domingo, 17 de fevereiro de 2013


Madrugada de terça-feira, 21 de Setembro de 2010 Menos de quatro dias para este “Rommel em Retirada”. Leitura célere, como céleres os combates. Que diferença entre uns ingleses e uns russos. Os primeiros, com quantitativos muito semelhantes ao opositor, acabam por batê-lo em pouco mais de ano e meio, ainda que em território longínquo de casa; os segundos, em números muito superiores, em homens e material, na sua própria casa, perdem milhões de vidas e precisam de um período de tempo mais longo para expulsar o invasor, em muitos casos mal equipado.


Madrugada de quarta-feira, 22 de Setembro de 2010 Chego a Agosto de 42 em Dieppe, costa da Normandia, França. O título diz “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, um episódio de que não me recordo das leituras  da mocidade.
A história é escrita pelos vencedores, diria LaPalisse. Acrescento que também é registada menos vezes, sempre que convenha mais. Em anos de magazines televisivos nunca fixei este evento. Talvez o local tenha sido referido a breve nota de rodapé, ou noutra situação menos gravosa para o julgamento do tempo. Mas, enfim, quase setenta anos passados me chega aos olhos e juízo a “Operação Jubilee”, “uma das acções militares mais controversas da II Guerra Mundial”, num registo de baixas aliadas incomum. Talvez por isso mesmo nunca me tenha sido posta à frente.
Antecipo fervorosamente a aventura, desde já recordando os caídos. O texto volta a ser de Ken Ford com os desenhos de Howard Gerrard.

Algo já devia aqui ter dito, por estes dias: do Pároco de Nossa Senhora de Fátima recebi um livro. Daqueles que pensei nem pegar para além da leitura para a composição da recensão na revista, mas que tenho lido um pouco, todos os dias de escrita, conta ou correspondência na Redacção. Foi editado pelo Carmelo de Santa Teresinha e pela dita paróquia, aprovado pelo bispo, tendo por nome “Bandeira da Vitória”, em alusão à rua de instalação do dito e actualmente encerrado Carmelo; no local, pelo menos.
Rua da Bandeira por aquela colocada em ambos os seus términos a assinalar a gafaria de leprosos que então existiu. Bandeira que as irmãs descalças transformaram em “vitória” do seu amor. Por isso o título quase bélico se torna assim belo.
Tenho lido… e descansado.


Madrugada de quinta-feira, 23 de Setembro de 2010 Depois de uma grande parte da tarde em pesquisa e escrita, após a revisão de “O Padrinho”, de Coppola, a segunda parte da mesma saga.
Como nos transformamos. À medida que a idade se me carrega nos anos, mais me custa assistir a esta coisa (também porque obra-prima, verdadeiramente). Claro está, porque ali encontramos laivos, por vezes nada inócuos, de nós mesmos, o que nos dói fundo e preocupa e consome. Mas é sobretudo um problema de indignação que se nos cresce à medida da responsabilidade que nos vai preenchendo mente e alma. Por isso tão custoso assistir a coisas tão duras. Espero que transmitam o resto da história, mais dia, menos dia, mas sei que irá passar muito tempo até que tenha estômago para rever esta trilogia.

Depois as leituras da noite, madrugada dentro, após aquelas feitas de dia nos jornais e revistas de assinatura:
Um dia que tudo isto seja diferente, que pensarei de mim e deste tempo com todas estas leituras e estes livros; este tempo todo, mesmo a roubar ao sono e por vezes a outras coisas, a toda esta biblioteca à disposição que cresce mais rápido do que o meu alcance?


Madrugada de sexta-feira, 24 de Setembro de 2010 Uma vertigem este triângulo de vértices simultâneos. No extremo mais agudo, a guerra dos homens; num dos lados em baixo, mais largo, a guerra do Homem; no outro, correspondente, a das descalças. Como explicar sempre vitórias?

Mais esta espera que desespera. As promessas meteorologia são vãs, a ida à rega impõe, mas tanto adiante, de trás e dos lados para fazer. Manhã, dia e noite, vivo com pressa muita a correr atrás do que desliza na vida e falta-me a contemplação. Quero ver mas apenas vislumbro. Quero solução.


