sábado, 29 de dezembro de 2012

Madrugada de sexta-feira, 06 de Agosto de 2010 “Singras-te na vida”… É impressionante como o que diz a nossa professora do ensino primário é importante. Com muito efeito quando dito com alguma audiência.
Aconteceu na exposição de pintura para a qual recebi convite (ou melhor, a revista, é o que é) e que teve visita de candidato presidencial, mas cuja ida negociei durinho, via correio electrónico, ontem à noite. Reportagem, sim senhor, mas troco de um trabalho do artista; melhor: dos artistas, porque a exposição é conjunta e, após breve reflexão, a minha solicitação à artista tornava-se necessária por uma questão de coerência das coisas. Já com o acordo prévio dele, consegui, felizmente, o dela e conto com os quadros no final da exposição.
“Singras-te na vida”. Pois, mas com rija vontade, áspera objectividade e descarado pragmatismo, este último igualzinho àqueles que me pedem este tipo de serviço, com o argumento de que “é bom para a revista”.

Ouço-o num programa em reposição num canal noticioso. Sociólogo, continua a dar uma no cravo e outra na ferradura no seu comentário, sobre tudo, evidentemente. Já o fazia quando passou pelo Governo, nos idos de 70. Construiu uma carreira a falar mal do seu país. Porque é que qualquer rasgo de brilhantismo é sempre para aí direccionado? Porque o ouvem tanto? Masoquismo, só pode ser a resposta.
Pertence àquela geração que sustentou uma certa forma de intelectualidade no desprezo e na maledicência. Continuam, todos eles. O mais dramático é que não deixam de ter uma certa razão.


Madrugada de sábado, 07 de Agosto de 2010 Vejo hoje que anunciam possibilidade de aguaceiros para segunda-feira. Será? No dia da Volta a Portugal em Bicicleta a passar por Viana, 40ºC, mais ou menos como nas últimas semanas, comigo a regar de dois em dois dias, há três ou quatro meses. Espero que chova. Fazia-me bem o descanso.


Madrugada de terça-feira, 10 de Agosto de 2010 Em fim de dia (ou em início de madrugada, tudo é uma questão de perspectiva), do mestre Alfred Hitchcook uma bela peça cinematográfica que me escapou toda a minha idade: “A Cortina Rasgada” (“Torn Curtain”, no original que alude à por Winston Churchill cognominada “Cortina de Ferro”, em discurso ao Congresso norte-americano), com Paul Newman e Julie Andrews.
A cena da discussão das equações matemáticas na Universidade de Leipzig entre os dois físicos é genial e só por isso o filme valeu a pena.
Mas toda a película é de uma mestria a toda a prova, descontando as ingenuidades da época (1966) mas a que agora se opõe o exagero. Entre ambas as coisas, cada vez mais prefiro o então. Porque nem por isso deixava de tratar o espectador como um receptor inteligente, enquanto agora apenas procura impressionar os néscios.


Madrugada de quarta-feira, 11 de Agosto de 2010 Continua a caça ao homem. Num país indiferente, doméstico e dócil perante um “Caso Freeport” agora fechado, sem culpados, o desposo do sorvedouro de centenas de milhões de euros dos bancos falidos, um julgamento do “Caso Casa Pia” de sentença eternamente adiada, o treinador da selecção é perseguido por um caso ocorrido antes ainda durante a preparação da equipa para mundial. Enxovalhado pela insuficiência que grassa o nosso dirigismo desportivo, médico, jurídico, enfim, federativo (os mesmos que resolveram de uma assentada, limpando a guardanapo e sorriso a agressão do anterior treinador brasileiro a um jogador adversário, à vista de todo o mundo), até com a secretaria de Estado do Desporto a dar uma mãozinha a todo o caso, o actual técnico apresenta em sua defesa homens de topo, tal como o eterno treinador do clube inglês, agraciado pela sua rainha com o título de cavaleiro do reino, e que diz que o português “é um homem bom”, acrescentando que, desses, “há poucos”.
Só à conta da intervenção deste velho terrier dos ncampos de futebol, o mundo volta a colocar os olhos neste país de mediocridades feito, que vai olhando a banda passar levando-nos couro e cabelo, enquanto apela ao (des)crédito da finança internacional.


Madrugada de quinta-feira, 12 de Agosto de 2010 Desde a última rega, no crepúsculo do sol poente de segunda-feira passada, o fogo esteve nos Hortos. Não o pensei tão perto. Seguindo os rastos dos pneus dos veículos dos bombeiros, com alguma surpresa apreciei o mato queimado, a par de alguns pinheiros bravos, que bordejam uma das parcelas vizinhas. O fogo devastou toda a área para lá da via rápida, conseguiu atravessá-la e aí foi travado pelos soldados da paz que assim evitaram que as culturas fossem apanhadas no braseiro. As chamas ficaram a duas parcelas da minha e agora mais temo as bouças negligenciadas que confrontam a sul todo o comprimento do meu terreno.
Mas que aquilo merecia arder, merecia…

Aqui fica o prólogo da minha campanha do futebol mundial: chegam notícias da Coreia do Norte que o treinador da selecção foi, ou está, obrigado a trabalhos forçados e sujeito a maus-tratos pelo fraco desempenho da sua equipa. Na mesma situação estarão alguns dos jogadores mais proeminentes.
Tinha-o previsto, depois daqueles 7-0 com que selámos os seus destinos. Agora, aconteceu.

