sexta-feira, 29 de junho de 2012


Madrugada de sexta-feira, 04 de Maio de 2010 Dia de Hortos, com enxada, tubos e baldes à rega. A coisa compõe-se, mas ainda falta o elemento mecânico, já tão do homem.
Na paragem para intervalo, cigarro e contemplação, sentindo o vento embalado por chilreios, grilos e cigarras. Como assim se torna tão fácil fazer filosofia!


Madrugada de domingo, 5 de Junho de 2010 Quase seis horas a montar, corrigir e gravar a edição. Mas ficou feito.
De volta a casa, tarde, a partida da selecção nacional de futebol para a África do Sul com cobertura em todos os canais de TV. Nos dias anteriores, o estágio na Covilhã, para aclimatação dos atletas. Sempre uma festa, um corrupio que nunca deixo de estranhar e me deixa desconfortável, com jornalistas, câmaras e microfones – a que horas saem do hotel, o que trazem vestido, que música ouvem, que refeições tomam. A falta de à-vontade de alguns dos jogadores é notória, mas esses são poucos. Todos sabem o que hão-de dizer, qual a pose para a máquina. Não consigo aceitar isto. Eles são os gladiadores e hoje em dia, toda a envolvência devia ser diferente, recolhida, monástica, à semelhança do pelotão guerreiro que aguarda a ordem de combate.
Queria ver isso mas observo, todos os dias, meninos. Os miúdos e os graúdos.

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domingo, 24 de junho de 2012



Madrugada de terça-feira, 1 de Junho de 2010 Vendo o primeiro-ministro com os olhos a brilhar como os de um menino, por ter visto aprovar a “lei do casamento homossexual”, rodeado de figurões da causa, nacionais e estrangeiros, onde o senti como peixe dentro de água, penso neste encravado país. Penso nesta Europa a tremer com a derrocada da economia grega, nuns Estados Unidos da América a temer a propagação da crise que continua a acentuar-se neste mundo ocidental; penso numa China, numa Índia e até num Brasil, a crescerem a olhos vistos e a receberem os salamaleques ocidentais como os antigos dos “impérios do meio” viam os andrajosos das caravelas que lá chegaram, enquanto vestiam seda e se passeavam por passeios empedrados abanando leques. Penso como se riem porque perceberam que está a voltar aquilo que, para esses povos das índias, é a situação normal do mundo.
No meio do nacional desvario por causa do sempre eterno déficit, penso nas palavras de Eça de Queiroz, escritas em “Uma Campanha Alegre”, com o amigo Ramalho Ortigão:

“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, a Grécia e Portugal.”

Estávamos nós em 1872…


Madrugada de terça-feira, 2 de Junho de 2010 Termino “O Grande Assalto Pára-Quedista Nazi”, a operação Mercúrio alemã, que tomou Creta. Foi uma leitura carregada de sortilégios, talvez porque o mito do Minotauro foi dos primeiros que conheci, ainda não lia; talvez porque a civilização Minóica foi a primeira desta Europa que sou. Também porque encontrei uma lógica indefinível (mas tão palpável) na feroz resistência dos partisans cretenses contra o invasor teutónico, na melhor tradição da poderosa Minos que tudo conquistou exigindo tributos às imberbes cidades continentais gregas, que assim também alimentavam, de nove em nove anos, os rituais de sacrifício minóicos com jovens rapazes e raparigas virgens, porque mais puros, e com eles assim nutrindo a lenda do touro-homem, apenas derrotado por Teseu, o primeiro herói da Grécia antiga.
Abro agora o volume seguinte, “Operação Barbarosa I”, de Robert Kirchubel com ilustrações de Howard Gerrard. Esperam-me aí dos mais negros episódios que a II Grande Guerra tem para contar; largos e sucessivos momentos de fogo e gelo, sacrifício extremos, lutas de mãos contra armas, corpos contra tanques, vidas arrancadas aos milhões. Mas não é toda a guerra assim?