Madrugada de sábado, 25 de Setembro de 2010 Assim se chega quase às cinco da manhã, depois de dia de trabalho com quilómetros andados, de fato e gravata, relações públicas, contabilidades, arquivos, leitura dos títulos de imprensa regional, escrita, preparação do alinhamento do programa radiofónico, formulação das questões para a conversa e tópicos gerais; jantar depois das 23h, tentativa de actualizar a conversa do dia com a cara-metade, debate televisivo, episódio de série semanal e ainda filme para ir limpando as gravações que se acumulam;

(dou comigo a querer que o enredo corra pelo melhor, que não corre. É isto a velhice)

também diário do dia na agenda, respectivo plano que chega e estas notas aqui; depois, as leituras finais: história e teologia…
… e esta mente que ainda não quer dormir, para amanhã acordar tarde e maldisposto pela parte de sol do dia perdida.

O programa correu, estive com o jovem que se estreou na VS&C. Tem 16 anos, É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si”, reescrevi-o em Editorial.
Gostaria de ter um filme com os meus 16 anos. Quanto deste rapaz fui eu? São tantas as similitudes e até paridades circunstanciais. Comete os mesmo erros que eu cometia, engrossa a voz como eu o fiz, pretende o à-vontade que eu simulava e sofre do mesmo nervoso miudinho. Creio que transporta em si todas as vantagens intrínsecas. Responde como o faz porque lê e se envolve. Auguro-lhe algo de bom e a capacidade de descobrir felicidades dentro da fatalidade.

É penosa, esta leitura deste “Desastre na Normandia”. Quase irrita como a ânsia de fazer levou a fazer tão mal. Parece que consigo ver e sentir o terror de todos os massacrados.
Que este triste episódio tenha bem servido para que “o verdadeiro dia D”, aquele da operação “Overlord”, não tivesse sido pior. Honra ali para os caídos, que Deus os tenha.

*

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


Madrugada de quarta-feira, 15 de Setembro de 2010 Da vergonha nacional, ética, moral e desportiva, que foi o despedimento do seleccionador nacional, fica-nos as palavras de Luís Figo, talvez o melhor jogador português de futebol de todos os tempos e actual director desportivo do Inter de Milão, à pergunta da jornalista da eventualidade de se candidatar à presidência da Federação Portuguesa de Futebol: “Gosto muito de Portugal e dos portugueses, mas ainda estou queimado de há pouco tempo”.
Referia-se ao caso “Freeport” onde foi envolvido juntamente com o primeiro-ministro, num caso de tráfico de influências, peculato e ganhos indevidos. E concluiu, num sorriso,em palavras que muitos queriam finalmente ouvir a alguém, neste país de tons cinzentos com muito branco e poucos ou nenhuns negros: “Quando quiser ter problemas, volto a Portugal”.
Tudo dito por um dos melhores na sua arte. Tanto no futebol em si mesmo, dentro e fora de campo, como naquele talento de ser um senhor no mundo.
Figo está longe, mesmo quando cá está. Está onde deve estar. 