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sábado, 22 de dezembro de 2012


Madrugada de quarta-feira, 04 de Agosto de 2010 No intervalo da escrita criativa, aquando o ficheiro transfere para um dos discos portáteis, leio um livro enquanto aguardo ainda a chamada à secção gráfica da Câmara Municipal. Mais tarde, calço um sapato enquanto ajusto a camisa e aperto as calças, trincando o pão do lanche tardio.
Saí das notícias escritas no escritório em casa e da revisão de provas, e equipo-me para a rega a acontecer antes das 20h00, hora da penúltima sessão de montagem da maqueta da edição de Agosto da revista que ainda edito à escuridão do novo acordo ortográfico porque ainda não tive pachorra para isso (para além do desacordo, factor muito mais importante).
Lá fora desperta-me o vento quase suão, de semanas, a impedir-me a progressão rápida do velocípede, mas o boné antes perdido ajudará ao esforço do caminho para horinha e meia de balde e regador acima e abaixo.
A produção de abóbora poupa-lhe no peso do saco do hipermercado, o que para mim seria sempre suficiente. Comemos sopa a todas as refeições, um dos bastiões da perfeição que persigo.
Correrei rua abaixo depois do duche com pasta pesada, para abrir a porta da Redacção à designer para montagem até à meia-noite; e só depois o jantar. Aí mais uma hora de escrita, depois das 3h00 da manhã…
 Sou vinte anos com mais do dobro, sorrio ao que como, lamento o que não durmo e quero acordar todos os dias que acho pequenos; assim como à noite.
Quero viver 400 anos!

Mais um a pedir-me colaboração na revista. Diz que tem 16 anos e que quer ser escritor, mas já não tenho espaço para os que tenho; também o antigo colaborador mal-agradecido, mais de um ano depois a pedir-me a minha presença na inauguração da sua exposição de pintura. Quer o jornalista, não o homem.
Parvo que sou até devo aparecer; porque gostei dos trabalhos.

Dos emails trocados recebi livro de editora portuguesa. Surpresa: vasta colecção onde os autores portugueses dominam; os temas, aqueles que gosto. De nome “Zéfiro”. Tenho de saber mais, quero-os comigo todos os meses na página de divulgação de livros da revista.

Este comecei-o hoje mesmo. É o quarto com que me debato em simultâneo. Veio a pedido. Encadernação diferente, design a lembrar o que se fazia, do autor Rainer Daehnhardtm “Homens, Espadas e Tomates – Feitos Heróicos dos Portugueses nos Descobrimentos; As suas Armas e as dos Seus Adversários”. Já passei os olhos por várias páginas. Magnífico!

Acabo por isso a tempo “O Mensageiro”, de Andy Andrews, o tal conselheiro da presidência norte-americana. Há livros mais importantes do que outros, independentemente da sua qualidade intrínseca. Este foi-o, porque ajuda nas relações com as pessoas. Pequenos nadas de coisas óbvias, que de tanto o serem tornam-se difíceis de ver. Mas não apenas por isso, porque também pelas outras coisas, aquelas maiores, que de tanto o serem também se tornam difíceis de descortinar.
Sem oferecer milagres, coloca-nos noutras perspectivas relativamente aos mesmos problemas. Na verdade, fiz um reconhecimento de muitos aspectos que têm feito parte da praxis da minha vida, evitando colisões, procurando o melhor ângulo para ultrapassar a dificuldade, colocando-me dentro de outrém, de modo a perceber melhor. O autor tudo isto sistematizado numa série de situações vivenciais bem generalizadas, se bem que o cunho norte-americano se inscreva no seu discurso de uma forma indelével, dando ênfase às questões relacionadas com a competição entre as pessoas.
Uma leitura bem aproveitada e cuja velocidade de leitura fiz diminuir, para que durasse mais tempo.

Os livros, os livros. Os dos outros e os meus. Estes são este, o outro, aquele, mais a poesia a vários e ainda o resto, a única parte que revejo e corrijo porque publico na VS&C. Roubo horas ao trabalho, à leitura, ao sono e até por vezes ao amor. A todos os amores, sentidos ou obrigados.
Mas que necessidade, que premência… Vício será? Adrenalina descarregada a conta gotas, inundante de furor de vida, de realização cumprida para ser. É liberdade e que liberdade é! Vogo os desejos da vida, no vértice e canto de cada palavra encontro nova ideia, na estrada da frase um novo caminho, vaso comunicante de essência e vigor, mundo novo admirável, sobejo de cor e vontade feita, inscrita.


Madrugada de quinta-feira, 05 de Agosto de 2010 Quero descansar, sentir férias, mas os trabalhos auto-impostos não me dão tréguas e, ainda por cima, dão-me prazer a todos os níveis: na antecipação, na ansiedade do antes e do durante, no esforço do fazer e, finalmente, na missão cumprida. Sinto-me sempre um garoto desorientado. Não consigo mandar tudo às malvas como os outros.

Escrevo no “outro lado” desde há três ou quatro dias consecutivos. Mais de uma hora depois das três, três e meia da manhã. Começo e não consigo parar. Que espiga!

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sábado, 15 de dezembro de 2012

                                   
Madrugada de sexta-feira, 30 de Julho de 2010 Triste, triste, a morte hoje do actor António Feio, aos cinquenta e cinco anos de idade, vítima de cancro no pâncreas contra o qual lutou duramente, sempre com aquele brilho nos olhos que só é possível encontrar nas crianças, assim como aquele sorriso.
Também a sua vida foi uma luta permanente, pelo trabalho, pela aceitação, pelo espaço, tudo apenas conseguido nestes últimos anos. Conseguira comprar o carro que sempre desejou, um Porshe, o novecentos e onze… em segunda mão. Anunciou-o exultante à revista social que o solicitara para mais uma entrevista na ressaca do sucesso da sua “Conversa da Treta”, com o colega e amigo José Pedro Gomes.
Era uma alma boa e Deus quer sempre as boas almas junto de si, mais cedo.


