Sexta-feira, 13 de Outubro de 2010 – De volta aos hortos, em grande. Mais duas hortas cumpridas, conversa com a vizinha escapada ao marido, que continua a ser o mais importante livro de aprendizagem aberto. É sempre tudo bom, naquele sítio.
Madrugada de segunda-feira, 16 de Outubro de 2010 – Depois de ver de enfiada (finalmente) o “Kill Bill”: há dois realizadores que me fascinam mais que quaisquer outros – o Tim Burton, pelo maravilhoso; e o Quentin Tarantino, pelo horripilante.
Madrugada de quinta-feira, 19 de Outubro de 2010 – Dia de Hortos com a primeira matadura de praga, depois de muita couve comida. Remédio santo, porque da ciência inventado a derrubar inexoravelmente as poucas lagartas verdes que restaram, depois de vários dias a tirá-las à mão. Primeiro lançando-as para os matos vizinhos, voltaram; depois, esmagadas a fazer adubo, continuaram ainda; agora, ficaram a revolverem-se à queima da calda, mas só depois de muito dias e mais estrago. Sempre lamentável, mas necessário. Que os dois baldes e meio daquilo, a matar numa horta e a prevenir noutra, sejam unguento à boa produção, agora menos biológico à brancura leitosa da mistura.
Depois, mais um rego aberto a encher das favas que sobraram de sexta-feira passada. A semente de salsa trouxe-a para casa, pois já me falhou por duas vezes no sítio e os vasos em estufa da marquise devem dar-me mais garantias. Depois trarei um pouco do campo cá para casa a aumentar à terra das floreiras que quero ver a explodirem nos rebentos verdes aromáticos. Que assim seja.
De permeio a estes labores, o telefonema da empresa com evento adornado a secretário de Estado com convite para a revista. Pedi a necessária reciprocidade, mas não, julgam-se notícia e não interesse comercial – nunca aprendem nada e eu já não tenho paciência para ensinar que novidade não é notícia. Que fiquem com os seus vinhos. E que deixassem o secretário de Estado na sua secretária. Uma vez que não resolve os problemas do país, pelo menos não gastaria dinheiro ao erário público nestas operações de marketing político a coadjuvar o marketing comercial de quem quer ser notícia sem custos. É isto que recuso a aturar.
(por inícios de Outubro)
“Deus é Amor” – eis a frase que tudo encerra! Tudo o resto é perversão.
Madrugada de sábado, 23 de Outubro de 2010 – Terminadas “As Regras da Vingança”, de Christopher Reich. Bom, para o género (espionagem), mas, insisto, nestes livros destes novos autores americanos, o manancial de informação é de tal forma que impede a exploração literária dentro do género. Os enredos são fabulosos, dentro desta espécie de inventar sobre o inventado, mas as narrativas tornam-se autênticos guiões cinematográficos e pouco ou nada resta do que uns lampejos d’ambrósia de palavra escrita, o que é uma pena.
Mas enfim, é o mundo do hoje, aqui e agora, em que os deputados (da direita, claro), passam das comissões de inquérito à multinacional a quadros dessa mesma, numa vertigem vergonhosa que a todos constrange, como os noticiários não deixaram de denunciar, ontem e hoje. E as caras e expressões, destes homenzinhos que fazem estas coisas, são o espelho do monstro que devora os últimos resquícios de seriedade política.
Tudo isto em dia atípico, com adiar de afazeres mas outros encontrados, já madrugada dentro, para além da ida ao mercado a comprar mais umas verduras a fazer crescer nos Hortos. E pela falta de estufa, alguma semente de salsa posta nas floreiras com terra queimada pelo sol, agora revirada para fazer crescer melhor, para alegrar a cara-metade que fez magnífico cozido.
Noite dentro, deixo ainda ficar no sítio os últimos volumes da II Guerra e pego em título fantástico e prometedor, de Katherine Howe: “O Livro de Feitiços de Deliverance Dane”. Com súmula interessante, gostaria que fosse narrativa masculina, mas não. Bah, arrisca-se! O problema é que não gosto de parar, mesmo quando não gosto.
Madrugada de domingo, 24 de Outubro de 2010 – Impõe-se a escrita; e a contagem.
Hoje talvez tenha terminado os plantios e semeaduras para a época de Natal. Abri dois regos novos (não contava ter de abrir o segundo), botei-lhes cerca de cinquenta pés de couve tronchuda, devidamente adubada, aguada, e ainda lá deixei mais de uma vintena de novas alfaces a compor o ramalhete.
Hoje conto: na horta seca há brócolos, couve-flor, nabiças e “ervilhas-tortas”; na outra, couve penca, a tronchuda, nabiças de nabo, quatro variedades de alfaces, cebola “de inverno”, mais ervilhas, favas, abóbora e ainda salsa.
As alfaces pegaram melhor agora do que na primavera e as primeiras, as vermelhas, ditas “de inverno”, crescem a olhos vistos. Não falta água e a temperatura tem-se mantido estável. Agora, vigio e guardo.