D. Carlos Azevedo, presidente da Comissão Episcopal Social, na sessão de abertura da XXVI Semana Pastoral Social, em resposta à situação de crise que o país e mundo atravessam, disse que o actual modelo económico é “indecente, injusto, desigual e desproporcionado”, uma vez que “agrava a pobreza e a exclusão social”.
Dia após dia, parecem estar cada vez mais longe os tempos de conivência entre o poder religioso e aquele do Estado, conivência essa que abriu larga brecha na sociedade que, revoltada pelo desamparo que a elite dos representantes de Cristo a votou ao longo de séculos, se abriu a outros poderes, substituindo o abraço da Igreja por sistemas ideológicos que, tão simplesmente, prometiam oferecer precisamente aquilo que Cristo dois mil anos antes apregoara: a igualdade entre os homens!
Pela muito humana e natural necessidade e premência do factor religioso no espírito de cada um, milhões através de todos os continentes acabaram atirados para ideários políticos que, copiando o próprio modelo organizacional da própria Igreja, se imiscuíram entre antigos fiéis proletarizados, analfabetos, fragilizados, arrebanhando-os para as suas fileiras postas muito longe do conforto espiritual intrínseco ao ser humano –uma das principais razões, talvez a principal, do seu falhanço.
Hoje a corrente muda, constatamo-lo todos os dias. Por isso é um conforto ouvir e ler D. Carlos lembrar que “não são as pessoas que estão ao serviço da economia, mas a economia ao serviço das pessoas e dos povos”. Conforta-nos o seu lembrete de que “o capitalismo fez muitas vezes da mão-de-obra mera mercadoria”, logo avisando que “só com modelos humanistas se poderá ultrapassar a crise económica”.
Finalmente a Igreja, com coragem e frontalidade a vir dizer aos poderes instituídos e que nos conduziram a este desvario que “os princípios morais têm de estar inscritos no coração das pessoas”, olhando entretanto e designadamente para quem nos governa. E de acrescentar, a quem põe e dispõe, que há a necessidade de “reinventar o espaço público como lugar de deliberação e de diálogo comum”, firmemente garantindo que “a Igreja não abdicará dessa intervenção política” que, muito justamente refere, é “decorrente do modo cristão de estar na sociedade”.
No entanto, não deixou de fazer notar que apesar de os portugueses em geral serem “generosos”, culturalmente sofrem de “muito pouco hábito de partilha” e que “só em momentos de catástrofes é que partilham”.
Ouvi-o e reduzo muito do seu discurso a algo mais simples: tem faltado muita Catequese na actual sociedade portuguesa.

Cinema pela segunda vez em menos de uma dúzia de dias. Isto em muito tempo, mas não estou a voltar. Impunha-se pelo título, um remake dos originais dos anos 80/90 e que preencheram uns momentos de parte da minha vida e respectiva transição.
No papel principal, um jovem de doze anos. Admiro-me sempre. Estes actores, ainda imberbes, já têm um olhar analiticamente maduro. Poderia apontar milhentas razões para isso mesmo, mas o importante é a súmula final em qualquer deles: não gosto. Sejam quaisquer que sejam as razões para este fenómeno, noto as mesmas expressões que vejo às crianças pobres urbanas da Índia e do Bangladesh. Advirão de motivos distintos, mas todos eles terríveis, sempre. Uma criança tem de olhar como tal, ou já não é criança.

Depois, madrugada dentro, o final de “Momento Decisivo no Pacífico”, de Mark Healy com ilustrações de Chris Warner. A guerra no Pacífico no virar da corrente. Na verdade, as nações do Eixo só foram até onde os deixaram, não haja ilusões. A ilusão foi sempre toda dos seus líderes.
No particular: se a I Grande Guerra o foi no mosaico da Europa (e a partes de África), a II Grande Guerra foi feita por puzzles que recobriram uma grande parte do mundo. Esta a única “guerra mundial” dos homens.
Nestes livros, extraordinariamente escritos com base numa informação aturada de mais de sessenta anos, torna-se possível identificar todas as cores e tons de cada peça, seja de uma batalha ou de toda uma campanha. Simultaneamente, isso reduz a ideia da própria guerra geral, colocando-a muito bem nos seus particulares.
Não tenho dúvida, é uma das colecções temáticas de maior interesse que alguma vez adquiri.


Madrugada de sexta-feira, 17 de Setembro de 2010 Passo a “Rommel em Retirada”, Julho de 1942, o décimo quarto volume da colecção, assim regressando às areias quentes do deserto norte africano. No texto de Ken Ford ilustrado por Howard Gerrard, os últimos confrontos entre alemães e italianos contra ingleses (enfim, com todas as suas tropas coloniais formadas por sul-africanos, indianos, neo-zelandeses e australianos, para além de franceses e gregos) antes da chegada dos americanos.
Agora, entra em cena Montgomery reatando tácticas de até então, para exasperação de Churchill, mas incutindo novos níveis de confiança, estratégias, e, sobretudo, reorganização.
De facto a Inglaterra não o é por acaso. De uma ou outra forma, sempre soube como, a par de uma tenacidade que só é possível aos povos bárbaros liderados por uma elite excelente. Por cá passa-se o contrário, desde D. Manuel I, poucas excepções à parte.


