Madrugada de sexta-feira, 10 de Setembro de 2010 – Tal como acontece ciclicamente, findo o mês de Agosto, muitos postos de venda da VS&C venderam todos os números postos em banca. O mesmo acontece, em menor escala, ali por Janeiro de cada ano aquando das recolhas da edição de Dezembro anterior.
Acontece porque os visitantes que vêm a Viana, nestes períodos de férias, turistas ou familiares de visita à terra, vêem, interessam-se e compram a revista.
É uma pena que não sejam os meus conterrâneos a fazê-lo todos os meses. Bem lá diz o povo: em casa de ferreiro, espeto de pau. Adapta-se bem. Esta perpétua e cultural falta de atenção pelo que o vizinho do lado faz, enfraquece-nos a todos. É assim um pouco para com todos os aspectos da vida. Os poetas da terra não se lêem, os pintores não se apreciam, os músicos tocam de costas voltadas… e por isso as coisas passam e perdem-se da memória, ingloriamente, para esta lamentável sina de todos nós.
Quem sabe que só o município de Viana do Castelo teve mais de trezentas publicações periódicas desde os alvores do século desanove? Quem poderia imaginar então que a maior parte desses exemplares mais antigos nunca mais poderão ser vistos e estudados, porque não houve uma única alma, institucional ou não, que fizesse o respectivo arquivamento?
Esta espécie de desprezo intestino pelos nossos, que somos nós mesmos e cada um de nós, torna-nos em pequenos anões neste mundo cada vez mais globalizado, uniformizado, onde o único destaque possível é só mesmo aquele de, aproveitando a corrente globalizadora, expandirmos a partir de nós mesmos aquele ser que existe apenas dentro de cada um de nós, aglutinador das vivências regionais e locais, marcando as nossas capacidades e diferenças, assim mais nos engrandecendo para que possamos ocupar o maior espaço possível nesta rede que hoje cobre todo o mundo e nos liga a todos.
Mas sem o necessário respeito e genuína apreciação pelo labor do parceiro que, a nosso lado, diariamente luta pela sua terra e pelos seus, ou até somente mantém a tenacidade para sustentar a família e criar os seus filhos, vigiar os seus netos, nunca iremos mais além do que das nossas próprias pernas.
É este o grande drama que vivemos todos nós como sujeitos de pequeno torrão, mais incomodados em descobrir a fraqueza do vizinho do lado do que a sua potência intrínseca e que o faz continuar todos os dias.
Madrugada de domingo, 12 de Setembro de 2010 – Com muito esforço e paciência, fui vendo, entre consultas de email e respostas aos enviados, o programa do anúncio das “7 Maravilhas de Portugal” no canal um da RTP. E foi preciso ter pachorra!
Há coisas que nunca o deixam de ser, como este tipo de triste espectáculo. Em oposição a toda a encenação – que terá custado milhões, imagino – tudo foi de um amadorismo deprimente. Faltou preparação, faltou ensaio, faltou, enfim, o trabalho que o cometimento exigia.
Os apresentadores, melosos; os convidados anunciadores das atribuições –escolhidos entre desportistas, políticos de autarquia e directores de empresas municipais –, não sabiam por onde entrar, quando e por onde sair. Raras excepções, não sabiam o que dizer; os moços e moçoilas que iam a palco entregar o envelope com os “vencedores”, saídos das coreografias do espectáculo de luzes, música e dança, não tiveram fatiotas novas para vestir, depois de terem andado aos saltos pelo cenário de água e areia suja, apresentando-se com as indumentárias transpiradas, molhadas e manchadas de terra.
Até o troféu parecia um bacio de quarto; não, mais: uma arrastadeira que, sob determinados ângulos, passaria até por um cesto de pic-nic.
Contas feitas, para os portugueses, a serra da Estrela, a única sério que temos pelo continente, não mereceu distinção, ultrapassada que foi pelo relevo do Pico e aquele da Peneda-Gerez; o vale e os vinhedos do Douro ficaram nos esconsos da memória; os Algarves, só deram Ria e o Alentejo pareceu que é só de praias.
Pobre país!
Madrugada dentro para a leitura. Depois de dia de forno a ar parado, avanço nas horas madruguentas com minutos a páginas folheadas. Parece que acendo cigarros nos anteriores enquanto vou percorrendo esta colecção; porque termino “Bombas sobre Tóquio: Estados Unidos Contra-Atacam”, na investigação de Clayton K. S. Chun e ilustrações de Howard Gerrard, e logo encadeio o seguinte. Como se virasse a página seguinte. É o “Momento Decisivo no Pacífico” (Midway, Junho de 1942), episódio das infâncias de tardes de fim-de-semana a ver filmes e preto-e-branco em sótão na companhia de irmãs e primas. Repetindo depois sempre aqui e ali no resto da vida até agora e mais será ainda. É de Mark Healy com ilustrações – não referenciadas em capa –, de Chris Warner. A César o que é de César, vario hoje.
Madrugada de terça-feira, 14 de Setembro de 2010 – Conheci hoje o jovem que publiquei em estreia na edição deste mês da revista. Tem dezasseis anos e foi premiado num concurso de “e-talentos” dos CTT. Publiquei-o, a sua proposta, porque escreve bem e conseguiu arranjar uma trama interessante e pouco comum no texto que lhe deu o terceiro lugar.
Conversámos mais de uma hora e meia. É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si.
Deixou mais dois textos e encontrei o mesmo brilhantismo na trama dum deles, sendo que o outro é um escrito afectivo relativo ao falecido avô, mas também bom.
Precisamos de rapazes destes neste país. Inclinado para as letras, soube escolher um curso de Ciências e Tecnologia, via Ensino, porque quer seguir estudos superiormente que lhe viabilizem a vida.
Espero que mantenha a boa fonte de enredos, sempre aperfeiçoando a arte escrita; e que esta sua passagem na revista, que ora iniciou, se torne numa grata recordação da sua vida.
Entre muito assunto falado e troca de impressões, caímos na crise económica, mas não lhe referi o que ainda a semana passada mudou nos países da União Europeia. Que, agora, os orçamentos de Estado terão de passar pelo crivo da respectiva Comissão, que o seu país deixou de vez de ser dono de si próprio e que o seu voto para a Assembleia Constituinte da sua nação, daqui a dois anos, valerá muito menos do que poderia valer antes.
Não lhe falei que o sonho europeu é uma ilusão e que andaremos sempre a duas velocidades, com os países do norte a subsidiarem as economias do sul, por troca das suas soberanias.
Não lhe expliquei ainda que a perda de soberania redunda infalivelmente na degradação da democracia, nascente e origem da possibilidade que (ainda) tem de estudar em iguais condições de acesso a todos os outros jovens europeus, única oportunidade de um cidadão se elevar no plano pessoal, social e económico, tornando-se, assim, mais e melhor pessoa para criar um mundo superior, porque mais conhecedor e, por isso, mais justo entre os homens e ambientalmente sustentável.
Porque não se deve destruir sonhos a quem neles acredita; e porque acredito, ainda, que o sonho comanda vida.
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