sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Meadela, terça-feira, 10 de Março de 2009 – Veio, ao fim de mais de quinze dias, e entrou como se cá tivesse estado ontem. E nem os óculos de sol tirou. Disse o que quis, passou e foi embora, com outra das meias-promessas dele. Andou meses para trás. Ou, então, nunca chegou a andar.

Estou a fumar metade do que já fumei um dia, ainda há bem pouco. Depois de deixar o álcool de vez, depois de deixar isto… e parar com aquilo. Quanto mais zangado com o mundo estou, melhor me comporto comigo mesmo!


Meadela, segunda-feira, 9 de Março de 2009 – São muitos anos deste paroxismo: vivo sem acreditar, mas sempre esperançoso…


Meadela, domingo, 8 de Março de 2009 – Reolho este textos e penso que, de cada vez que os espreito, tenho a oportunidade de trabalhar o texto final. Só que já é este.


Meadela, sábado, 7 de Março de 2009 – Hoje, que regressou, hoje que como que estive ao lado dela, como que sozinho, não dormiu, no sofá, não vacilou… e o filme, tardio e longo, era o “2001 Odisseia no Espaço”. Viu-o todo!


Meadela, quarta-feira, 5 de Março de 2009 – Escrevo, escrevo, mas falta-me sempre alguma coisa.


Meadela, terça-feira, 4 de Março de 2009 – Conheço bem a pública indiferença. Por isso, o meu programa de rádio será um espaço de eu ser e dizer, sem saber, ainda, qual será a sua extensão e profundidade que poderá ter; sem peias nem meiguices. Não sei se começarei bem, mas mesmo que isso se não suceda, ajudará, com certeza, a que acabe melhor.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Meadela, terça-feira, 3 de Março de 2009 – À aproximação de uma operação cirúrgica ao mais velho, rememoro um SMS que me enviou há um par de anos (mais) quando ia ser intervencionado, já não me lembro a quê. Dizia, na antecipação à eventualidade pior: “Gosto muito de ti”. Agora, rememorando-o, penso que nunca foi isso que esteve em causa, mas a sua capacidade de o demonstrar positivamente.

Voltei hoje a este diário e recuperei as notas escritas dos últimos dois meses, que transcrevo com pequenos acrescentos. Que paz se expande no meu peito! Só mesmo comparável ao prazer que quase me derruba quando estou nos Hortos.
Felicidade é isto. Na vida, só temo que me julguem cobarde.


Meadela, segunda-feira, 2 de Março de 2009 – Vejo no noticiário o empreendedor inglês que também se terá enredado no “Caso Freeport”, senão criado boa parte da teia. Encolhido, meio-sorriso, sai das instalações da PJ, sob as flashadas dos jornalistas. O caso eterniza-se e o país escorre todo, indolente, para a triste figura do peão estrangeiro, assim como que se redimindo da sua crise existencial de não saber bater o pé, sonantemente, e dizer Não!

Mais à noitinha, noutro canal, um debate com os casos BPN e BPP. Um chorrilho de leviandades, crimes, com um fluir horrífico de injustiças e maus juízos governamentais. Porque não injectar o dinheiro que está a ser canalizado para os bancos, para as famílias e empresas? Estas pagariam os seus empréstimos à banca e tudo ficaria contente…

Tenho uma pena enorme deste país que amo, pequeno em tudo, mas enorme em tantas coisas.

Meadela, por Fevereiro – Esquadras assaltadas, polícias despojados das suas armas na rua; agora, um assalto a um tribunal que, afinal, está longe de ser o primeiro (ou o último, digo eu). Fatídicos paradoxos?

*

- Então porque é que és de esquerda?
- Porque me está tudo à direita.


 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

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Meadela, quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009 – Espreito na TV um espectáculo de La Féria. Admiro o homem empreendedor. O homem que adapta, lusitaniza e faz tudo brilhar. Já a Arte, essa, menos brilhante, porque baixa à terra de todos. Não somos a “Grande Maçã”, apenas um pêro. Mas as pessoas gostam.


Meadela, terça-feira, 27 de Janeiro de 2009 – Isto do Amor é tremendo, connosco a pensar que a parceira é parte de nós, quando nada mais faz que realizar-se. Terrível, quando se percebe que se não detém o controlo, quando damos tudo, ou pensamos que sim


Meadela, sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009 – Ouço nas notícias que mais uma grande empresa – alemã, por sinal – vai encerrar deixando dois mil trabalhadores no desemprego; logo a seguir, que o banco tal diminuiu o seu lucro em 50 milhões de euros, uma vez que os ganhos foram de 150 milhões. Pois é, a crise é isto mesmo!

Que temporal! O tempo veio piorando, de terça para cá, paulatinamente, até que isto! A electricidade já caiu por duas vezes. Só do vento.
Eu gosto. Mas não deixo de pensar que estes ventos estão cada vez mais fortes, ano após ano. Consequências do aquecimento global. As águas já estão a levar as praias fluviais a jusante na margem direita do Lima. Estas coisas não eram tão intensas nos tempos dos nossos pais; nem no dos nossos avós: os surfista que o digam…

Meadela, segunda-feira, 20 de Janeiro de 2009 – A condição humana é necessariamente importante. Porque é ela que define quem somos perante outrem.
Eu, ou dei, ou recebi. E sabê-lo-ei sempre!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010


Meadela, segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009 – Baixas temperaturas para todo o país. Localidades de Bragança e Vinhais isoladas. Gosto do frio que me falta, cada vez, ao longo dos anos que passam e aquecem. O frio lava-me a alma.

