domingo, 19 de fevereiro de 2012


Madrugada de terça-feira, 27 de Abril de 2010 Vergonha no Parlamento! A antiga líder do maior partido da oposição questionada em inquérito parlamentar por um deputado do partido do governo acerca do caso da alegada tentativa do governo de calar o “Jornal Nacional” da jornalista esposa do então director dessa estação televisiva. Calar como? Através da compra do canal através da Portugal Telecom, de quem o Estado detém uma golden share. Depois do negócio concretizado, a jornalista seria afastada esperando-se a demissão do marido.
Durante o denate, um deputado, vindo das insustentáveis “terceiras vias” do socialismo, cujo nome nunca recordo e que se for recordado no futuro será sempre pelas más razões, age como um cão de fila, enquanto que a senhora, coitada, parca de léxico, reafirma veementemente que o primeiro-ministro sabia, que isso se trata de um “facto”, enquanto o deputado rebate, sardónico, afirmando que isso não passa de uma “opinião”.
Os indícios sempre foram mais que muitos, se bem que apenas indícios. Os insiders sabem-no e afirmam-no. O primeiro-ministro e os membros do seu staff negam haver conhecimento acerca das intenções de compra por parte da empresa… conhecimento oficial. A ex-líder da oposição confirma esse conhecimento, porque não seria possível o chefe do governo não o saber. Todos depreendem isso mesmo, ou não saberia o que anda a fazer.
O lodo está de vez instalado. Não interessa que aquele telejornal fosse, em grande medida, “uma vergonha” na opinião de muitos, ou “um estilo” na presunção de poucos. Que até perseguisse o primeiro-ministro. Interessa que já ninguém tem dúvida que esse primeiro-ministro quis calar uma voz incómoda. Esta ideia ficou de vez instalada quando o próprio vem a terreiro defender-se que não tinha conhecimento “oficial” da tentativa de compra, e com o seu administrador indigitado na empresa e escandalosamente pago, sem currículo ou idade que o justificasse, a afrontar, imberbe, a comissão de inquérito parlamentar, negando-se a responder às perguntas dos deputados da oposição.
É “a porca da política” cada vez espojando-se mais rasteiramente, enquanto os seus bácoros se emporcalham numa orgia de mentiras e cinismos à vista de um eleitorado de olhos tapados, ouvidos moucos e quereres diáfanos, e que merece esta pocilga em que todos vivemos.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012



Madrugada de segunda-feira, 26 de Abril de 2010 No Dia da Liberdade saímos a pé, porque ela não pode ficar prisioneira da doença que lhe cativa o corpo e o espírito, e a afasta do aconchego da cama comum. Fi-la andar e andou muito, para além daquilo que ela mesma se permite mas que nunca me chega pois não quero que alguma vez pare. Só não digo que é a minha maior liça pois tenho muitas que me acompanham quase todos os dias e esta é uma daquelas que mais me faz porfiar o corpo e o espírito.
Dia da Liberdade que fez transformar os humores da madrugada num claro dia de primavera solarengo, de ares amenos e elementos anunciadores da nortada de verão que refrescaram o éter.
Antes do percurso final do regresso, conversa num banco de jardim, depois de outras tidas na tarde. Após os lamentos à conta dos apertos das circunstâncias que inscrevem os condicionalismos que nos tolhem, disse-lhe dos meus privilégios que entendo serem meus nos últimos anos. Preocupações financeiras apenas ao nível dos investimentos, da maior ou menor valoração dos metais preciosos, deflação que nos torna mais abonados, segurança nos proveitos acima da média dos casais portugueses, não sujeição ao horário de uma labuta imposta por terceiros, a possibilidade imediata de substituir materialmente o que se vir necessário, a faculdade rara do poder de parar quando bem entender, o facto de só a nós mesmos e a Deus devermos o que quer que seja e, no meio de tudo isto, a consciência disto mesmo.
Edito construindo as páginas que publico e cultivo fazendo uso da terra que é nossa. Tudo sem entraves, discricionariamente nas horas que bem entendo, repartindo os dias como me convém, as semanas como achar melhor, os meses do modo que se me ajustar preferivelmente, assim tornando os anos num quadro que tenho vindo a pintar com as cores que escolho, nas tonalidades que prefiro com suas variações imensas que jogo artisticamente, dispondo ainda do tempo necessário para o efeito. E no meio disto tudo, os amigos que preciso.
Claro que falta todo aquele resto. Mas hoje, nos 36 anos da Revolução dos Cravos, cheiro-lhes o perfume!

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012



Fim-de-semana de 24 e 25 de Abril de 2010 No início do dia que comemora a Liberdade, uma chuva morrinhenta cai esbatendo as cores que se queriam vibrantes do fogo-de-artifício. Tem sido sempre assim nos últimos anos, um quadro paradigmático daquilo que as coisas se tornaram depois dos últimos fogachos, havidos no período pós-revolucionário e de que a Constituição de 82 foi a formalização em magna carta do fim daquilo que nunca poderia ter sido.
Aquela revolução estava condenada à partida. Todo o ideário que tentou colocar em prática já tinha sido atropelado vinte anos antes nos Estados Unidos da América, quarenta anos antes na antiga União Soviética estalinista, sessenta anos atrás quando Lenine quando de revolucionário se tornou num homem de Estado.
Quando neste país aconteceu, só duas franjas da sociedade verdadeiramente quiseram saber: os proletários agrícolas do Alentejo, os operários da grande indústria da margem sul do Tejo e os jovens licenciados e bacharelados que perceberam que, não sendo aristocracia ou herdeiros do grande capital, aí viram o único caminho possível para uma verdadeira ascensão social. A sempriterna questão do poder, portanto. E claro, os jovens militares que não queriam morrer e matar no ultramar.
Esta revolução tinha uma morte anunciada e se com ela umas alforrias surgiram, outros afogos logo substituíram as asfixias de antigamente.
Que liberdade tem quem se submergiu em empréstimos a 40 anos, se encontra preso, para todo o sempre à prestação da casa, do automóvel, do empréstimo para as férias e até para as prendas de Natal? A que nível de autonomia se pode aspirar quando não há educação, justiça ou protecção social? Quando os cursos gerais não ensinam, os tecnológicos não fazem saber e o ensino superior se paga a peso de ouro, daí se saindo sem se saber escrever?
A que liberdade pode almejar o cidadão trabalhador de um país quando não tem emprego onde o possa ser e a insegurança seja sua companhia de todos os dias não sabendo, sequer, se virá a ter uma reforma garantida por um Estado que o faz desaparecer dos censos do desemprego logo que perde direito ao respectivo subsídio?

Hoje chove na praça das comemorações, a que este ano assisto ao longe e alegro-me, pelas minhas alfaces.

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