sábado, 16 de março de 2013


Sexta-feira, 13 de Outubro de 2010 De volta aos hortos, em grande. Mais duas hortas cumpridas, conversa com a vizinha escapada ao marido, que continua a ser o mais importante livro de aprendizagem aberto. É sempre tudo bom, naquele sítio.


Madrugada de segunda-feira, 16 de Outubro de 2010 Depois de ver de enfiada (finalmente) o “Kill Bill”: há dois realizadores que me fascinam mais que quaisquer outros – o Tim Burton, pelo maravilhoso; e o Quentin Tarantino, pelo horripilante.


Madrugada de quinta-feira, 19 de Outubro de 2010 Dia de Hortos com a primeira matadura de praga, depois de muita couve comida. Remédio santo, porque da ciência inventado a derrubar inexoravelmente as poucas lagartas verdes que restaram, depois de vários dias a tirá-las à mão. Primeiro lançando-as para os matos vizinhos, voltaram; depois, esmagadas a fazer adubo, continuaram ainda; agora, ficaram a revolverem-se à queima da calda, mas só depois de muito dias e mais estrago. Sempre lamentável, mas necessário. Que os dois baldes e meio daquilo, a matar numa horta e a prevenir noutra, sejam unguento à boa produção, agora menos biológico à brancura leitosa da mistura.
Depois, mais um rego aberto a encher das favas que sobraram de sexta-feira passada. A semente de salsa trouxe-a para casa, pois já me falhou por duas vezes no sítio e os vasos em estufa da marquise devem dar-me mais garantias. Depois trarei um pouco do campo cá para casa a aumentar à terra das floreiras que quero ver a explodirem nos rebentos verdes aromáticos. Que assim seja.

De permeio a estes labores, o telefonema da empresa com evento adornado a secretário de Estado com convite para a revista. Pedi a necessária reciprocidade, mas não, julgam-se notícia e não interesse comercial – nunca aprendem nada e eu já não tenho paciência para ensinar que novidade não é notícia. Que fiquem com os seus vinhos. E que deixassem o secretário de Estado na sua secretária. Uma vez que não resolve os problemas do país, pelo menos não gastaria dinheiro ao erário público nestas operações de marketing político a coadjuvar o marketing comercial de quem quer ser notícia sem custos. É isto que recuso a aturar.

(por inícios de Outubro)
“Deus é Amor” – eis a frase que tudo encerra! Tudo o resto é perversão.


Madrugada de sábado, 23 de Outubro de 2010 Terminadas “As Regras da Vingança”, de Christopher Reich. Bom, para o género (espionagem), mas, insisto, nestes livros destes novos autores americanos, o manancial de informação é de tal forma que impede a exploração literária dentro do género. Os enredos são fabulosos, dentro desta espécie de inventar sobre o inventado, mas as narrativas tornam-se autênticos guiões cinematográficos e pouco ou nada resta do que uns lampejos d’ambrósia de palavra escrita, o que é uma pena.
Mas enfim, é o mundo do hoje, aqui e agora, em que os deputados (da direita, claro), passam das comissões de inquérito à multinacional a quadros dessa mesma, numa vertigem vergonhosa que a todos constrange, como os noticiários não deixaram de denunciar, ontem e hoje. E as caras e expressões, destes homenzinhos que fazem estas coisas, são o espelho do monstro que devora os últimos resquícios de seriedade política.

Tudo isto em dia atípico, com adiar de afazeres mas outros encontrados, já madrugada dentro, para além da ida ao mercado a comprar mais umas verduras a fazer crescer nos Hortos. E pela falta de estufa, alguma semente de salsa posta nas floreiras com terra queimada pelo sol, agora revirada para fazer crescer melhor, para alegrar a cara-metade que fez magnífico cozido.

Noite dentro, deixo ainda ficar no sítio os últimos volumes da II Guerra e pego em título fantástico e prometedor, de Katherine Howe: “O Livro de Feitiços de Deliverance Dane”. Com súmula interessante, gostaria que fosse narrativa masculina, mas não. Bah, arrisca-se! O problema é que não gosto de parar, mesmo quando não gosto.


Madrugada de domingo, 24 de Outubro de 2010 Impõe-se a escrita; e a contagem.
Hoje talvez tenha terminado os plantios e semeaduras para a época de Natal. Abri dois regos novos (não contava ter de abrir o segundo), botei-lhes cerca de cinquenta pés de couve tronchuda, devidamente adubada, aguada, e ainda lá deixei mais de uma vintena de novas alfaces a compor o ramalhete.
Hoje conto: na horta seca há brócolos, couve-flor, nabiças e “ervilhas-tortas”; na outra, couve penca, a tronchuda, nabiças de nabo, quatro variedades de alfaces, cebola “de inverno”, mais ervilhas, favas, abóbora e ainda salsa.
As alfaces pegaram melhor agora do que na primavera e as primeiras, as vermelhas, ditas “de inverno”, crescem a olhos vistos. Não falta água e a temperatura tem-se mantido estável. Agora, vigio e guardo.
Mas talvez ainda não tenha terminado: uma hortelã ao lado da salsa iria muito bem…


Madrugada de segunda-feira, 25 de Outubro de 2010 Hoje choveu. Em muito tempo, para a época. Depois de várias promessas ao longo do mês por parte da meteorologia, depois de não ter queimado os montes de ervas secas acumulados, eis que chove copiosamente no seguinte à farta rega nos Hortos, para grave lamento dos recursos desbaratados – água do poço e gasolina.
Mas teve de ser. A semana de trabalho que ora começo, é proibidora de mais folgas em trabalho campestre, pelo menos até sexta-feira próxima e, por isso, não podia arriscar um stress hidráulico às culturas; muito menos depois do largo trabalho desenvolvido ao longo de todo o este mês.
Esta faina agrícola tem muito mais a ver com o trabalho editorial do que à primeira vista possa parecer. Em ambos me disciplino, ao nível de uma tropa. Nos horários e períodos cumpridos, quase religiosamente; na disciplina auto-imposta; no bem-fazer à primeira, assim evitando duplicação de trabalhos e facilidades na renovação seguinte.
Até sexta espero, entretanto, o regresso ao idílico local de que cada regresso de imediato se transforma em saudade; sou lá e só. Lá feliz, permanentemente; saído recomposto, sempre.