Estive a ouvir até perto de meio a primeira entrevista do primeiro-ministro à TV, desde o início do ano Os jornalistas, esses, tidos pelo que de melhorzinho este país tem, menos capazes, porque levaram para a conversa a intenção e o pré-conceito, o que lhes condicionou a disposição e a atitude; também porque a sua linguagem, hermética; aquele, pelas boas e pelas más razões, brilhante, como sempre. Mas intelectualmente deslustroso. É pena!


Meadela, 3 de Janeiro de 2009 – “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Até pela radicalidade intrínseca do dito, me sabe a briga familiar.
Mormente o que me foi ensinado (e às gerações que me fizeram), ir a Espanha sempre foi algo de muito especial para mim, como que um regresso à mais antiga casa de família. Uma espécie de retorno a casa dos avós, bisavós… depois da emancipação. Por isso, e em última análise, não a temo. Mesmo nada! Mas sou capaz de lhe rugir como na mais bera briga de primos ou irmãos. Em última análise, também porque nos olham com paternalismo, mesmo quando fazemos as coisas melhor que eles. E é isso que irrita!


Meadela, Dia de Ano Novo de 2009 – Estou desde as 14h00 a ouvir o Concerto de Ano Novo transmitido de Viena. Quero gostar, mas escolheram Strauss com uma série de óperas politizadas; mas nem isso se nota, é música para debutantes e senhorinhas. Um chato, este Strauss, especialmente com esta chuva “morrinha”, lá fora, o tempo cinzento e frio…
Anunciam outro concerto de Ano Novo na TV para logo, às 23h00, uma “Ópera Preamium”, com óperas de Mozart, Strauss (sempre ele!), Wagner e Puccini. Vai ser realizado no Teatro Nacional S. Carlos com umas vozes e um pianista, tudo portugueses da Gulbenkian. Vou espreitar com a esperança de que possam ser melhores que estes senhorinhos vienenses.
 
 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010


Porto, por dia da segunda quinzena de Dezembro de 2008 – Vim à “cidade Invicta” dar uma aula na Escola de Jornalismo do Porto. Vejo, nos sofás de descanso e nas mesas da “praça da alimentação” do centro comercial “Shopping Cidade do Porto”, senhores sérios com os seus novos computadores ultra-portáteis. É hora de interrupção no trabalho para almoço. Olho para eles e preocupo-me. Preocupam-me estes senhores bem vestidos a brincarem, positivamente, aos computadores, do alto dos seus cinquenta, sessenta anos. Acho que quem veste assim e se senta no mundo com aquela arrogância, devia era estar a trabalhar com os seus brinquedos novos. Mas olham para eles como quem já passou pelos menus todos ou, pelo menos, pelos óbvios, os que utilizam todos os dias. Parecem não saber mais, que não conseguem ir mas longe com aquilo. Acho que deviam sabê-lo. Usam óculos de finas hastes, trazem largos anéis em ouro nos dedos anelares e transportam a barriguinha da estabilidade instalada há muitos anos. São técnicos e empresários, patrões e quadros de empresas que eu entendo que deviam ter algo de útil para fazer com as máquinas novas. Pergunto-me que exemplo darão, todos os dias – tal como este dia –, aos seus empregados e subordinados, que são todos os outros? Senhores que até comem na mesa ao lado e os observam, note-se, sabendo de antemão que chegarão ao gabinete sempre meia hora depois... idos da brincadeira com os seus computadores novos.


Meadela, dia seguinte, Dezembro 2008 – “Hallmart” por “Wallmart”! Detesto estas legendagens da TV, traduções de meninos e meninas que não sabem nada do que andam a fazer. Nem sequer da cultura da língua que traduzem; mesmo aquela popular.


Meadela, 31 de Dezembro de 2008 – Último dia do ano. Dou os ares frescos da noite a respirar à I., chamo-lhes “uns dos cheiros de Viana”, mas não posso deixar de pensar que, quando dizemos “Viana” há um aroma que vem com o nome da cidade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