Madrugada de segunda-feira, 02 de Agosto de 2010 Agosto, mês de festas e romarias. Os emigrantes enchem as freguesias e os filhos voltam às casas paternas com os seus. Sol e foguetes enchem os dias e as noites fazendo o ano dobrar enquanto me parece estar ainda no princípio. Passa a primavera e ainda não saí do inverno, o verão comigo a viver a primavera e a estranhar o calor. Por isso sinto que devo alguma coisa à vida; por isso com I. saí para o encerramento das festas da freguesia, já perto da meia-noite; e procurar umas farturas que não comprámos. Também não tomámos o café porque a máquina já estava desligada e repetimos a exposição do costume do grupo folclórico, que fica sempre no caminho. Depois, fazendo afastar gente, atravessámos o adro da igreja atravancado de gentes e bandas de música que esperavam a vez. Entrámos após cumprimento ao padre e membros da comissão de festas, à soleira da porta.
Gosto da igreja nestas alturas, despida de mobiliário e com todas as luzes acesas. A paz é maior. Percorremos todos os andores (S. Vicente, S. Amaro, Sr.ª da Ajuda, os outros…) até pararmos no maior, em honra de St.ª Cristina, padroeira da freguesia da Meadela. Recolhemos umas orações, deixámos esmola à Santa e acendemos uma vela, daquelas eléctricas, que sai mais barato e pressiona menos o ambiente.
À saída vimo-nos bloqueados. A última banda a actuar estava toda formada defronte a igreja e tocou para o pároco, connosco e outros atrás dele. Esta, veio de Ílhavo, esclareceu-me um dos senhores da comissão de fesrtas. A certa altura o maestro, que já havia saudado o monsenhor com grande abraço, assim como aos senhores a seu lado – ainda olhou para mim mas mantive-me no meu sítio, mais retirado –, oferece-lhe a batuta, num gesto de distinta honra, entregando-lhe a direcção da banda. O padre V. entendeu-se bem com a coisa, sob o olhar de todo o mar de gente que se perfilava a várias filas enchendo o espaço, que não é pequeno. Depois, o maestro reassume a direcção musical e faz a banda voltar à direita por três vezes, assim saudando também o público em audiência. Depois, uma vez mais, entregou a batuta ao pároco que voltou a cumprir bem o seu papel. No final, o maestro voltou a cumprimentar os senhores à soleira da porta com grandes e sentidos abraços, com o sujeito a meu lado, velhote nos seus sessenta e muitos anos, a protestar, para quem quisesse ouvir, que já eram “abraços demais”. E percebendo que, provavelmente seria ele o próximo, trata de recuar para o interior da igreja a passo apressado. Situação digna de nota, sem dúvida!
Mas a coisa soube bem. A banda seguiu com o “Havemos de ir a Viana” e encerrou com uma cantiga de ocasião de despedida, coisa a que assisti pela primeira vez.
Há sempre uma comunhão muito grande entre as pessoas nestas coisas. Por isso, e até mais do que devendo à vida, devo a mim próprio também sê-las, para que me cumpra bem no meu lugar.


Madrugada de terça-feira, 03 de Agosto de 2010 Hoje morreu o jornalista Mário de Bettencourt Resende. Vinha a observá-lo cada vez mais magro, talvez ao longo deste último ano, quando opinava nos telejornais ou discutia nos programas de política. Ex-director do “Diário de Notícias”, vinha envolvido em polémicas sobre política, dada a actual propensão do actual editorialismo em participar directa e activamente na vida política. Admirado mais por uns que por outros, era um dos senhores do domínio do alvitre jornalístico.
Tinha cinquenta e sete anos e foi-se de cancro, como muitos outros. Os jornalistas especialmente, que sou.

A braços com três livros; com dois diários quase todos os dias. Consumo-me na concretização, roubando horas ao sono, reforçando a gastrite e a permanente sensação de fome. Dói-me o estômago sempre. Acordo e deito-me com a coluna dorida, o ombro esquerdo fora do sítio, mazelas nos joelhos e tornozelos. Enxaquecas ocasionais…
Tenho sido dor, sempre.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


Madrugada de quarta-feira, 28 de Julho de 2010 Se não é o sacho e a sachola, o balde e regador, são as pastas, os livros e o computador. Estou condenado a esta forma física.


Madrugada de quinta-feira, 29 de Julho de 2010 Está feito. A PT vendeu a sua participação na brasileira Vivo aos espanhóis da Telefónica. O assédio vindo de Maio passado teve hoje o seu desenlace após meses de negociações falhadas. Na vontade dos accionistas, tais ratos em navio a naufragar, de vender, o Estado, através de sua golden share conseguiu ainda segurar durante algum tempo a decisão de venda, obrigando os espanhóis a subir o preço de oferta que, depois dos cinco milhões e qualquer coisa de euros  oferecidos inicialmente, acabou por conseguir finalmente a compra… por cerca de mais dois milhões.
O administrador executivo da PT, que sempre se opôs ao negócio, exultava à comunicação social. Percebo porquê. Nuestros hermanos não conseguiram encaixar a ideia de uma empresa portuguesa se opor com sucesso às suas pretensões. Sentem Portugal mais deles do que podemos ter a noção. Mas sem conseguirem alcançar o objectivo, semana após semana, mês após mês, mais não lhes restou que ir de encontro à valorização das acções e pagá-las a língua de palmo.
Mas o contentamento do administrador não se deve só a isso. É que com o dinheiro encaixado comprou a Oi, operadora brasileira de comunicações fixas. Perdeu 60% dos proveitos do grupo PT para os espanhóis, mas manteve a sua posição no mercado brasileiro. Agora é só transferir know-how e alargar a empresa às comunicações móveis, com certeza também capturando muitos antigos clientes da Vivo. Por isso a administração da espanhola Telefónica deve ter ficado a arrancar cabelos. Pagou a bom preço a possibilidade de arredar os portugueses do mercado brasileiro, mas saiu-lhes o tiro no pé.
No meio disto tudo a tão odiada pela direita política golden share do Estado português. Não fossem aquelas 500 acções que possibilitaram o poder de veto ao negócio e a Telefónica teria ficado com a Vivo a preço de saldo. Os grandes financeiros da treta que temos por cá teriam entregado o ouro ao bandido, como já o fizeram em 1580. São sempre estes, sempre os mesmos que têm vendido a retalho o nosso país, ao longo de séculos, a espanhóis, a ingleses e franceses, para sustentarem a sua incompetência.