Madrugada de terça-feira, 26 de Outubro de 2010 Pela tarde dei-me ao luxo de uma hora em esplanada à borda d’água a fazer a leitura dos jornais regionais da semana passada.
De través à praça da Liberdade, já com algumas páginas lidas, sentam-se, presumo que, mão e filha, esta bem ensinada, menina da escola de música, em filial raccontami do dia. Um prazer de fina conversa logo esvanecido pela chegada de duas análogas, um pouco mais velhas, nos quinze, dezasseis anos, mas mais a cheirar à gazeta às aulas da tarde.
“Quem pode, pode!”. Chegaram em altos brados alvancados a palavrão do pior, redundante e grosso. Sentaram-se na mesa a meu lado sustentando o nível do vozeirão, nutrindo a imundice. As rédeas estavam na mão da mais desbragada, a conspurcar o nome do pai e da família – “Quem pode, pode!”. Que o pai chegara e dissera: “Vamos ao restaurante”. “Que era uma falta de respeito, por quem fizera a comida” e que “lá fomos, para o c… do restaurante”. – “Quem pode, pode!”, e outra, de ar timorato mas como que obrigada ao passo de corrida da língua da colega, repetia: -  “Quem pode, pode!”. Que a mãe “andava a pensar comprar um Smart”. E logo a seguir: - “Quem pode, pode!”, regado à obscenidade do turquilópio.
A cidade (e a vida, presumo) está agora cheia destas moças. Entopem as ruas, atravancam os espaços, cobrem passeios e avenidas, aos pares, em grupos de três, quatro, ou mais de uma dezena, aos fins-de-semana, nos acessos ao centro comercial, assim como nestas esplanadas à beira-rio. São estas as dos “dá cá o telemóvel”, das agora aposentadas professoras. São as mães de amanhã, de que país, pergunto eu na pesarosa reflexão que nem ínvios caminhos encontra que emendem estes globais desvios do ser, agora tão perto, também, do não haver.
Nem lei dos homens, nem lei de Deus.


Madrugada de quinta-feira, 28 de Outubro de 2010 Termina-se longo dia, de muitas horas de trabalho em manhã, tarde e noite; pesquisa; exterior e execução; fontes informativas, distribuição da revista (até Espanha) e foto-digitalização; a começar em casa, subir a norte e saída da Redacção depois das vinte três. Para ceia de meia-noite, conversa à cara-metade também com poucas horas de sono e mais planos diários de serviço para o dia de amanhã, já contando com as gravações para o programa radiofónico desta sexta-feira próxima.
De permeio, a viagem a subir a norte, junto à costa, com amigo trabalhador e solícito, colaborante nos meus mesteres que ajudam ao seu saldo mensal; boa conversa, outrossim tainada breve a queijo e jamon que regou a cidra. Depois, o patriótico regresso em pressa e ligeiro atraso para umas horas de montagem com companhia fresca e airosa, a prometer mais para a semana.
De parceira já no sono reparador, mas sempre nervoso, o fascículo de colecção comprado em mãos, a antecipar a leitura interessante, mas sem horas onde a meter; também a juntar a um outro, vindo em primeiro número da colecção respectiva. Bonecadas por que me apaixono.
Colecciono primeiros números e os primeiros exemplares acumulam-se. Gostaria de os ler todos, mas o espaço já me falta tanto quanto o tempo, tão mingado quanto maiores são as pilhas de livros alinhados a ler, a apreciar com certeza, a tocar sempre, garantindo às narinas o seu odor reconfortante, como de pão fresco na cozinha e o vinho que não bebo, na garrafeira.
Na impossibilidade de tudo ler, algum escrever que já é longo caminho de vida e cujo princípio há muitos anos não descortino, quase outra vida. Sou agora moléculas outras, mas ainda cerne de antes corpo haver, sou memória de mim.

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sábado, 9 de março de 2013

Madrugada de quarta-feira, 06 de Outubro de 2010 Nas entrevistas de rua a propósito das comemorações do Centenário da República, muitos cidadãos e cidadãs anónimos, com predominância das últimas, fazem apologia da monarquia. Talvez achem que as revistas “Maria” ficariam mais interessantes.
Foi por isto que os revolucionários de 1910 afinal não lhes deram o direito de voto. Mas não é isto o mais preocupante. É este país continuar, agora e sempre, dividido.


Madrugada de quinta-feira, 07 de Outubro de 2010 Vejo um programa de sátira política norte-americana, num canal da TV por cabo (haverá outra?). Entrevistam o chefe sindical local sobre o facto das manifestações contra as actuais condições de trabalho de uma grande cadeia de supermercados serem formadas não por trabalhadores, mas por indivíduos contratados a agências de trabalho temporário para cumprirem os protestos entoando cânticos enquanto empunham cartazes reivindicativos; também acerca do facto desses temporários serem retribuídos nas mesmas condições dos tais trabalhadores da tal cadeia, os quais não se apresentam à manifestação para não verem os seus ordenados diminuídos.
O sindicalista que nada nega, diz abertamente, após muitas hesitações, que não sabe “o que é que deve responder” às questões do (convenhamos) pseudo-jornalista do programa.
É possível ser-se tão imberbe? É possível, aquilo? É!


Madrugada de segunda-feira, 11 de Setembro de 2010 Socorrendo-se da imagem e voz do velho actor respeitado, sorridente, em anúncio publicitário na TV a grande empresa de telecomunicações, faz saber que é a melhor, “porque é a que mais cumpre o que promete”. Como se algumas promessas não o fossem, verdadeiramente. E tal como o actor, o pagode aceita e ri.
Estes são tempos cegos e não há sequer zarolho que nos salve disto.