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sexta-feira, 15 de junho de 2012


Madrugada de segunda-feira, 31 de Maio de 2010 Hoje, pela manhã, encontrei o pai do Tiago, o moço conterrâneo assassinado por linchamento. Conversámos e houve muita comunhão. Espero que não apenas pelo choque que ainda deve estar a viver.
Agora, madrugada dentro, o calor nocturno garante-me dias secos durante a semana. Serão feitos a correr, entre as muitas redacções do noticiário para a revista que fecha a edição na quinta-feira, se tudo correr bem, as questões burocráticas, da casa e da Redacção, para além da pantomina dos directores do Centro Dramático de Viana e a rega das hortas, a prometer-me a manutenção desta forma física que me começou com as refeições a que fiz gazeta na semana anterior à que passou, com a correria dos baldes de água, campo abaixo e acima.
Na mesinha de cabeceira, “O Livro do Pastor”, de Johann Davis e uma biografia de Jack Kerouac aguardam-me, enquanto prossigo a lição da primeira operação militar com pára-quedistas da história. E a meio disto tudo…
Em dia de ida ao cinema, lá comprei o meu primeiro livro de Teologia. Do então Cardeal Joseph Ratzinger, actual Papa Bento XVI, uma interpretação – “Jesus de Nazaré” – cuja leitura iniciei quase na hora de aquisição.
Esta será sempre uma leitura feita com esforço. Porque tal como sempre me pareceu todos estes anos, este tipo de linguagem é sempre encriptada, caindo sucessivamente no campo dogmático. No entanto, logo às primeiras páginas consigo receber algo das conclusões que, ao longo destes anos tenho, intuitivamente, conseguido retirar. No caso do texto já lido, as notórias dificuldades da igreja Católica impor o seu Cristo divínico, desde logo quando o método histórico-crítico, científico, portanto, em si mesmo não consegue construir, em oposição à teologia da fé que mais não pode do que dimensionar um arquétipo estruturado no dogma, isto é, “na força de acreditar”.
Pergunta-se: dada a preponderância que o método ganhou na mente do vulgo especialmente a partir da década de 50, tem vindo esta força a ser suficiente na explicação da figura de Jesus Cristo, em toda a sua amplitude, como suporte do pensamento cristão e, outrossim, da religião cristã?
E daqui que ubiquidade se evidencia nesta triangulação lógica? – Razão/Fé?; a Fé da Razão?; ou a Razão de Fé?
Ficam-nos as questões, mas sem nunca esquecer, também, que ter fé é ser forte, uma vez que a dúvida, alicerce do método, restringe a energia; por isso, acreditar é poder (que o digam os desportistas em competição ou os militares em combate).
E aqui reside verdadeiramente a razão da fé, e o mistério desta última.

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domingo, 10 de junho de 2012


Madrugada de sexta-feira, 28 de Maio de 2010 Dia de aniversário cumprido. Um dia igual aos outros, com um pouco de menos trabalho, mas mais ansiedade por isso.
Reflicto naquela que me troca o seu trabalho pelo dinheiro que lhe pago. Digo-lhe: “A honestidade no pagamento das nossas dívidas abrem-nos imediatamente as portas de meio mundo. A sua falta fecha-nos inexoravelmente a outra metade”. Mas estão longe de ser a mesma coisa. No primeiro caso, essa honestidade encontra-se no nosso coração, que transborda, e os outros notam-no imediatamente, ainda antes do pagamento efectuado, que deve acontecer sempre a tempo e horas. Por isso essa metade pode torna-se em todas as portas; no segundo caso, acabam sempre todas elas por fechar-se. E isso faz toda a diferença entre ambas.


Madrugada de sábado, 29 de Maio de 2010 É assim mesmo, um agricultor não pode comemorar o seu dia de anos. Deveria ter ficado a maquetar com a rapariga na quinta, não passar para a sexta seguinte e, aí, ter ido regar, pelo fim da tardinha. Amanhã vou lá chegar e tudo estará um desastre, com certeza. É que não chove, como garantia a meteorologia!