No meio do desvario, me fico pelos Hortos. Hoje com a moto-bomba entregue ao representante para reparação, ainda durante a manhã, accionando a respectiva garantia. Foi amigo que cumpriu a promessa já com um mês e me deu a boleia à outra margem. Aturei a menina mal-formada da recepção da grande superfície que pretendia o original da factura já metida ao contabilista e que não queria aceitar a cópia como comprovativo de pagamento: menina que lá está da mesma maneira que poderia estar numa loja de pronto-a-vestir ou a servir cafés, e que achava que a factura “não dá para meter em despesas” (idiota ignorante!) – mas lá ficou a coisa, com certeza a mofar bastante tempo. Estas marcas alemãs montadas na China… é um mundo que é um horror, é o que é.
Lucrei da voltinha mais uns estrados em madeira para enriquecer o equipamento da infra-estrutura do terreno, a oferta do amigo a quem ofereci o café e a promessa de uma caixa de cebolas e uma abóbora; a melhor que o jeito, embora tardio, foi grande.
A Rega foi feita depois das 20h00, com regresso às 22h00, depois de tarde de trabalho na Redacção com volta anterior por Viana, e em que me graduei no Traje de Mordoma, o tema de capa da VS&C de Agosto. Relações públicas ainda feitas com colaboradora a garantir o tema de capa da edição de Outubro, com tema conveniente às comemorações dos cem anos da implantação da República.
Muito se faz sob 40ºC! E amanhã fico até às quinhentas pela segunda vez em três dias a montar a edição com A.

E os livros, ainda…
Terminado “O Livro Inacabado de Dickens”, de Matthew Pearl, a continuação da desventura alemã na Rússia com o início da leitura este terceiro volume da “Operação Barbarossa”, na saga dos nazis que, de vitória em vitória conseguiram chegar à derrota final, os loucos.
Mas não só. De nova encomenda recebida, que perfaz mais sete volumes para a nossa colecção neste mês de Julho, as primeiras páginas de “O Mensageiro”, de autor americano, Andy Andrews, o qual, traz escrito, é conselheiro do presidente Obama, sim senhor. Gostei muito daquele primeiro voltear de folhas. Ficou na Redacção, mas esta semana virá para casa.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Madrugada de sexta-feira, 23 de Julho de 2010 Com uma profunda pena, arranquei à terra a última das alfaces da temporada. Vai Julho alto e as nabiças já escasseiam, o brócolo já chegou ao fim e as cebolas já estão todas encaixotadas. Aguo agora as abóboras pouco mais que desenxabidas e luto pela suculência de menos de uma vintena de couves lombardas, que me parecem prometer, mas que a vizinha há muito me anunciou costumarem sair muito rijas.
Agosto está à porta e anseio já pelas culturas de inverno. Nova semeadura de nabiça e estreia à couve penca, para provar no Natal.
Prosseguirei para já a limpeza do terreno, talvez a recuperação de partes de muros e, se nada mo impedir, este fim-de-semana coloco a primeiro uso o aparelho com o herbicida, pois os silvados das bouças vizinhas caem outra vez cobrindo as pedras arruinadas.
Com alguma sorte, a bomba de água avariada irá amanhã para o representante, segundo promessa de amigo com quase um mês de palavra dada, a ver vamos.


Madrugada de sábado, 24 de Julho de 2010 Vivemos tempos interessantes. Há dois dias um alto dignitário da igreja portuguesa veio a terreiro insurgir-se contra os responsáveis financeiros pela crise económica que atravessamos. Com um ar de quem, sem a batina, e faria bem passar por mais um banqueiro, falou das culpas dos bancos neste frenesim de créditos distribuídos a torto e a direito, de uma forma que muito poucos se atreveram a fazer recentemente; da condenação dos mais vulneráveis às tentações do crédito fácil, concedido por quem deveria ter mais responsabilidade na sua atribuição. E acabou por apelar à revolta social.
No dia de ontem, na resposta ao torvelinho do jornalismo, desafiou os detentores de cargos políticos, eles também no rol das suas acusações, a cederem vinte por cento dos seus rendimentos às organizações que trabalham para os mais necessitados.
Hoje responderam os políticos, da esquerda à direita. Que a caridade é com cada um, que a doutrina católica ela própria diz que a mão esquerda não vê o que faz a direita, que têm a consciência tranquila no que toca às suas contribuições caridosas.
É fácil e óbvio dizer que o sacerdote não tem base de sustentação no seu apelo, porque é assim mesmo. Mas, digo eu, até que enfim alguém da hierarquia mais notória, que não um simples pároco, dá finalmente um murro na mesa exigindo um “basta” à horda de bancos e instituições financeiras que ainda há bem pouco, nas suas próprias palavras, lhe haviam oferecido uma quantia exorbitante para que fosse de férias… a pagar depois.
Ainda bem que há padres com eles no sítio.

No meio disto tudo os resultados aos “testes de stress” feitos a noventa e um bancos europeus, que constituem dois terços da estrutura bancária da Europa. Os quatro maiorres bancos auditados revelaram resultados positivos. Falharam os testes cinco caixas de aforro espanholas, um banco grego (admira ter só sido um) e um banco… alemão.
Isto é Deus a escrever direito por linhas tortas.


Madrugada de domingo, 25 de Julho de 2010 As coisas simples são mais belas, porque mais sozinhas. Compõe-se um quadro com uma só flor, representa-se uma flor com somente uma pétala, monta-se uma película apenas a duas cores…
Esta madrugada mais filme do mui brasileiro Canal Europa seleccionado da colecção gravada; “A Segunda Noite de Núpcias”, filme italiano escorreito em fímbrias de humor mediterrânico, assim racontando o dramatismo da vida do pós-guerra. Um postal de vidas e, como tal, pequenas lições de crescimento deste género que, de tão humano, quase animal. A simplicidade complicada colocada na vida de um simplório que explicou porque todos os outros são menos ainda, ainda que entendendo-os melhor sem reciprocidade versa.
Descanso assim vendo e conforto-me comigo, conformando-me com o sono a meu lado, amando-o(a) até. Nunca quero perder de vista o quanto tenho e sou, só por tê-la.