Madrugada de quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 No jogo de hoje em que a selecção portuguesa ganhou por sofrível “um-três” à Islândia, país –economicamente depauperado e que protesta ao som das panelas de cozinha batidas na rua pelos seus cidadãos aos governantes –, o rapaz, talvez o mais brilhante de todos a seguir ao nosso mais-que-tudo do futebol luso, foi bem o paradigma deste país que esvazia as suas energias e inteligência como balão furado.
Bem-apessoado, galã de meninas, foi já dado como caso de sucesso, exemplo do jovem proveniente de bairro social que singrou na sua arte à conquista do mundo. Mas não concordo. O verdadeiro êxito pessoal não se consegue através dos contratos milionários que apenas serão, porventura, o efeito; consegue-se, sim, colocando em jogo na vida, a honestidade, o rigor e a probidade. O talento com que nascemos tem de ser utilizado de forma positiva, construindo-nos, assim, ao longo de tudo. Mas ele perdeu-se em volteios, simulações, e eu fico a perguntar o que não alcançaria, e outrossim a sua equipa, se toda aquela inteligência e recortes técnicos fossem postos ao serviço de um desempenho íntegro, limpo de subterfúgios.
Tão bons somos na arte do fingimento, mas tão maus para com a verdade. A desportiva, ou outra qualquer.


Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 “Estive com Deus e com o Diabo. Ambos lutaram por mim, mas eu agarrei a mão boa”. Foram estas as palavras de um dos primeiros mineiros a ser resgatado da mina chilena que sofreu colapso em Agosto passado, soterrando-os.
No dia 13 de Outubro, dia de Nossa Senhora, os trinta e três mineiros começaram a chegar à superfície, ao ritmo de meia em meia hora (33 em 33 minutos?). Também continha 33 caracteres, a primeira mensagem enviada para o exterior, logo que as comunicações entre a superfície e a bolsa de confinamento, a 700 metros de profundidade foram tornadas possíveis.
Com toda esta numerologia, relacionada com o surgimento da Mãe aos pastorinhos em Fátima e a idade adulta do Cristo, todos chegaram vivos e bem, de saúde física e mental.

Sobre o fenómeno destes dois meses de confinamento do grupo que reagiu sempre positivamente, dos impactos físicos e psicológicos, das inerentes descompensações e da forma como compensaram, a Medicina está interessada, a Psicologia também e até está a investigação espacial. Os técnicos das áreas investigam e discutem (devem fazê-lo, aliás), mas a resposta estará bem mais próxima do que a formulação de hipóteses científicas poderia admitir. O sempre católico Chile compreende bem esta força dos seus mais esforçados, porventura dos economicamente e até educacionalmente mais débeis, que labutam esforçadamente todos os dias do mês de trabalho, erigindo os seus lares, criando as suas famílias. A energia destes trabalhadores em paupérrimas condições materiais, condições essas que, por pouco, não os matou a todos, adveio e advém da força da Fé. Todos o afirmaram. Todos, sem excepção.
33 os dias de perfuração.
33 o número de países alí representados por jornalistas. 
União (entre os homens), Esperança (na salvação) e Fé (em Deus), três sentimentos comuns no discurso religioso, permitiram àqueles trabalhadores, ao longo daqueles 69 dias indubitavelmente difíceis, confrontados com a forte possibilidade de morte, manterem a serenidade a que assistimos ao longo destes  dois meses.
Quais psicologias, qual carapuça?!
Estes três sentimentos apenas que, dizemos nós, foram verdadeiro “remédio santo”.

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sexta-feira, 1 de março de 2013


Madrugada de segunda-feira, 27 de Setembro de 2010 Hortos precisamente uma semana depois. Saído da aposta na Redacção (que resultou), nos Hortos fiquei, uma vez mais, mais tempo do que pretendia e regressei já noite, com o trabalho planeado feito e um pouco mais ainda.
O Outono entrou e nem dei por ele. Interessa-me o ciclo semanal da chuva, porventura mensal, à medida do trabalho de secretária e das voltas a pé que tenho de dar; as leituras auto-impostas a cumprir.
Hoje terminei “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, o mais pungente episódio de guerra que até agora conheci. Move-me o sofrimento de todos os massacrados e até de todos os outros que das falésias, das colinas ou donde fosse, mantiveram os dedos crispados em torno dos gatilhos que fizeram soçobrar mais de duas mil vidas em menos de nove horas. Muitos destes tiveram que viver o resto das suas vidas com o que tiveram de fazer.
Enquanto aguardo nova remessa, volto às americanadas em volume cujos caracteres do nome do autor são maiores que o título. Por isso: Christopher Reich e o seu “As Regras da Vingança” é o livro que segue, de que espero enredo à forma de filme com pouca literatura e suspense na acção que baste.


Madrugada de quarta-feira, 28 de Setembro de 2010 O primeiro-ministro anunciou medidas tidas por draconianas para fazer baixar o deficit. Ouço-as e sei-as duras, mas não me larga a sensação de que já deviam estar há muito tempo atrás.
Mas falta o resto e, dessas, duas principais: à uma, uma apertada fiscalização de todos esses empresários que chegam ao final do ano com não mais que uma centena de recibos passados, que andam em automóveis de gamas que o seu pequeno e único negócio (correctamente taxado) nunca proporcionaria, assim como as férias nas Suíças e Bruxelas que fazem todos os anos com mulher e filhos; à segunda, a criação, para além deste novo imposto aos bancos, de escalões de taxamento sobre o nível de lucros desses mesmos e das agências financeiras.
Bem feito, isso punha este país no domínio da hombridade em seis meses.

