de cinema, insistem em pedir para arredondar (para cima) o valor das minhas compras… “para ajudar a Madeira”. Continuo a dizer que não.Mas a tão propalada “onda de solidariedade” persiste e insiste, nos canais de televisão, da rádio, na imprensa escrita e na Net. Bem vistas as coisas, já quase só se deve à iniciativa do principal grupo comercial que domina as despensas desta pátria que exime as muitas culpas na nacional esmola, e que até parece que é oferecida ao Estado. Fazem saber a isso, sabem-na toda…
Mas não é. É um grupo privado que há muito vem a fazer diversas filantropias (para as criancinhas, para os idosos, para os desgraçados da vida) com o dinheiro do Zé povo, que não sabe disto ou não tem a coragem de dizer “já chega!”. Mete o seu rico dinheirinho nos cofres do enorme monstro que tudo domina – hipermercados, centros comerciais – e que tudo seca à sua volta, em todo o país, obliterando os negócios de muitos daqueles que, ora, não sabem ou não conseguem dizer “não” ao sorriso da jovem caixa, especialmente à frente da fila que aguarda pacientemente a sua vez… de pagar a esmola que, dada em nome do grande grupo económico, vai subtrair ao seu valor a pagar em sede de IRC ao Estado português. Suga-os a todos duas vezes e, a mim, uma, pelo menos.
A Madeira já está bem. Os trabalhos de reconstrução seguem a bom ritmo e os empreiteiros voltam a fazer milhões no meio da crise. Os industriais do turismo já esfregam as mãos com o retorno dos turistas, retorno esse constatado pelos telejornais. Os trabalhos de limpeza varrem as lamas e detritos à Primavera ora chegada, as chuvas que continuam imensas fazem branquear o resto.
No meio da teimosa contumácia do arredondamento “para a Madeira”, não esqueço que muito rapidamente se deixou de mencionar os quarenta e dois mortos e os sessenta e oito feridos que ficaram para trás – na memória também levada pelas águas malditas –, devidos à irresponsabilidade de construtores civis e governantes locais, apesar dos avisos de décadas de cientistas e grupos ambientalistas. Não interessam as malfadadas recordações das vítimas, até porque é mau para o negócio; já não, não vão ensombrar o espírito de solidariedade promovido pelos gabinetes de comunicação daquelas grandes marcas que não me largam e repetem, já muito inoportunas, todos os dias, a mesma pergunta: “Arredonda-se para a Madeira?”. Impertinentes!

Todo este tempo passado, todos estes dinheiros corridos, e ainda nada ouvi acerca de indemnizações às vítimas e às famílias dos mortos.

*

Sem comentários:

Enviar um comentário