Madrugada de terça-feira, 27 de Julho de 2010 Depois dos “testes de stress aos bancos”, que visavam aferir das capacidades de resposta perante cenários de crise financeira, com pouca liquidez na banca, onde provámos estar melhor que os bancos alemães, seguem-se os “testes de mercado”. Aguardo curiosamente os resultados.
Depois dos primeiros dados saídos a público, a bolsa continuou a afundar e só hoje houve recuperação digna de nota. Mesmo em melhores condições, não conseguimos, sozinhos, inverter a insegurança dos mercados dentro do país. Farto de continuar à espera dos outros, sem gente que saiba fazer sair disto.
Que se danem todos! Num país com a capital mais quente da Europa, a mais de quarenta graus centígrados, com previsão parecida para os próximos dez dias, pelo menos, refugio-me nos Hortos para aguar a abóbora e a nabiça. Regador acima, regador abaixo, já perto da hora do jantar com a temperatura a secar tudo à minha volta, e a mim mesmo, ouço a vizinha a vituperar o marido enquanto dá ordens para sacar a batata da terra. E que linda que ela é! A branca e a vermelha. Fico-me pelo amor às minhas cabaças tenras e desenxabidas, de alimentar porcinos, donde I. faz sopa que muito aprecio. A nabiça resiste, sempre. E eu também, debaixo do sol de fim de dia a parecer meio-dia, ou agora aqui, a escorrer água no esforço do laptop apoiado nas pernas flectidas enquanto escorro água pelo pescoço debaixo desta imensa barba de peregrino, a ser no próximo mês de Agosto à Santiago Composteliana deste Ano Xacobeo.
Iremos.

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sexta-feira, 23 de novembro de 2012


Madrugada de terça-feira, 20 de Julho de 2010 Hoje anoto, porque voltei a”O Meu Outro Diário”. Por lá me fico, o tempo não dá para tudo e ainda nem iniciei as minhas leituras de cama.


Madrugada de quarta-feira, 21 de Julho de 2010 Traduzo bem a felicidade desta fase da minha vida, nestes últimos anos, no tempo que consigo arrancar aos dias para estar nos Hortos a regar, um imperativo de respeito à vida que optamos por criar; também aos momentos que cumpro de leitura lúdica e que transformo em horas diárias.
No primeiro caso, nunca falhei mais longe do que numas poucas folhas de alface queimadas, por algumas horas de atraso no regador despejado; no segundo, no máximo à custa de horas de sono, retemperadas pela calma de disciplina a que me impus na última década da minha vida, talvez já mais um pouco.
Tudo isto a coberto de uma estrutura de conforto que só o deixa de ser por escolha própria. Se menos sou ou estou do que fui ou estive, é porque a alteridade, e como tal o mundo, se têm vindo a degradar. Mas na redução a que assisto, contas feitas, só me sinto engrandecer.

Em fim de noite assisto com I. a um episódio da nova temporada do “Vai Tudo Abaixo”, em canal por cab (porque aquilo não caberia num canal emitido em antena aberta). De sobrolho franzido, leio um aviso prévio ainda antes do genérico:

“Neste programa não molestámos qualquer animal racional ou irracional.
Todos os intervenientes autorizaram o uso das imagens recolhidas.
Por favor, não confundam ridicularizar estereótipos com a realidade.
Afinal isto é apenas televisão.”

Num país verdadeiramente livre, a produção deste tipo de programas não sentiria a necessidade de perder tempo com isto.
Está a acontecer em todo lado. A secção de “apanhados” fotográficos do jornal regional de maior expansão cá no distrito também já coloca uma nota de conteúdo com a mesma intenção. Isto nada mais é que um pedido prévio de desculpas. É muito mau que programas de crítica humorística e, especialmente, a imprensa, se veja na necessidade de se auto-censurar desta forma, porque há outras, que vão apenas de encontro ao equilíbrio das coisas.
É isto um sinal dos tempos, com o maior partido da oposição ao Governo a preconizar uma Presidência com poderes para levar a cabo governos de “iniciativa presidencial”, aumento dos mandatos de deputados e PR, fim da gratuitidade do Ensino, de uma Saúde tendencialmente gratuita, entre outras pérolas que nos fariam regredir mais de trinta anos, depois de tudo isto ter falhado nos próprios EUA.
Mas não são estes tontos da direita que me assustam. Como não sou nem serei candidato político e posso dizer o que me apetecer, digo que o que temo é a permanente ignorância deste povo que bem pode colocar energúmenos que defendem este tipo de ideário civilizacionalmente retrógrado (e perfeitamente assassino) no poder. É que, verdadeiramente, nunca tive confiança alguma no “eleitorado”. Como poderia ter?
Quanto ao “Vai Tudo Abaixo”, continua brilhante. Diz um dos actores da rubrica “Os Homens da Luta” enquanto acompanham uma maratona de luta contra a fome: – “Contra a fome o que eu faço é comer, pá!”. É difícil encontrar algo tão simples e tão piadético.


Madrugada de quinta-feira, 22 de Julho de 2010 Sempre senti uma ponta de vexame nos outros ao longo de grande parte da minha vida. Por uma razão muito simples: nunca deixei de cumprir as horas marcadas e, nos poucos casos que isso não aconteceu, sempre por motivos de força maior, dei nota disso mesmo atempadamente. Não os outros e, por isso, eu mais que eles.
É um problema nacional deste país que nem horários consegue cumprir. Seja para o trabalho, quer para o lazer. O Eça descreveu muito bem este sortilégio pátrio com cada empregado de escritório a medir a sua importância relativamente ao colega do lado no tempo de atraso ao encontro. Quanto mais atrasado, mais importante seria o seu patrão.
Mas hoje ultrapassei todas as marcas. Na verdade, o caso até nem foi o atraso propriamente dito. Na verdade, esqueci-me completamente das gravações prévias ao programa de rádio “30 Dias”, que mantenho desde Abril do ano passado na (...) e só o telefonema do radialista responsável pela parte técnica me alertou, passava meia hora daquela acordada.
Não me lembro de alguma vez ter tido uma coisa destas. Aborrece-me particularmente que tenha acontecido, pois esta coisa da assumpção de compromissos e do respeito pela hora marcada é parâmetro essencial no meu ser-estar.
Poderia dizer que tudo se arranjou, que a coisa se fez (que se arranjou e ficou feita), mas problemas nas definições do programa informático acabaram por pesar ainda mais no atraso das gravações e foi mais o tempo de espera à custa disso mesmo do que o que ficou perdido pelo meu esquecimento. Por isso as minhas desmesuradas desculpas foram menos sinceras no fim do que no princípio; até porque ninguém se pareceu importar muito pelo material que não estava nas condições de afinação requeridas, desde o técnico ao director-geral da estação.
Às tantas, o mais estranho nisto tudo foi o meu cuidado com as desculpas apresentadas. Nem duvido, até.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012