Fui levar “As Reflexões” ao padre director. O artigo que não foi publicado na edição deste mês e o seguinte. Optei por entregá-los em mão porque perdeu o primeiro.
Entretanto, de Julho para cá, tenho lido integralmente o jornal paroquial, porque quero conhecer tudo o que lá é escrito. Quando nos metemos num buraco, deve-se conhecer bem quem já lá está; depois, os outros que entram também. É que, agora, faço parte da equipa (farei?). Nisto vou redescobrindo porque nunca me meti nestes fossos da vida. Muita da linguagem que lá é utilizada, é agressiva. Muito hostil e até provocadora, como geralmente não se vê nos outros tipos de publicações periódicas. Ainda assim, a minha colaboração neste jornal tem-se vindo a tornar para mim muito interessante a nivel intelectual e espiritual. Mas em pouco tempo já entrou no domínio político. Sairei brevemente?


Madrugada de quinta-feira, 30 de Setembro de 2010 Dia terminado a ligeira dor de cabeça. Pensar pouco e boa postura no sofá, para não culminar em enxaqueca só debelada a comprimidos.
Cumprindo promessa à cara-metade desmarquei o trabalho de montagem da revista, tempo também pedido pela designer, e fomos ao cinema para ver sequela que há algum tempo queria. Tive de decidir acerca disso ou do jogo do campeão nacional na liga milionária. Optei contra todos, que estavam a seguir o jogo e meti-me na sala de cinema. Decidi bem, contra a corrente deste mundo de deficit, dívidas e mais deficit. A acumulação de pontos no cartão da empresa proporcionou-nos dois bilhetes gratuitos para sala totalmente por nossa conta, em cinema de quatro salas completamente vazia.
Nada como obrigar os poderosos a servirem-nos só a nós, melhor ainda que ganharmos em futebol a ingleses e alemães. Mas desta vez, nisso, perdemos.


Madrugada de sábado, 02 de Outubro de 2010 Quase não escrevia isto porque ainda tenho as unhas cheias de terra. Depois das compras de ontem, hoje o plantio e sementeira, na terra tratada esta semana mesmo.
Começou novo ciclo de vida nos Hortos, com o anterior a produzir ainda, para além da renovação natural que brotou entre as daninhas, em pintalgos de surpresas já traduzidas em brócolos de semente que me aumentaram a felicidade. Junto couve penca, mais alfaces e nabal, este último em terreno novo a partes mal cavado. A ver as conclusões da experiência.
Estou à frente do meu tempo neste regresso à terra de que só lamento não ter começado dez anos antes, pelo menos. O corpo já só é para manter nestes anos que avançam inexoráveis. Aproveitar bem o tempo que resta desmultiplicando-o em cada segundo de vida percorrida. Construir este futuro que começa hoje, com esta energia que move mundo cada vez mais cara e transportes mais dispendiosos. Um dia acabará a maçã do Chile barata e até as laranjas da vizinha Andaluzia. Não haverá cidades cada vez maiores e luminosas, mas um mundo mais parecido com o antigo, onde os custos de transportes nos farão regressar à terra e as cidades encolherão porque ficará muito caro percorrer as distâncias até ao centro todos os dias para trabalhar. Os projectos de construção inacabados darão origem a leiras, courelas, bouças e pauis, muito mais depressa do que se poderia imaginar, porque a Natureza vai buscar o que é dela muito mais rapidamente do que nos lembramos. E os promotores imobiliários que corriam a transformar o artigo rústico em prédio de construção, vão perceber que a procura será o seu inverso para que a hortaliça para a sopa e a fruta da sobremesa possa vir a ser mais barata na meã da família constituída.
Por isso, depois do desvario e da crise, auguro um mundo melhor, de energias mais limpas e maior comunhão com a Natureza, com as pessoas a perceberem que o que lhes vinha a ser vendido como “ecológico”, “orgânico” e “sustentável”, mais não era do que a necessidade do próprio mercado que entendeu que essa era a única via possível.

Depois do verão de quase suão furioso, a chuva que começou por cantar ainda antes das últimas pencas estarem metidas na terra, agora bate furiosa trazida pela borrasca que mais agrava. Depois da entrada do Outono acabou definitivamente o Verão, confirmo, enquanto rezo para que as alfaces aguentem o vendaval.

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domingo, 17 de fevereiro de 2013


Madrugada de terça-feira, 21 de Setembro de 2010 Menos de quatro dias para este “Rommel em Retirada”. Leitura célere, como céleres os combates. Que diferença entre uns ingleses e uns russos. Os primeiros, com quantitativos muito semelhantes ao opositor, acabam por batê-lo em pouco mais de ano e meio, ainda que em território longínquo de casa; os segundos, em números muito superiores, em homens e material, na sua própria casa, perdem milhões de vidas e precisam de um período de tempo mais longo para expulsar o invasor, em muitos casos mal equipado.


Madrugada de quarta-feira, 22 de Setembro de 2010 Chego a Agosto de 42 em Dieppe, costa da Normandia, França. O título diz “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, um episódio de que não me recordo das leituras  da mocidade.
A história é escrita pelos vencedores, diria LaPalisse. Acrescento que também é registada menos vezes, sempre que convenha mais. Em anos de magazines televisivos nunca fixei este evento. Talvez o local tenha sido referido a breve nota de rodapé, ou noutra situação menos gravosa para o julgamento do tempo. Mas, enfim, quase setenta anos passados me chega aos olhos e juízo a “Operação Jubilee”, “uma das acções militares mais controversas da II Guerra Mundial”, num registo de baixas aliadas incomum. Talvez por isso mesmo nunca me tenha sido posta à frente.
Antecipo fervorosamente a aventura, desde já recordando os caídos. O texto volta a ser de Ken Ford com os desenhos de Howard Gerrard.

Algo já devia aqui ter dito, por estes dias: do Pároco de Nossa Senhora de Fátima recebi um livro. Daqueles que pensei nem pegar para além da leitura para a composição da recensão na revista, mas que tenho lido um pouco, todos os dias de escrita, conta ou correspondência na Redacção. Foi editado pelo Carmelo de Santa Teresinha e pela dita paróquia, aprovado pelo bispo, tendo por nome “Bandeira da Vitória”, em alusão à rua de instalação do dito e actualmente encerrado Carmelo; no local, pelo menos.
Rua da Bandeira por aquela colocada em ambos os seus términos a assinalar a gafaria de leprosos que então existiu. Bandeira que as irmãs descalças transformaram em “vitória” do seu amor. Por isso o título quase bélico se torna assim belo.
Tenho lido… e descansado.