Mas talvez ainda não tenha terminado: uma hortelã ao lado da salsa iria muito bem…
Madrugada de segunda-feira, 25 de Outubro de 2010 – Hoje choveu. Em muito tempo, para a época. Depois de várias promessas ao longo do mês por parte da meteorologia, depois de não ter queimado os montes de ervas secas acumulados, eis que chove copiosamente no seguinte à farta rega nos Hortos, para grave lamento dos recursos desbaratados – água do poço e gasolina.
Mas teve de ser. A semana de trabalho que ora começo, é proibidora de mais folgas em trabalho campestre, pelo menos até sexta-feira próxima e, por isso, não podia arriscar um stress hidráulico às culturas; muito menos depois do largo trabalho desenvolvido ao longo de todo o este mês.
Esta faina agrícola tem muito mais a ver com o trabalho editorial do que à primeira vista possa parecer. Em ambos me disciplino, ao nível de uma tropa. Nos horários e períodos cumpridos, quase religiosamente; na disciplina auto-imposta; no bem-fazer à primeira, assim evitando duplicação de trabalhos e facilidades na renovação seguinte.
Até sexta espero, entretanto, o regresso ao idílico local de que cada regresso de imediato se transforma em saudade; sou lá e só. Lá feliz, permanentemente; saído recomposto, sempre.
Madrugada de terça-feira, 26 de Outubro de 2010 – Pela tarde dei-me ao luxo de uma hora em esplanada à borda d’água a fazer a leitura dos jornais regionais da semana passada.
De través à praça da Liberdade, já com algumas páginas lidas, sentam-se, presumo que, mão e filha, esta bem ensinada, menina da escola de música, em filial raccontami do dia. Um prazer de fina conversa logo esvanecido pela chegada de duas análogas, um pouco mais velhas, nos quinze, dezasseis anos, mas mais a cheirar à gazeta às aulas da tarde.
“Quem pode, pode!”. Chegaram em altos brados alvancados a palavrão do pior, redundante e grosso. Sentaram-se na mesa a meu lado sustentando o nível do vozeirão, nutrindo a imundice. As rédeas estavam na mão da mais desbragada, a conspurcar o nome do pai e da família – “Quem pode, pode!”. Que o pai chegara e dissera: “Vamos ao restaurante”. “Que era uma falta de respeito, por quem fizera a comida” e que “lá fomos, para o c… do restaurante”. – “Quem pode, pode!”, e outra, de ar timorato mas como que obrigada ao passo de corrida da língua da colega, repetia: - “Quem pode, pode!”. Que a mãe “andava a pensar comprar um Smart”. E logo a seguir: - “Quem pode, pode!”, regado à obscenidade do turquilópio.
A cidade (e a vida, presumo) está agora cheia destas moças. Entopem as ruas, atravancam os espaços, cobrem passeios e avenidas, aos pares, em grupos de três, quatro, ou mais de uma dezena, aos fins-de-semana, nos acessos ao centro comercial, assim como nestas esplanadas à beira-rio. São estas as dos “dá cá o telemóvel”, das agora aposentadas professoras. São as mães de amanhã, de que país, pergunto eu na pesarosa reflexão que nem ínvios caminhos encontra que emendem estes globais desvios do ser, agora tão perto, também, do não haver.
Nem lei dos homens, nem lei de Deus.
Madrugada de quinta-feira, 28 de Outubro de 2010 – Termina-se longo dia, de muitas horas de trabalho em manhã, tarde e noite; pesquisa; exterior e execução; fontes informativas, distribuição da revista (até Espanha) e foto-digitalização; a começar em casa, subir a norte e saída da Redacção depois das vinte três. Para ceia de meia-noite, conversa à cara-metade também com poucas horas de sono e mais planos diários de serviço para o dia de amanhã, já contando com as gravações para o programa radiofónico desta sexta-feira próxima.
De permeio, a viagem a subir a norte, junto à costa, com amigo trabalhador e solícito, colaborante nos meus mesteres que ajudam ao seu saldo mensal; boa conversa, outrossim tainada breve a queijo e jamon que regou a cidra. Depois, o patriótico regresso em pressa e ligeiro atraso para umas horas de montagem com companhia fresca e airosa, a prometer mais para a semana.
De parceira já no sono reparador, mas sempre nervoso, o fascículo de colecção comprado em mãos, a antecipar a leitura interessante, mas sem horas onde a meter; também a juntar a um outro, vindo em primeiro número da colecção respectiva. Bonecadas por que me apaixono.
Colecciono primeiros números e os primeiros exemplares acumulam-se. Gostaria de os ler todos, mas o espaço já me falta tanto quanto o tempo, tão mingado quanto maiores são as pilhas de livros alinhados a ler, a apreciar com certeza, a tocar sempre, garantindo às narinas o seu odor reconfortante, como de pão fresco na cozinha e o vinho que não bebo, na garrafeira.
Na impossibilidade de tudo ler, algum escrever que já é longo caminho de vida e cujo princípio há muitos anos não descortino, quase outra vida. Sou agora moléculas outras, mas ainda cerne de antes corpo haver, sou memória de mim.
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