Madrugada de quinta-feira, 15 de Julho de 2010 Nestas notas (por vezes diárias) que escrevo, são compassos de vida que acabam por ficar registados. Esses ultrapassam sempre no seu volume o intuito primeiro que esteve na forja destas mesmas: a terra em que enraízo o corpo e os livros que me refrescam a mente.
No entanto, o avassalamento deste mundo desvairado, que se torce e contorce procurando a linha direita, firmam-me amiúde os dedos nestes discursos de branco no preto em tudo o que é tergiversação daquilo que realmente importa; precisamente porque a inexorabilidade da loucura humana continuamente nos espanta sempre o espanto.
Hoje, vários bancos portugueses foram baixados num nível pelas empresas de rating, e dois deles dois níveis, entre estes últimos o maior banco privado português que chegou já, inclusivamente, a apresentar lucros superiores à toda-poderosa “Caixa”.
Tido como exemplo do empreendedorismo bancário privado durante largos anos, desde o seu surgimento, arrasta-se agora do engano em vigarice, mudando conselhos de administração, e até já o seu mais notório accionista individual quase pede a “nacionalização”. Por certo quererá nacionalizar sim, as suas dívidas, à custa dos dinheiros dos contribuintes…
No actual caso da tentativa de compra da brasileira Vivo à portuguesa PT por parte dos espanhóis da Telefónica, os mesmos grandes accionistas decidiram a venda da subsidiária (depois vetada pela golden share do Estado português), apesar da importância da empresa brasileira para a PT, sendo daí que resultam sessenta por cento das suas receitas. Só mesmo a falta de liquidez pode explicar a decisão venda ao desbarato de um dos maiores capitais empresariais nacionais, privado ou não. Estão sem dinheiro, é o que é!
Entretanto, os accionistas de uma empresa do maior grupo de fabrico e distribuição alimentar em Portugal (os mesmos grandes accionistas, está-se mesmo a ver), decidiu, há dois anos, não pagar dividendos devido ao crescendo de dificuldades; ou seja, continuam a pedir dinheiro aos investidores, mas decidiram cortar nas contrapartidas. Ainda por cima com a forte desvalorização dessas mesmas acções. Ou seja, isto é pedir caridade, coitados.
Hoje mesmo, estive no banco a protestar uma “alteração das condições gerais” do meu mais recente cartão de crédito, porque os senhores querem que os clientes paguem as despesas de cancelamento em caso de perda, desvio ou furto; ou seja, a antítese daquilo que é um cartão de crédito, que normalmente inclui um pequeno seguro, precisamente para cobrir este tipo de eventualidades, sendo esse tipo de segurança intrínseca àquilo que sempre definiu os cartões de crédito. Estes coitados desnorteados que já não tem a noção do que é o decoro ou a vergonha, já não sabem, onde ir buscar dinheiro, os pobrezinhos.
Isto é, de facto, um país com “elites” que são uma verdadeira vergonha! Estes pseudo-todo-poderosos, afinal, não passam de uns pés rapados, que só se aguentam nos mercados quando as coisas correm bem, e mesmo assim sempre sob o chapéu de protecção do Estado. Grandes neo-liberais, sim senhor! Sem dinheiro, sem artes de o fazer ou, sequer, de manter aquele vindo do tempo das “vacas gordas”. Afinal, não passam de um bando de zés-ninguém é o é.


Madrugada de segunda-feira, 19 de Julho de 2010 Nada mais excitante do que a tentativa e erro. É um jogo onde se aprende sem que se esqueça e assim têm sido os Hortos.
As aboboreiras, ainda que com pouco fruto, invadiram-me tudo, cobrindo as cebolas, as nabiças, as alfaces, que já são poucas, e continuam a correr campo fora. Até é fácil rir com aqueles metros todos percorridos em pouco mais de quarenta e oito horas.
Sem escolha possível, arranquei todas as cebolas que descortinei da terra, enquanto ia arrastando os caules e folhedos gigantescos. Duas cabaças ficaram sem o cordão umbilical, mas foram só essas mesmas. Vieram para casa, ainda pequenas, a ver se amadurecem. Com as cebolas já trazidas, as que hoje esvaziaram o restante corredor plantado, perfizeram duzentos e cinquenta tubérculos, mas posso ter-me enganado numa, para menos. Outras terão ainda ficado entre o castanho fofo do solo; poucas serão, mas ainda recuperáveis.
Para o ano que vem, sei o que é que tem de ser diferente e o meu gozo será maior. Tudo se trata de organização do espaço. A dificuldade maior: ser muito; mas chegarei para tudo. E mais ainda
Com a máquina alemã fabricada da China, voltei aos baldes e regadores. Poupa-se na água e na gasolina mas, convenhamos, a chuva que veio a cada dois dias ao longo dos últimos dias, desde o fim-de-semana passado para cá, quase, salvou-me o serviço de distribuição da revista, feito com uma tendinite feia do lado oposto do tornozelo onde, volta e meia, me surge. A coisa custou, mas hoje já estava bem composta.
Foi uma bela semana, esta. Permitiu-me toda a parte comercial, a edição de texto e imagem do número de Agosto e ainda umas belas arrumações no contentor dos Hortos onde coloquei estrados de madeira, a boa oferta de bom amigo que cumpriu parte da palavra. Benfeitorias também em casa, com uma I. conformada consigo e amada por mim. Agora, recomeço a montagem de nova edição da revista, em mais um dia trabalhado do almoço até às zero horas de terça-feira. Ou mais um bocado, como é costume.