Madrugada de quinta-feira, 23 de Setembro de 2010 Depois de uma grande parte da tarde em pesquisa e escrita, após a revisão de “O Padrinho”, de Coppola, a segunda parte da mesma saga.
Como nos transformamos. À medida que a idade se me carrega nos anos, mais me custa assistir a esta coisa (também porque obra-prima, verdadeiramente). Claro está, porque ali encontramos laivos, por vezes nada inócuos, de nós mesmos, o que nos dói fundo e preocupa e consome. Mas é sobretudo um problema de indignação que se nos cresce à medida da responsabilidade que nos vai preenchendo mente e alma. Por isso tão custoso assistir a coisas tão duras. Espero que transmitam o resto da história, mais dia, menos dia, mas sei que irá passar muito tempo até que tenha estômago para rever esta trilogia.

Depois as leituras da noite, madrugada dentro, após aquelas feitas de dia nos jornais e revistas de assinatura:
Um dia que tudo isto seja diferente, que pensarei de mim e deste tempo com todas estas leituras e estes livros; este tempo todo, mesmo a roubar ao sono e por vezes a outras coisas, a toda esta biblioteca à disposição que cresce mais rápido do que o meu alcance?


Madrugada de sexta-feira, 24 de Setembro de 2010 Uma vertigem este triângulo de vértices simultâneos. No extremo mais agudo, a guerra dos homens; num dos lados em baixo, mais largo, a guerra do Homem; no outro, correspondente, a das descalças. Como explicar sempre vitórias?

Mais esta espera que desespera. As promessas meteorologia são vãs, a ida à rega impõe, mas tanto adiante, de trás e dos lados para fazer. Manhã, dia e noite, vivo com pressa muita a correr atrás do que desliza na vida e falta-me a contemplação. Quero ver mas apenas vislumbro. Quero solução.


Madrugada de sábado, 25 de Setembro de 2010 Assim se chega quase às cinco da manhã, depois de dia de trabalho com quilómetros andados, de fato e gravata, relações públicas, contabilidades, arquivos, leitura dos títulos de imprensa regional, escrita, preparação do alinhamento do programa radiofónico, formulação das questões para a conversa e tópicos gerais; jantar depois das 23h, tentativa de actualizar a conversa do dia com a cara-metade, debate televisivo, episódio de série semanal e ainda filme para ir limpando as gravações que se acumulam;

(dou comigo a querer que o enredo corra pelo melhor, que não corre. É isto a velhice)

também diário do dia na agenda, respectivo plano que chega e estas notas aqui; depois, as leituras finais: história e teologia…
… e esta mente que ainda não quer dormir, para amanhã acordar tarde e maldisposto pela parte de sol do dia perdida.

O programa correu, estive com o jovem que se estreou na VS&C. Tem 16 anos, É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si”, reescrevi-o em Editorial.
Gostaria de ter um filme com os meus 16 anos. Quanto deste rapaz fui eu? São tantas as similitudes e até paridades circunstanciais. Comete os mesmo erros que eu cometia, engrossa a voz como eu o fiz, pretende o à-vontade que eu simulava e sofre do mesmo nervoso miudinho. Creio que transporta em si todas as vantagens intrínsecas. Responde como o faz porque lê e se envolve. Auguro-lhe algo de bom e a capacidade de descobrir felicidades dentro da fatalidade.

É penosa, esta leitura deste “Desastre na Normandia”. Quase irrita como a ânsia de fazer levou a fazer tão mal. Parece que consigo ver e sentir o terror de todos os massacrados.
Que este triste episódio tenha bem servido para que “o verdadeiro dia D”, aquele da operação “Overlord”, não tivesse sido pior. Honra ali para os caídos, que Deus os tenha.

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


Madrugada de quarta-feira, 15 de Setembro de 2010 Da vergonha nacional, ética, moral e desportiva, que foi o despedimento do seleccionador nacional, fica-nos as palavras de Luís Figo, talvez o melhor jogador português de futebol de todos os tempos e actual director desportivo do Inter de Milão, à pergunta da jornalista da eventualidade de se candidatar à presidência da Federação Portuguesa de Futebol: “Gosto muito de Portugal e dos portugueses, mas ainda estou queimado de há pouco tempo”.
Referia-se ao caso “Freeport” onde foi envolvido juntamente com o primeiro-ministro, num caso de tráfico de influências, peculato e ganhos indevidos. E concluiu, num sorriso,em palavras que muitos queriam finalmente ouvir a alguém, neste país de tons cinzentos com muito branco e poucos ou nenhuns negros: “Quando quiser ter problemas, volto a Portugal”.
Tudo dito por um dos melhores na sua arte. Tanto no futebol em si mesmo, dentro e fora de campo, como naquele talento de ser um senhor no mundo.
Figo está longe, mesmo quando cá está. Está onde deve estar. 