Madrugada de segunda-feira, 20 de Setembro de 2010 Hortos neste fim de estação com o verão a parecer a pino, se bem que à entrada do Outono. Principais limpezas feitas, mantenho a horta das abóboras onde vão pululando, para gáudio da cara-metade que lamenta o fim próximo da reserva de cebolas. Para o ano faz-se mais e oferece-se menos, aquelas já cumpriram o seu objectivo.
Puxo do rendimento até ao fim, E a terra dá-me troco, com o brócolos a romper novamente à sementeira natural. Dá que recebes, diz-me todos os dias destes últimos anos, Tenho feito por isso.

*

domingo, 3 de fevereiro de 2013


Madrugada de sexta-feira, 10 de Setembro de 2010 Tal como acontece ciclicamente, findo o mês de Agosto, muitos postos de venda da VS&C venderam todos os números postos em banca. O mesmo acontece, em menor escala, ali por Janeiro de cada ano aquando das recolhas da edição de Dezembro anterior.
Acontece porque os visitantes que vêm a Viana, nestes períodos de férias, turistas ou familiares de visita à terra, vêem, interessam-se e compram a revista.
É uma pena que não sejam os meus conterrâneos a fazê-lo todos os meses. Bem lá diz o povo: em casa de ferreiro, espeto de pau. Adapta-se bem. Esta perpétua e cultural falta de atenção pelo que o vizinho do lado faz, enfraquece-nos a todos. É assim um pouco para com todos os aspectos da vida. Os poetas da terra não se lêem, os pintores não se apreciam, os músicos tocam de costas voltadas… e por isso as coisas passam e perdem-se da memória, ingloriamente, para esta lamentável sina de todos nós.
Quem sabe que só o município de Viana do Castelo teve mais de trezentas publicações periódicas desde os alvores do século desanove? Quem poderia imaginar então que a maior parte desses exemplares mais antigos nunca mais poderão ser vistos e estudados, porque não houve uma única alma, institucional ou não, que fizesse o respectivo arquivamento?
Esta espécie de desprezo intestino pelos nossos, que somos nós mesmos e cada um de nós, torna-nos em pequenos anões neste mundo cada vez mais globalizado, uniformizado, onde o único destaque possível é só mesmo aquele de, aproveitando a corrente globalizadora, expandirmos a partir de nós mesmos aquele ser que existe apenas dentro de cada um de nós, aglutinador das vivências regionais e locais, marcando as nossas capacidades e diferenças, assim mais nos engrandecendo para que possamos ocupar o maior espaço possível nesta rede que hoje cobre todo o mundo e nos liga a todos.
Mas sem o necessário respeito e genuína apreciação pelo labor do parceiro que, a nosso lado, diariamente luta pela sua terra e pelos seus, ou até somente mantém a tenacidade para sustentar a família e criar os seus filhos, vigiar os seus netos, nunca iremos mais além do que das nossas próprias pernas.
É este o grande drama que vivemos todos nós como sujeitos de pequeno torrão, mais incomodados em descobrir a fraqueza do vizinho do lado do que a sua potência intrínseca e que o faz continuar todos os dias.