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Nos primeiros dias de 2009 – Leio o “Diário” do Torga, o quarto volume, e numa das passagens, de 1948 ou 49, refere-se filosoficamente a uma situação passada com um “ganhão”, a mais simples condição de ser português na época, figura que me é fácil imaginar e projectar no seu tempo mas… depois lembrei-me de mim e deste Portugal pós-25 de Abril: eu vivi profundamente a situação de “ganha-dinheiros”, quando me casei pela primeira vez; no trabalho como escriturário que desempenhava para o Centro Regional de Segurança Social recorrendo à minha organização mental, aos meus conhecimentos administrativos, às minhas competências na utilização dos teclados nacional e internacional; no serviço em restaurantes e cafés, à minha predisposição e simpatia natas com os clientes, e ao recurso do Inglês e do Francês; nas recepções das residenciais onde me empreguei, no rigor, na boa memória, na apresentação e postura perante aqueles a quem servia.
E, às segundas-feiras, voltava para a secção de Relações Públicas e Documentação do Centro Regional, à minha condição de “administrativo”, numa roda-viva de todos os empregos que conseguisse encontrar, sem nunca saber dos meses seguintes.
Fui um “ganhão” dos tempos modernos, precariamente oferecendo os meus préstimos, a troco de muito pouca coisa, por vezes coisa nenhuma. Passados todos estes anos, vejo-os por aí, anos mais velhos, derreados, cada vez mais nestas crescentes crises económicas. Já não apenas os jovens iludidos no ingénuo acreditar da vida, mas também os mais maduros – uns mais tristes, outros mais o inconformados –, são cada vez mais.

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Meadela, terça-feira, 06 de Janeiro de 2009 – Enquanto transformava o original brasileiro do Tarot para português, a publicar na edição deste mês na revista, pensei que algo me falava de Deus, ou algo por aí. Mas, parece-me, é algo que se foi embora, há muito tempo.

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sábado, 18 de dezembro de 2010

Transcendental no Céu e na Terra

ORAÇÃO

Obrigado meu Deus
Por me ouvires
E me dares
O descanso das lágrimas,
A razão do bom senso
E a paz para falar contigo

E por saber regressar
Sempre a mim

Obrigado, meu Deus
Por me fazeres sentir
Que existo
E ser feliz com isso

Perdoa-me o pecado da presunção
Porque agradeço a vaidade que sou
O prazer que sinto
E que me impele a viver forte

Obrigado por desviares de mim
Os escolhos afiados
Que matam
E me tornares poderoso
Na inflexibilidade em que por vezes vivo

Obrigado por me fazeres ser melhor
Quando à noite o desespero
Quer tomar conta de mim
E ajuda-me a ajudar os outros
Quando exiges que me segure

Dá-me a espiritualidade
Quando preciso de ar
E o ar quando sinto
A alma desfeita

Por tudo o que sou te agradeço
Mesmo quando me sinto desvanecido.

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Em fim-de-semana – Amo-a também porque com ela revejo todos os bons progressos que senti nos outros dias.

Vaidade – Isto de haver ídolos, não é que não procurasse (andasse à procura); mas só me encontrei a mim próprio. Tenho-me encontrado a mim.


Por Dezembro 2008 – Só acredito no Torga porque todos os outros usam artifícios. O Torga é o que diz. Até na poesia o máximo que faz é dizer “… uma moça que eu cá sei”.
Em Torga, até as metáforas passam a comparações.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um nome...

A cada memória sua epígrafe. Encontrei o nome destas:
 “(Dias) De Terra & (Madrugadas) De Livros”
(1 de Dezembro de 2010)


Para já...

No ano em que fiz os meus dezasseis anos li 118 obras completas. Dando continuidade à leitura de toda a obra de Eça de Queiroz, peguei ainda na de Almeida Garrett e segui por aí fora, a par da costumeira leitura, em tardes de pão com manteiga e Enid Blyton com o seu “Os Cinco”, “As Gémeas”, “Os Sete”, a colecção “15 Histórias”, de espessos volumes, o Emílio Salgarei…
Foi o ano em que me encontrei com a literatura brasileira numa obra de Machado de Assis, os poetas portugueses novecentistas, o António Nobre e o Guerra Junqueiro. Foi o ano em que li em três dias, emocionado,  “Os Miseráveis”, de Vítor Hugo, em colecção do Círculo de Leitores a quatro volumes, se bem que tenha feito alguma batota na descrição da Batalha de Waterloo.
Ficou-me aquele número, menos muitos dos títulos e respectivos autores e sempre lamentei não ter feito o registo. Também porque gostaria de ter todos esses volumes na minha biblioteca pessoal, uma vez que a maioria pertencia a meus pais.
Porque os livros são parte daquilo que eu sou de uma forma muito densa e profunda (andaram sempre comigo de casa em casa e até de cidade em cidade), a partir das datas mencionadas à frente comecei, nestas páginas, a fazer o registo das minhas leituras com título, autor(es) e respectivas datas de leitura, com pequeno acrescento crítico ou sinopse. Depois vieram umas notas do dia, mais uns pensamentos, a que se juntou uma ou outra apreciação a um documentário visionado ou filme apreciado. De permeio, notas soltas (por sistema) do meu alltar de alma e expandir de corpo e mente na lavoura feita no meu terreno dos Hortos, na vizinha freguesia de Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo.
De tudo isso e de mais alguma coisa se foram juntando as páginas que se seguem, que acabaram por ser encimadas por título encontrado dois anos após o seu início.
E cá estão (quase) todas elas, depois de muitas aberturas e abandonos nos tropeços do caminho, inaugurado finalmente. A ver vamos se na criação limpa e fielmente na rotina. Para nos honrarmos a nós mesmos.

Em 17 de Dezembro de 2010

Construir Ar...

... primeiro, e logo depois coisa mais.