D. Carlos Azevedo, presidente da Comissão Episcopal Social, na sessão de abertura da XXVI Semana Pastoral Social, em resposta à situação de crise que o país e mundo atravessam, disse que o actual modelo económico é “indecente, injusto, desigual e desproporcionado”, uma vez que “agrava a pobreza e a exclusão social”.
Dia após dia, parecem estar cada vez mais longe os tempos de conivência entre o poder religioso e aquele do Estado, conivência essa que abriu larga brecha na sociedade que, revoltada pelo desamparo que a elite dos representantes de Cristo a votou ao longo de séculos, se abriu a outros poderes, substituindo o abraço da Igreja por sistemas ideológicos que, tão simplesmente, prometiam oferecer precisamente aquilo que Cristo dois mil anos antes apregoara: a igualdade entre os homens!
Pela muito humana e natural necessidade e premência do factor religioso no espírito de cada um, milhões através de todos os continentes acabaram atirados para ideários políticos que, copiando o próprio modelo organizacional da própria Igreja, se imiscuíram entre antigos fiéis proletarizados, analfabetos, fragilizados, arrebanhando-os para as suas fileiras postas muito longe do conforto espiritual intrínseco ao ser humano –uma das principais razões, talvez a principal, do seu falhanço.
Hoje a corrente muda, constatamo-lo todos os dias. Por isso é um conforto ouvir e ler D. Carlos lembrar que “não são as pessoas que estão ao serviço da economia, mas a economia ao serviço das pessoas e dos povos”. Conforta-nos o seu lembrete de que “o capitalismo fez muitas vezes da mão-de-obra mera mercadoria”, logo avisando que “só com modelos humanistas se poderá ultrapassar a crise económica”.
Finalmente a Igreja, com coragem e frontalidade a vir dizer aos poderes instituídos e que nos conduziram a este desvario que “os princípios morais têm de estar inscritos no coração das pessoas”, olhando entretanto e designadamente para quem nos governa. E de acrescentar, a quem põe e dispõe, que há a necessidade de “reinventar o espaço público como lugar de deliberação e de diálogo comum”, firmemente garantindo que “a Igreja não abdicará dessa intervenção política” que, muito justamente refere, é “decorrente do modo cristão de estar na sociedade”.
No entanto, não deixou de fazer notar que apesar de os portugueses em geral serem “generosos”, culturalmente sofrem de “muito pouco hábito de partilha” e que “só em momentos de catástrofes é que partilham”.
Ouvi-o e reduzo muito do seu discurso a algo mais simples: tem faltado muita Catequese na actual sociedade portuguesa.

Cinema pela segunda vez em menos de uma dúzia de dias. Isto em muito tempo, mas não estou a voltar. Impunha-se pelo título, um remake dos originais dos anos 80/90 e que preencheram uns momentos de parte da minha vida e respectiva transição.
No papel principal, um jovem de doze anos. Admiro-me sempre. Estes actores, ainda imberbes, já têm um olhar analiticamente maduro. Poderia apontar milhentas razões para isso mesmo, mas o importante é a súmula final em qualquer deles: não gosto. Sejam quaisquer que sejam as razões para este fenómeno, noto as mesmas expressões que vejo às crianças pobres urbanas da Índia e do Bangladesh. Advirão de motivos distintos, mas todos eles terríveis, sempre. Uma criança tem de olhar como tal, ou já não é criança.

Depois, madrugada dentro, o final de “Momento Decisivo no Pacífico”, de Mark Healy com ilustrações de Chris Warner. A guerra no Pacífico no virar da corrente. Na verdade, as nações do Eixo só foram até onde os deixaram, não haja ilusões. A ilusão foi sempre toda dos seus líderes.
No particular: se a I Grande Guerra o foi no mosaico da Europa (e a partes de África), a II Grande Guerra foi feita por puzzles que recobriram uma grande parte do mundo. Esta a única “guerra mundial” dos homens.
Nestes livros, extraordinariamente escritos com base numa informação aturada de mais de sessenta anos, torna-se possível identificar todas as cores e tons de cada peça, seja de uma batalha ou de toda uma campanha. Simultaneamente, isso reduz a ideia da própria guerra geral, colocando-a muito bem nos seus particulares.
Não tenho dúvida, é uma das colecções temáticas de maior interesse que alguma vez adquiri.


Madrugada de sexta-feira, 17 de Setembro de 2010 Passo a “Rommel em Retirada”, Julho de 1942, o décimo quarto volume da colecção, assim regressando às areias quentes do deserto norte africano. No texto de Ken Ford ilustrado por Howard Gerrard, os últimos confrontos entre alemães e italianos contra ingleses (enfim, com todas as suas tropas coloniais formadas por sul-africanos, indianos, neo-zelandeses e australianos, para além de franceses e gregos) antes da chegada dos americanos.
Agora, entra em cena Montgomery reatando tácticas de até então, para exasperação de Churchill, mas incutindo novos níveis de confiança, estratégias, e, sobretudo, reorganização.
De facto a Inglaterra não o é por acaso. De uma ou outra forma, sempre soube como, a par de uma tenacidade que só é possível aos povos bárbaros liderados por uma elite excelente. Por cá passa-se o contrário, desde D. Manuel I, poucas excepções à parte.


Madrugada de segunda-feira, 20 de Setembro de 2010 Hortos neste fim de estação com o verão a parecer a pino, se bem que à entrada do Outono. Principais limpezas feitas, mantenho a horta das abóboras onde vão pululando, para gáudio da cara-metade que lamenta o fim próximo da reserva de cebolas. Para o ano faz-se mais e oferece-se menos, aquelas já cumpriram o seu objectivo.
Puxo do rendimento até ao fim, E a terra dá-me troco, com o brócolos a romper novamente à sementeira natural. Dá que recebes, diz-me todos os dias destes últimos anos, Tenho feito por isso.

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domingo, 3 de fevereiro de 2013