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Madrugada de domingo, 11 de Julho de 2010 Aguardo com curiosidade bastante a Final jogada neste domingo. Acabará assim este Mundial que fez a Europa (e o mundo) regressar a África. O destino parecia querer escrever isto mesmo: o cenário, a África do Sul; o governo do país, negro; o antigo colonizador holandês disputa a sua honra. Receberá o prémio maior da mão do governante?

Ambas as equipas jogam logo de início com os seus blocos bastante subidos no terreno de jogo, ao contrário daquilo que se viu neste Mundial. É por isso mesmo que esta Espanha e esta Holanda são as equipas finalistas. A partida começa logo com jogo vivo, oportunidades para ambas as partes, com um ligeiro ascendente da Espanha que joga vibrante e com alegria; os Holandeses seguem frios o percurso da bola, cerebrais. Sem prejuízo dos seus méritos, estas selecções traduzem bem o futebol das equipas do Barcelona e do Inter de Milão, ou não estivessem estas turmas recheadas dos seus jogadores, as duas melhores equipas europeias neste ano futebolístico.
Ao intervalo de uma primeira parte bem jogada, 0-0, a traduzir igual pressão de futebol excelentemente interpretado de parte a parte, com pequenas doses de quezilice a apimentar e algumas iminências de golo.
Se houve alguma ascendência espanhola do início, o intervalo chega com o crescendo holandês.
A partida recomeça com mais picardia. À alegria e dinâmica do jogo espanhol, opõe-se o nervosismo concentrado dos holandeses que impedem sucessivamente as saídas da Espanha travando os seus jogadores em falta. Os cartões amarelos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, mas ainda assim é a laranja mecânica que cria as melhores oportunidades com Robben a falhar incrivelmente na cara de Cazillas. A eficácia pertence toda à equipa do norte, mau grado o mau humor implícito.
Há mais posse de bola para a Holanda do que para a Espanha que é com bola que gosta de jogar, como aliás foi dito depois da derrota imposta a Portugal, que lhe entregou o esférico durante quase toda a partida. Poderia estar aqui a chave da vitória laranja.
O meio disto, segue David Villa na imitação de Robben e falha clamorosamente, muito perto do minuto setenta. Menos de dez minutos passados é o jogador com ar de estrela rock, Sérgio Ramos, que cabeceia por cima da barra.
agora, a Espanha volta a assumir as despesas do jogo, consegue o canto, mas as sucessivas manobras batem no muro holandês.
Na recta final do tempo regulamentar, Robben faz uma arrancada conduzindo a bola a solo numa corrida impressionante, bate Pujol na velocidade, mas a experiência do catalão impede-o na sua progressão com a bola a ficar em Cazillas. No protesto com o árbitro, o ex-Real Madrid acaba amarelado.
Últimos cinco minutos, ninguém arrisca. Um erro pode matar o jogo, que acontece no meio campo. Ainda um fogacho holandês, mas é fora-de-jogo.
Três minutos de tempo-extra, a toada mantém-se e as equipas técnicas recomendam calma e assim se segue para prolongamento.
É a Espanha a primeira a fazer suspirar, mas bola sai na rede lateral. Passam dez minutos. O intervalo chega sem golos e no segundo tempo a Holanda é reduzida a dez. É à chegada do minuto cento e quinze que Andres Iniesta, o pequeno jogador, recupera a posição regular para uma bola cruzada fugindo ao fora-de-jogo e sobre a direita fuzila a baliza adversária fazendo o mais importante golo deste Mundial 2010.
 Espanha consegue assim a “dobradinha”, depois da vitória do Europeu em 2008; a Holanda, essa, continua a ser a grande equipa das finais perdidas.
No fim de tudo, e apesar de tudo, fico a matutar que Portugal acabou precocemente eliminado… mas aos pés do Campeão Mundial; também que África teve os seus 15 minutos de fama positiva.


Madrugada de terça-feira, 13 de Julho de 2010 Soube hoje, segunda-feira, do suicídio do único filho do Dr. F., E., cujo pai é meu conhecido e da minha família desde que me conheço, e meu anunciante na revista desde a primeira hora. Muitos anos antes já enfrentara o suicídio de sua filha e uma primeira tentativa do agora malogrado.
Não perguntei pormenores, nunca me interessam. O que é que interessam? Um jovem morreu porque se matou. Várias versões do sucedido correm desde a madrugada de sábado, altura do triste episódio, ocorrido em Santa Marta de Portuzelo. Fonte próxima diz-me que ainda telefonou ao progenitor dando conta da intenção. A emergência foi logo accionada, mas a chegada dos meios seria sempre tardia, como se veio a verificar.
A notícia foi-me dada por I., por volta das dazesseis horas, quando almoçávamos em casa. Desde aí, passei o resto do dia, sempre de trabalho até depois das vinte e uma, numa espécie de limbo devido ao choque e à tristeza; também muito preocupado com os meus próprios filhos de quem vivo fisicamente distante. Acabei por telefonar para o D., no Porto, e senti-me um pouco melhor.
Apesar das tendências suicidas já reveladas anteriormente, há uma ténue raiva e fina revolta que me envolve o espírito. Deve-se à minha incompreensão da escolha desta opção terminal por quem tinha apenas trinta e oito anos, uma vida à frente, já alguns anos cumpridos com obra feita de alguma relevância. E. tinha tudo o que alguém da sua idade poderia querer. Família, estabilidade financeira e amor à sua volta, inquestionavelmente, apesar de tudo.
Esta manifesta incompreensão da minha parte, leva-me a preocupar com os meus próprios filhos. Até que ponto, perguntei-o toda a tarde nos meus contactos pelos revendedores da revista na cidade e não só, é que seremos nós, os mais velhos, quem não está a compreender? É que eu acredito que, fundamentalmente, precisamos de muito pouco para viver, e os maiores problemas que nos levam ao mais fundo dos desânimos, mesmo mantendo-se o berbicacho, no dia seguinte tomam sempre novo aspecto. E então descobrem-se novas forças interiores, o alento recobra-se, a vida simplifica-se e tudo se torna mais plano, esperando os nossos passos mais resolutos que voltam a transportar consigo a própria vida.
E. conseguiu relativamente cedo aquilo que nem todos conseguem ao longo de uma vida, deu um importante contributo para alguns desportos náuticos até a nível internacional, lançou uma marca que franchizou, bateu um recorde do “Guinness Book”. Tinha amigos; tinha pais a caminho da última idade. Se ele não aguentou, quais dos outros aguentarão?