E continua a troca de emails com o saltimbanco da carta, que não larga e alarga esta pantomina. Só por dizer que perdeu de vista a posição dos adereços e enfia para o buraco do palco, que escurece, com o figurante que leva atrás de si no meio de penumbra que se adensa, enquanto vou insinuando que os acompanho. Vai falando sozinho, masturbando-se com as suas redacções, julgando-me à sua esquerda. Sigo pela direita, em sentido oposto, dizendo-lhe que sim. Pena que esta comédia vá acabar mal, como boa tragicomédia que se preze…


Madrugada de domingo, 30 de Maio de 2010 Dia de greve geral. Os sindicatos reclamam um número de manifestantes, em Lisboa, na casa dos 300 mil, mas não ouvi em nenhum dos canais de TV ou rádio aqueles normalmente contrapostos pelo Governo. É o cumprimento do fim-de-semana do Executivo que durante os dias anteriores afirmou, pela voz de destacados dirigentes, assim como pela boca do primeiro-ministro, que “os portugueses não concordam com esta greve”.
No entanto, lamento que cada manifestante questionado pelos jornalistas não tivesse sabido explicar mais que o descontentamento geral, sem especificar numa linguagem escorreita e sem dúvidas as especificidades e cerne de toda esta questão. É que se não o sabem fazer, nunca encontrarão o caminho de saída disto tudo.

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sexta-feira, 1 de junho de 2012


Madrugada de quarta-feira, 26 de Maio de 2010 Hortos: as chuvadas havidas dispensaram-me da rega e logo aproveitei para outros labores. Aconteceram ainda mais. Comecei, sem contar com isso, a instalação do sistema de rega, com canos à séria numa conversa oferecidos pelo vizinho e acompanhei as alfaces que trouxe com as primeiras ervilhas tortas que a cara-metade adorou. Eu também.

Leitura: Neste livro a que me dedico agora não só me delicio na mente e aconchego na alma com as palavras inscritas, como privo com Machado Santos, passo por Fernando Pessoa e vislumbro Sidónio Pais; aflijo-me com os revoltosos da Rotunda, vibro com os revolucionários da praça do Município e rememoro as republicanas disputas.

Revista: De quem tinha em alguma consideração, recebo a missiva, via email, mais ultrajante, aviltante e soez de que tenho memória em toda a minha vida. A primeira resposta ao assunto está escrita. Seguirá nuns dias, deixá-lo(s) estar. O resto ver-se-á depois. Mas também já começou a ser alinhavada.
Há aqueles que em mais novos cometem os erros para mais tarde os corrigir. Há os outros que vão para velhos para fazerem ainda pior.


Madrugada de quinta-feira, 27 de Maio de 2010 Fecho pela última vez, nesta primeira leitura da minha vida d”O Vermelho e o Verde”, do já amigo Jorge. Dessa deliciosa leitura, um conceito se junta aos quadros já aqui apresentados: o conceito de família, hoje também debatido com amigo, em fim de tarde à beira rio. Na Redacção, onde me foi buscar, contei-lhe da minha vitória da vida na aquisição de majestosa secretária em carvalho maciço, que muito apreciou (a secretária e a crónica da sua aquisição) e que mais uma vez se surpreendeu, agora com nova história da estante que se lhe vai juntar, por valor zero, fruto de proposta minha hoje, a troco de  publicidade junto do vendedor de mobiliário e, em grande parte, também amigo.

Noto agora – tenho 43 anos de idade e ainda hoje de manhã me senti mais em forma do que nunca, a modos de dizer, é claro….


Quinta-feira, 27 de Maio de 2010 (escrito antecipadamente, muitos, muitos dias) Dia de aniversário dos meus 43 anos de idade.
Até aqui há dois anos, ao longo do período de um ano imediatamente precedente, permaneci estranhamente adiantado no meu tempo. Os 365 dias dos 40 não foram totalmente conscientes desse segmento de tempo como tal, pois a vida sabia-me a mais um ano, aos 41. Por isso, quando de facto os cumpri, dizia a mim próprio que tinha a impressão de ter ganhado um ano.
Assim tive os 41 por dois anos. Quando tornei os 42, pela primeira vez senti o peso, não aquele da idade e do tempo cumprido propriamente ditos, mas o outro do número dos aniversários e, confesso-o, estreei-me nesse incómodo tão característico – o da idade – de que ninguém foge e todos se queixam. Uma inevitabilidade tremenda, diga-se em abono da verdade.
Agora, na hora que conto os 43, regressa-me uma sensação de conforto para comigo mesmo e para com o ritual da passagem – sempre lamentando o ano que findou na sua percepção imperfeita, hoje reencontro o meu tempo.

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