Madrugada de sexta-feira, 10 de Setembro de 2010 Tal como acontece ciclicamente, findo o mês de Agosto, muitos postos de venda da VS&C venderam todos os números postos em banca. O mesmo acontece, em menor escala, ali por Janeiro de cada ano aquando das recolhas da edição de Dezembro anterior.
Acontece porque os visitantes que vêm a Viana, nestes períodos de férias, turistas ou familiares de visita à terra, vêem, interessam-se e compram a revista.
É uma pena que não sejam os meus conterrâneos a fazê-lo todos os meses. Bem lá diz o povo: em casa de ferreiro, espeto de pau. Adapta-se bem. Esta perpétua e cultural falta de atenção pelo que o vizinho do lado faz, enfraquece-nos a todos. É assim um pouco para com todos os aspectos da vida. Os poetas da terra não se lêem, os pintores não se apreciam, os músicos tocam de costas voltadas… e por isso as coisas passam e perdem-se da memória, ingloriamente, para esta lamentável sina de todos nós.
Quem sabe que só o município de Viana do Castelo teve mais de trezentas publicações periódicas desde os alvores do século desanove? Quem poderia imaginar então que a maior parte desses exemplares mais antigos nunca mais poderão ser vistos e estudados, porque não houve uma única alma, institucional ou não, que fizesse o respectivo arquivamento?
Esta espécie de desprezo intestino pelos nossos, que somos nós mesmos e cada um de nós, torna-nos em pequenos anões neste mundo cada vez mais globalizado, uniformizado, onde o único destaque possível é só mesmo aquele de, aproveitando a corrente globalizadora, expandirmos a partir de nós mesmos aquele ser que existe apenas dentro de cada um de nós, aglutinador das vivências regionais e locais, marcando as nossas capacidades e diferenças, assim mais nos engrandecendo para que possamos ocupar o maior espaço possível nesta rede que hoje cobre todo o mundo e nos liga a todos.
Mas sem o necessário respeito e genuína apreciação pelo labor do parceiro que, a nosso lado, diariamente luta pela sua terra e pelos seus, ou até somente mantém a tenacidade para sustentar a família e criar os seus filhos, vigiar os seus netos, nunca iremos mais além do que das nossas próprias pernas.
É este o grande drama que vivemos todos nós como sujeitos de pequeno torrão, mais incomodados em descobrir a fraqueza do vizinho do lado do que a sua potência intrínseca e que o faz continuar todos os dias.


Madrugada de domingo, 12 de Setembro de 2010 Com muito esforço e paciência, fui vendo, entre consultas de email e respostas aos enviados, o programa do anúncio das “7 Maravilhas de Portugal” no canal um da RTP. E foi preciso ter pachorra!
Há coisas que nunca o deixam de ser, como este tipo de triste espectáculo. Em oposição a toda a encenação – que terá custado milhões, imagino – tudo foi de um amadorismo deprimente. Faltou preparação, faltou ensaio, faltou, enfim, o trabalho que o cometimento exigia.
Os apresentadores, melosos; os convidados anunciadores das atribuições –escolhidos entre desportistas, políticos de autarquia e directores de empresas municipais –, não sabiam por onde entrar, quando e por onde sair. Raras excepções, não sabiam o que dizer; os moços e moçoilas que iam a palco entregar o envelope com os “vencedores”, saídos das coreografias do espectáculo de luzes, música e dança, não tiveram fatiotas novas para vestir, depois de terem andado aos saltos pelo cenário de água e areia suja, apresentando-se com as indumentárias transpiradas, molhadas e manchadas de terra.
Até o troféu parecia um bacio de quarto; não, mais: uma arrastadeira que, sob determinados ângulos, passaria até por um cesto de pic-nic.
Contas feitas, para os portugueses, a serra da Estrela, a única sério que temos pelo continente, não mereceu distinção, ultrapassada que foi pelo relevo do Pico e aquele da Peneda-Gerez; o vale e os vinhedos do Douro ficaram nos esconsos da memória; os Algarves, só deram Ria e o Alentejo pareceu que é só de praias.
Pobre país!

Madrugada dentro para a leitura. Depois de dia de forno a ar parado, avanço nas horas madruguentas com minutos a páginas folheadas. Parece que acendo cigarros nos anteriores enquanto vou percorrendo esta colecção; porque termino “Bombas sobre Tóquio: Estados Unidos Contra-Atacam”, na investigação de Clayton K. S. Chun e ilustrações de Howard Gerrard, e logo encadeio o seguinte. Como se virasse a página seguinte. É o “Momento Decisivo no Pacífico” (Midway, Junho de 1942), episódio das infâncias de tardes de fim-de-semana a ver filmes e preto-e-branco em sótão na companhia de irmãs e primas. Repetindo depois sempre aqui e ali no resto da vida até agora e mais será ainda. É de Mark Healy com ilustrações – não referenciadas em capa –, de Chris Warner. A César o que é de César, vario hoje.


Madrugada de terça-feira, 14 de Setembro de 2010 Conheci hoje o jovem que publiquei em estreia na edição deste mês da revista. Tem dezasseis anos e foi premiado num concurso de “e-talentos” dos CTT. Publiquei-o, a sua proposta, porque escreve bem e conseguiu arranjar uma trama interessante e pouco comum no texto que lhe deu o terceiro lugar.
Conversámos mais de uma hora e meia. É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si.
Deixou mais dois textos e encontrei o mesmo brilhantismo na trama dum deles, sendo que o outro é um escrito afectivo relativo ao falecido avô, mas também bom.
Precisamos de rapazes destes neste país. Inclinado para as letras, soube escolher um curso de Ciências e Tecnologia, via Ensino, porque quer seguir estudos superiormente que lhe viabilizem a vida.
Espero que mantenha a boa fonte de enredos, sempre aperfeiçoando a arte escrita; e que esta sua passagem na revista, que ora iniciou, se torne numa grata recordação da sua vida.

Entre muito assunto falado e troca de impressões, caímos na crise económica, mas não lhe referi o que ainda a semana passada mudou nos países da União Europeia. Que, agora, os orçamentos de Estado terão de passar pelo crivo da respectiva Comissão, que o seu país deixou de vez de ser dono de si próprio e que o seu voto para a Assembleia Constituinte da sua nação, daqui a dois anos, valerá muito menos do que poderia valer antes.
Não lhe falei que o sonho europeu é uma ilusão e que andaremos sempre a duas velocidades, com os países do norte a subsidiarem as economias do sul, por troca das suas soberanias.
Não lhe expliquei ainda que a perda de soberania redunda infalivelmente na degradação da democracia, nascente e origem da possibilidade que (ainda) tem de estudar em iguais condições de acesso a todos os outros jovens europeus, única oportunidade de um cidadão se elevar no plano pessoal, social e económico, tornando-se, assim, mais e melhor pessoa para criar um mundo superior, porque mais conhecedor e, por isso, mais justo entre os homens e ambientalmente sustentável.
Porque não se deve destruir sonhos a quem neles acredita; e porque acredito, ainda, que o sonho comanda vida.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