Madrugada de domingo, 12 de Setembro de 2010 Com muito esforço e paciência, fui vendo, entre consultas de email e respostas aos enviados, o programa do anúncio das “7 Maravilhas de Portugal” no canal um da RTP. E foi preciso ter pachorra!
Há coisas que nunca o deixam de ser, como este tipo de triste espectáculo. Em oposição a toda a encenação – que terá custado milhões, imagino – tudo foi de um amadorismo deprimente. Faltou preparação, faltou ensaio, faltou, enfim, o trabalho que o cometimento exigia.
Os apresentadores, melosos; os convidados anunciadores das atribuições –escolhidos entre desportistas, políticos de autarquia e directores de empresas municipais –, não sabiam por onde entrar, quando e por onde sair. Raras excepções, não sabiam o que dizer; os moços e moçoilas que iam a palco entregar o envelope com os “vencedores”, saídos das coreografias do espectáculo de luzes, música e dança, não tiveram fatiotas novas para vestir, depois de terem andado aos saltos pelo cenário de água e areia suja, apresentando-se com as indumentárias transpiradas, molhadas e manchadas de terra.
Até o troféu parecia um bacio de quarto; não, mais: uma arrastadeira que, sob determinados ângulos, passaria até por um cesto de pic-nic.
Contas feitas, para os portugueses, a serra da Estrela, a única sério que temos pelo continente, não mereceu distinção, ultrapassada que foi pelo relevo do Pico e aquele da Peneda-Gerez; o vale e os vinhedos do Douro ficaram nos esconsos da memória; os Algarves, só deram Ria e o Alentejo pareceu que é só de praias.
Pobre país!

Madrugada dentro para a leitura. Depois de dia de forno a ar parado, avanço nas horas madruguentas com minutos a páginas folheadas. Parece que acendo cigarros nos anteriores enquanto vou percorrendo esta colecção; porque termino “Bombas sobre Tóquio: Estados Unidos Contra-Atacam”, na investigação de Clayton K. S. Chun e ilustrações de Howard Gerrard, e logo encadeio o seguinte. Como se virasse a página seguinte. É o “Momento Decisivo no Pacífico” (Midway, Junho de 1942), episódio das infâncias de tardes de fim-de-semana a ver filmes e preto-e-branco em sótão na companhia de irmãs e primas. Repetindo depois sempre aqui e ali no resto da vida até agora e mais será ainda. É de Mark Healy com ilustrações – não referenciadas em capa –, de Chris Warner. A César o que é de César, vario hoje.


Madrugada de terça-feira, 14 de Setembro de 2010 Conheci hoje o jovem que publiquei em estreia na edição deste mês da revista. Tem dezasseis anos e foi premiado num concurso de “e-talentos” dos CTT. Publiquei-o, a sua proposta, porque escreve bem e conseguiu arranjar uma trama interessante e pouco comum no texto que lhe deu o terceiro lugar.
Conversámos mais de uma hora e meia. É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si.
Deixou mais dois textos e encontrei o mesmo brilhantismo na trama dum deles, sendo que o outro é um escrito afectivo relativo ao falecido avô, mas também bom.
Precisamos de rapazes destes neste país. Inclinado para as letras, soube escolher um curso de Ciências e Tecnologia, via Ensino, porque quer seguir estudos superiormente que lhe viabilizem a vida.
Espero que mantenha a boa fonte de enredos, sempre aperfeiçoando a arte escrita; e que esta sua passagem na revista, que ora iniciou, se torne numa grata recordação da sua vida.

Entre muito assunto falado e troca de impressões, caímos na crise económica, mas não lhe referi o que ainda a semana passada mudou nos países da União Europeia. Que, agora, os orçamentos de Estado terão de passar pelo crivo da respectiva Comissão, que o seu país deixou de vez de ser dono de si próprio e que o seu voto para a Assembleia Constituinte da sua nação, daqui a dois anos, valerá muito menos do que poderia valer antes.
Não lhe falei que o sonho europeu é uma ilusão e que andaremos sempre a duas velocidades, com os países do norte a subsidiarem as economias do sul, por troca das suas soberanias.
Não lhe expliquei ainda que a perda de soberania redunda infalivelmente na degradação da democracia, nascente e origem da possibilidade que (ainda) tem de estudar em iguais condições de acesso a todos os outros jovens europeus, única oportunidade de um cidadão se elevar no plano pessoal, social e económico, tornando-se, assim, mais e melhor pessoa para criar um mundo superior, porque mais conhecedor e, por isso, mais justo entre os homens e ambientalmente sustentável.
Porque não se deve destruir sonhos a quem neles acredita; e porque acredito, ainda, que o sonho comanda vida.

*