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012


Madrugada de sábado, 10 de Julho de 2010 Na obrigação da rega, noto que há semanas que trabalho sem o cinto de apoio à zona lombar. Tinha a permanente sensação de que me faltava algo. O boné? Não. As luvas? Impossível seria. Mas então o quê? È o cinturão, sim senhor.
Quem diria. Eu, que com as mazelas de anos imberbes de sobre-esforços e discos desviados, estou a levantar dezenas de baldes com mais de treze quilos e peso a nove metros de profundidade e já nem me lembro do cinto ainda há bem pouco imprescindível, sob pena de quase mobilização em dores. Quem diria, hã?
Tivesse eu seguido os conselhos do médico na juventude e, hoje, às tantas já andava de muleta. Viva eu!

Noite funda. Lá em baixo, no jardim público, corre a Feira do Livro. A música que chega ao meu recanto de descanso faz-me sentir um meio-desejo de me envolver; outrossim os emails que diariamente recebo dos serviços de relações públicas da biblioteca municipal. Também a vontade de vivenciar a festa do livro de que tenho sido fruidor ao longo de todos estes últimos anos, especialmente quando lancei o projecto “Viana Social & Cultural”. Mas este ano não estou lá, mau grado este afecção inabalável de quem ama o toque e o cheiro dos volumes, as ideias e experiências que os construíram.
Na verdade, mais ainda estou farto. Da feira, do festival de teatro que deixou de ser internacional “porque as pessoas não percebiam o galego”, segundo os seus responsáveis (cretinos), dos ajuntamentos, desta multidão que não percebe, destes vendedores que vendem os livros como quem venderia outra coisa qualquer; a bem dizer, destas gentes que se reúnem sob as luzes, envolvidas pela música que quer celebrar o livro, mas que não o compram e ainda menos o lêem; desta organização que transforma a feira do belo artigo num arraial onde o óleo doce das farturas se mistura com o odor agradavelmente acre dos volumes… a paredes meias com os carrosséis. Não, não assim, canso-me e por isso, hoje descanso, depois do dia de campo, do dia comercial e do dia editorial que cumpri para além do dia doméstico, porque o lar não pára e só cá está em casa meia parte de gente.

Do quebranto da tanto dia assim, ou mais ou menos, que começa por terminar nos magazines culturais gravados automaticamente durante o dia para ver à entrada da madrugada a anteceder as leituras finalizadoras, para que a exaustão possa ser, finalmente, completa, e o sono possa vencer então vencer a insónia reinante, de há trinta anos, em muitos meses faço zapping e detenho-me, pela curiosidade no estranho semelhante, num reality show na MTV, pleno de “joves” norte-americanos. São rudes, vulgares, as suas relações estapafúrdias, brutais. Por aí paro e insisto. Piora a olhos vistos, tudo passado como num filme, numa série de um futuro próximo já agora. Nada existe para além deles e mais uma vez temo o futuro longínquo, menos o próximo porque, com aquilo, podemos nós bem. Com juventudes assim se comprometem países, se hipoteca o devir, mas lá diz o ditado que quem tem olho é rei. E aqueles não o serão, com certeza.

Ainda hoje e agora: neste momento de fim do meu dia, no nó da noite, nesta hora madruguenta onde já se vislumbram os alvores de novo dia, termino bem o “Hitler Desafiado em Moscovo” (União Soviética, Setembro de 1941) de Robert Forczyk. Tem-me sido difícil estabelecer preferências neste novo seguimento da minha vida da maior das guerras do séc. XX, objecto dos meus maiores interesses históricos de sempre, só mesmo comparável à paixão que sinto pela civilização romana – República e Império.
Já dei conta da Polónia primeiro, depois a França, o norte de África, a ilha de Creta e agora esta invasão da Rússia. Continuo sem saber o que poderei explicar melhor ou, melhor dizendo, menos compreender: se o falhanço nazi no cometimento, se a sobrevivência soviética.
Arrumado o volume na companhia dos restantes, com a leitura da oferta do amigo P. em suspenso e o meu “Jesus Cristo” de Ratzinger, sempre aguardando aquele momento (ainda o magnífico trabalho sobre José Saramago publicado na Playboy portuguesa que junto à leitura em espera da revista “Exame” – os jornais regionais e a Revista de Imprensa da VS&C levam-me o todo o tempo), início, em prazer, “O Livro Inacabado de Dickens”, de Mathew Pearl, em edição da Planeta – editora de boa-ventura que me surgiu na vida com a transferência de funções de B. de comunicação e marketing da Bertrand para essa.
Foi o livro que seleccionei daqueles recebidos no último mês e meio para as páginas de divulgação da revista; este, pedido especificamente e não estou nada arrependido, ou não acertasse quase sempre. É um romance intrincado, que asperge laivos que, de facto, fazem parecer que foi escrito na época. “Pearl enriquece a sua história através de um conhecimento profundo não só da carreira de Dickens como das suas obras literárias” (Library Journal).
Devo lê-lo com calma. Intrincado, com muitos personagens, locais e circunstâncias, para além de definir muito bem o pensamento da época, o que me distrai sempre, apresenta uma riqueza narrativa que me enleva. A fazer durar, o que se torna difícil pois a antecipação desta espécie de thrilller de época, impera no meu espírito.

Sábado, 10 de Julho de 2010 Para um público mundial menos intenso, que espera a final de amanhã, hoje a disputa do terceiro lugar deste Mundial corporizado no Uruguai-Alemanha. Mas a partida não esteve de acordo com o sentimento mundial. Correu um jogo eléctrico, a todo o comprimento do campo, com duas reviravoltas no marcador e cinco golos feitos, o último quando já se cheirava a prolongamento.
Os teutões cumpriram aquela insustentável superioridade germânica perante a emoção do jogo uruguaio, latinizado da respiração ao toque de bola…
(e por aqui me fico, cansado…)

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