Madrugada de domingo, 05 de Setembro de 2010 Vimos mais dois filmes europeus e pergunto. Onde estão eles que já vão por terras do Brasil? (e que bem os tratam). Para onde foi o florilégio que ainda tive na minha meninice? Porquê esta alienação às produtoras americanas, se nem sequer os espanhóis o fazem? Nem os ingleses! Os franceses nunca, assim como os italianos. Eu sei, estes últimos têm muita produção nacional, mas, pergunto, porque é que deixaram de estar connosco?
Isto é uma facada nas nossas próprias costas. E tão melhores, são as velhinhas películas europeias. As de ontem, de há bocado e (ainda) as de hoje.
O nome era “O Velho Amable”, baseado na obra homónima de Guy de Maupassant, esse eterno das crónicas de costumes, só ele mesmo um manancial para os nossos mestres da claquete, fora todos os outros.
Onde anda este povo, que já não sabe o que há?!

Por sobre tudo isto, as rentrées políticas. Mais atenção aos comunistas e à sua Festa do Avante, porque normalmente mais interessante. A encerrar a festa, uma hora da arenga do líder, fechada com “vivas”. Os três últimos, “aos militantes do Partido Comunista, à “Juventude Comunista” e ao Partido Comunista Português”. À réplica do de sempre, nada para os restantes Portugueses e nada para Portugal. É este, o problema.


Madrugada de segunda-feira, 06 de Agosto de 2010 Vá lá, encontrei uma solução de compromisso para a rega à moto-bomba. Vou sacando regadores enquanto aguo as hortas. Mas ainda não foi hoje, porque estive a dar luta às daninhas com o moto-roçador. Moto-isto, moto-aquilo… Sinto-me a fazer batota. Mas vale o templo de contemplação, que muita falta me fazia.


Madrugada de terça-feira, 07 de Setembro de 2010 Foi esta segunda-feira, a minha rentrée deste ano e já sigo de vento em popa. Hoje, de tudo um pouco, a terminar na Redacção depois das 21h00. Escrita, arquivo, telefonemas, várias saídas, contactos pessoais, compras para os dois apartamentos e compromissos marcados já para o dia seguinte. Que não perca a forma e a disposição, bem preciso de ambas.

Gosto dos franceses porque acredito que gostam de Cultura. Penso-o enquanto vejo “Inglorious Bastards”, a última realização de Quentin Tarantino após um interregno de quatro anos.
E este António Banderas é um portento de um actor que me enche de orgulho ibérico.


Madrugada de quarta-feira, 08 de Setembro de 2010 Depois do visionamento de um documentário sobre a vida e obra de Ugolini, “O Arqueólogo de Mussolini” – uma alma condoída em corpo ferido precocemente terminado aos 41 anos de idade sem riqueza nem glória (antes pelo contrário), quase obliterado pela História – o final da leitura da aventura romanesca e trágica
“O Grande Assalto dos Comandos em St-Nazaire”, com texto de Ken Ford e ilustrações de Howard Gerrard. Que episódio heróico e mirabolante! Como a realidade ultrapassa qualquer ficção; que roteiro de filme de aventuras de guerra excelente. Tem de o haver. Devo-o ter visto, pena não me recordar.
Agora, “Bombas sobre Tóquio: Estados Unidos Contra-Atacam”, na narração de Clayton K. S. Chun e ilustrado pelo já habituée Howard Gerrard. Que aprender mais sobre as anteriores leituras e o filme visto repetidas vezes?...


Madrugada de quinta-feira, 9 de Setembro de 2010 Disse-lhe que a propriedade (fugaz, como a nossa vida) da terra nos engrandece. Na passagem do debate sobre as dificuldades profissionais criadas pelos energúmenos desta vida, que nunca deixam de o ser, a conversa caiu aí. Que a terra chegando-nos mais ao chão da vida, literalmente, nos colocamos mais perto dos céus; porque suavizando-nos as ansiedades eleva-nos a calma e as placitudes, fazendo-nos chegar um pouco mais à paz. Por isso ter a terra, percorrê-la com os nossos passos, cuidá-la com o nosso labor, fazer crescer para nossos sustento e do mundo, sem a exaurir, é tornarmo-nos maiores, porque mais compreensivos desta chã que nos sustêm e sustenta, assim tornando-nos mais conhecedores e logo mais responsáveis; então, melhores, noutro plano postados, com superior visão sobre as coisas, por isso capazes de mais remedeios, também assim construindo o nosso futuro, no presente que labutamos, e construindo o de todos: os de antes, porque seguimos o que veio; os de hoje preservamos; e os de amanhã, porque melhorado deixamos.
O contrário de tudo isto também existe, claro. Portanto, não perder a atenção e o discernimento, e honrar o compromisso com a responsabilidade.

O primeiro-ministro e o restante elenco governativo, exultam. Portugal cresceu acima do esperado no último trimestre. O Eurostat, assim como a estatística nacional, o diz. Mais uma décima acima das contas feitas (que nunca acertam). A que se deve o milagre? Ao crescimento das exportações? Ao aumento da produtividade? Não. Como de costume (e nisto a coisa nunca falha), o incremento económico do país deve-se ao aumento do consumo das famílias.
Pobre economia esta que se só se vai sustendo exaurindo o pouco que ainda lhe resta.

Começo a leitura em velocidade de cruzeiro do livro de Joseph Ratzinger. Ainda assim, protelo, protelo e sei porquê. A obra não está acabada se bem que uma segunda parte foi prometida. Mas a eleição a Papa… não sei se permitirá o fim deste “Jesus de Nazaré”, no curto ou médio prazo. E como sei antecipar leitura prazeirosa, que desejo sempre, faço esperar, esperar… para que mais dure.
E, nisto, sigo a toda a brida a corrida a Tóquio do Tenente-coronel James Doolitlle, tal são os paradoxos da vida.

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