Madrugada de terça-feira, 21 de Setembro de 2010 – Menos de quatro dias para este “Rommel em Retirada”. Leitura célere, como céleres os combates. Que diferença entre uns ingleses e uns russos. Os primeiros, com quantitativos muito semelhantes ao opositor, acabam por batê-lo em pouco mais de ano e meio, ainda que em território longínquo de casa; os segundos, em números muito superiores, em homens e material, na sua própria casa, perdem milhões de vidas e precisam de um período de tempo mais longo para expulsar o invasor, em muitos casos mal equipado.
Madrugada de quarta-feira, 22 de Setembro de 2010 – Chego a Agosto de 42 em Dieppe, costa da Normandia, França. O título diz “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, um episódio de que não me recordo das leituras da mocidade.
A história é escrita pelos vencedores, diria LaPalisse. Acrescento que também é registada menos vezes, sempre que convenha mais. Em anos de magazines televisivos nunca fixei este evento. Talvez o local tenha sido referido a breve nota de rodapé, ou noutra situação menos gravosa para o julgamento do tempo. Mas, enfim, quase setenta anos passados me chega aos olhos e juízo a “Operação Jubilee”, “uma das acções militares mais controversas da II Guerra Mundial”, num registo de baixas aliadas incomum. Talvez por isso mesmo nunca me tenha sido posta à frente.
Antecipo fervorosamente a aventura, desde já recordando os caídos. O texto volta a ser de Ken Ford com os desenhos de Howard Gerrard.
Algo já devia aqui ter dito, por estes dias: do Pároco de Nossa Senhora de Fátima recebi um livro. Daqueles que pensei nem pegar para além da leitura para a composição da recensão na revista, mas que tenho lido um pouco, todos os dias de escrita, conta ou correspondência na Redacção. Foi editado pelo Carmelo de Santa Teresinha e pela dita paróquia, aprovado pelo bispo, tendo por nome “Bandeira da Vitória”, em alusão à rua de instalação do dito e actualmente encerrado Carmelo; no local, pelo menos.
Rua da Bandeira por aquela colocada em ambos os seus términos a assinalar a gafaria de leprosos que então existiu. Bandeira que as irmãs descalças transformaram em “vitória” do seu amor. Por isso o título quase bélico se torna assim belo.
Tenho lido… e descansado.
Madrugada de quinta-feira, 23 de Setembro de 2010 – Depois de uma grande parte da tarde em pesquisa e escrita, após a revisão de “O Padrinho”, de Coppola, a segunda parte da mesma saga.
Como nos transformamos. À medida que a idade se me carrega nos anos, mais me custa assistir a esta coisa (também porque obra-prima, verdadeiramente). Claro está, porque ali encontramos laivos, por vezes nada inócuos, de nós mesmos, o que nos dói fundo e preocupa e consome. Mas é sobretudo um problema de indignação que se nos cresce à medida da responsabilidade que nos vai preenchendo mente e alma. Por isso tão custoso assistir a coisas tão duras. Espero que transmitam o resto da história, mais dia, menos dia, mas sei que irá passar muito tempo até que tenha estômago para rever esta trilogia.
Depois as leituras da noite, madrugada dentro, após aquelas feitas de dia nos jornais e revistas de assinatura:
Um dia que tudo isto seja diferente, que pensarei de mim e deste tempo com todas estas leituras e estes livros; este tempo todo, mesmo a roubar ao sono e por vezes a outras coisas, a toda esta biblioteca à disposição que cresce mais rápido do que o meu alcance?
Madrugada de sexta-feira, 24 de Setembro de 2010 – Uma vertigem este triângulo de vértices simultâneos. No extremo mais agudo, a guerra dos homens; num dos lados em baixo, mais largo, a guerra do Homem; no outro, correspondente, a das descalças. Como explicar sempre vitórias?
Mais esta espera que desespera. As promessas meteorologia são vãs, a ida à rega impõe, mas tanto adiante, de trás e dos lados para fazer. Manhã, dia e noite, vivo com pressa muita a correr atrás do que desliza na vida e falta-me a contemplação. Quero ver mas apenas vislumbro. Quero solução.
Madrugada de sábado, 25 de Setembro de 2010 – Assim se chega quase às cinco da manhã, depois de dia de trabalho com quilómetros andados, de fato e gravata, relações públicas, contabilidades, arquivos, leitura dos títulos de imprensa regional, escrita, preparação do alinhamento do programa radiofónico, formulação das questões para a conversa e tópicos gerais; jantar depois das 23h, tentativa de actualizar a conversa do dia com a cara-metade, debate televisivo, episódio de série semanal e ainda filme para ir limpando as gravações que se acumulam;
(dou comigo a querer que o enredo corra pelo melhor, que não corre. É isto a velhice)
também diário do dia na agenda, respectivo plano que chega e estas notas aqui; depois, as leituras finais: história e teologia…
… e esta mente que ainda não quer dormir, para amanhã acordar tarde e maldisposto pela parte de sol do dia perdida.
O programa correu, estive com o jovem que se estreou na VS&C. Tem 16 anos, “É interessado e simultaneamente comedido. É educado sabendo estar à-vontade. Tem noção do mundo em que vive, conhece algo do seu país e tem uma ideia para si”, reescrevi-o em Editorial.
Gostaria de ter um filme com os meus 16 anos. Quanto deste rapaz fui eu? São tantas as similitudes e até paridades circunstanciais. Comete os mesmo erros que eu cometia, engrossa a voz como eu o fiz, pretende o à-vontade que eu simulava e sofre do mesmo nervoso miudinho. Creio que transporta em si todas as vantagens intrínsecas. Responde como o faz porque lê e se envolve. Auguro-lhe algo de bom e a capacidade de descobrir felicidades dentro da fatalidade.
É penosa, esta leitura deste “Desastre na Normandia”. Quase irrita como a ânsia de fazer levou a fazer tão mal. Parece que consigo ver e sentir o terror de todos os massacrados.
Que este triste episódio tenha bem servido para que “o verdadeiro dia D”, aquele da operação “Overlord”, não tivesse sido pior. Honra ali para os caídos, que Deus os tenha.
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