Quinta-feira, 25 de Março de 2010 – Convidei-a a substituir quem saiu da revista, mas acho que já me arrependi, ou vou acabar por fazê-lo mais cedo ou mais tarde. Diz que “temos muito que conversar”, depois de mais de trinta minutos de faladura inconsequente ao telemóvel, comigo com ambas as orelhas a arder da radiação. Diz que sabe porque é que as pessoas compram a minha revista, sem nunca a ter lido, classifica-me de volúvel, sem nunca ter estado comigo, quer fazer uma sociedade por quotas, sem que eu saiba de quê; diz-me “eu faço o que quero”, a máxima do “Hellfire Club” celebrizada pela saga cinematográfica “Emannuele” e repete-a várias vezes, concluindo: “Temos que falar!”.
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Receio esta gente louca. Tenho passado os últimos anos a fugir deles todos, mas os ossos do ofício acabam sempre por me obrigarem a isto. E, eu, tenho mesmo azar nestas coisas, saem-me os duques todos.
Pelas 3h00 – Pouco mais de uma hora após levantar-me, mais cedo do que devia às horas de sono, digo a mim próprio que nada do que possa correr ao longo do dia mo poderá estragar. Os dias, ou melhor dizendo, semanas de downloads através de Emule pagaram-se a si próprias. Consegui muitas gravações antigas de Jethro Tull e o seu rock progressivo (adolescentes, chamávamos-lhe "rock medieval") admirado pelos melhores entendedores norte-americanos, de vez rendidos, inicialmente a conjuntos como os Beatles e Manfred Mann, depois Led Zeppelin e Deep Purple, Pink Floyd… No meio disto tudo, Ian Anderson e sua banda que continua a preencher-me o imaginário maravilhoso. Pela pantomina, o ridículo transformado no belo, o teatro, o guarda-roupa. Consegui fazer as gravações e, apesar de em ficheiro avi, o velho leitor DVD comprado a preço depreciado nos primórdios da tecnologia, conseguiu fazer o reconhecimento dos dados que, no ecrã da TV ainda com cinescópio que mantenho, me ofereceu um espectáculo imenso de encontro com o maravilhoso. Sinto-me, uma vez mais na vida, Alice no País das Maravilhas.
No entanto,
tão grande pode ser o engano. Não, não foi o imenso trabalho ao longo dia nem as obrigações (e tantas impertinentes) que acabaram com o fascínio e encanto em que me deixei submergir, feliz como um menino. Foi o texto que, tal como ontem, me ocupou várias horas até à chegada da maquetista cuja chegada à Redacção tardou e me fez fazê-la ir trabalhar no próximo fim-de-semana, situação por si deveres inconveniente e arrasadora deste resistir a que diariamente me imponho. O texto sistemático, construído sinteticamente a partir de diversas fontes de informação, oficiais e não, acerca do linchamento ocorrido no passado dia 5 de Março do filho e sobrinho de conhecidos meus de décadas, talvez há já mais de trinta anos. As minhas faces contraem-se várias vezes à medida que leio, transformo em frases telegráficas a narração dos eventos, os discursos directos das fontes, sempre ocultas, a ausência de detenções quase três semanas após a morte do jovem de 19 anos sob os pontapés no crânio dos quatro a cinco energúmenos apontados à boca fechada. Nunca um texto jornalístico me custou tanto em quase vinte e sete anos de textos jornalísticos. A prova a que estou submetido continua a mortificar-me dia após dia, enquanto procuro e a transformo num único texto.
Pais e tios do rapaz continuam a negar o seu envolvimento nos distúrbios e desacatos havidos nos dias, semanas e meses que antecederam o linchamento. Os moradores das redondezas não o negam. Os antigos companheiros do desgraçado continuam a assegurar vingança ao episódio por todos descrito como um caso de “justiça popular”. Não sei quando isto terminará e o fim não está à vista, apesar da Polícia Judiciária assegurar que a resolução do caso está para breve.
A minha afectação é grande, a dos meus filhos também, pois conheciam bem o rapaz, deles vizinho. Escrevo o Editorial desta edição a espaços. Tenho princípio e o final compostos, ainda não sei o que incluir no desenvolvimento. Pouco material dessa peça escrito ainda, mas que me parece já tão longo.
Não vejo a hora de acabar.
Lá fora, a chuva e o vento matam-me as alfaces nos Hortos.
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