sábado, 31 de março de 2012



Madrugada de segunda-feira, 3 de Maio de 2010 Hortos, hortos, hortos, felizmente. Depois, o regresso à poesia, por onde já não andava há algum tempo. Cada vez mais feliz comigo mesmo e com o que construo.
Creio que deixei de lutar contra o que não posso mudar e aquilo que não quer ser mudado. Como me agrediriam se soubessem disto…


Madrugada de terça-feira, 4 de Maio de 2010 Em fim de dia, nas primeiras horas da madrugada, um último zapping antes do encontro diário, na cama, com o notebook. Paro. MST, pesado, um (ainda) falso indolente – muito marcado pela noite, lembro-me dele aqui há uns anos a chegar a determinado bar na cidade do Porto, madrugada dentro, rodeado de três beldades, duas com idade para serem filhas dele e outra de idade indeterminada, e a abancar com garrafa de whisky reservada que ficou a emborcar muito depois de eu ter ido embora – entrevista João Garcia, um dos únicos dez homens do mundo a escalar já não sei quantos picos com mais de oito mil metros. A sua excepcionalidade custou-lhe parte dos dedos das mãos e dos pés, do nariz, das orelhas e da cara, mas insiste. Nas altitudes atingidas, foi o português que mais perto esteve do Céu. Não me lembro de um presidente da república alguma vez o ter agraciado com uma comenda, coisa que recordo de dois pilotos que chegaram, timidamente, a andar pela Fórmula 1. O primeiro deles só terminou uma corrida, se bem me lembro.
João Garcia, humilde, responde. Na camisa, sobre o lado direito, o logótipo de um banco português, muito falado pelos escândalos financeiros que fizeram os seus accionistas perderem milhões, enquanto os vigaristas dos administradores que o enterraram estão reformados esses milhões de euros e continuam abrigados por dezenas de guarda-costas pagos com o dinheiro dos espoliados.
Desgraçado país este que deixa um homem destes transformado numa montra triste dos escroques do mundo.

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sábado, 24 de março de 2012



Madrugada de domingo, 2 de Maio de 2010 A Sara tem uma energia interior impressionante. À sua beira sente-se vida. Não me desfez o encanto e só por isso entrevistá-la valeu a pena. Mas não tenho dúvida de que esta geração, em torno dos vinte anos, a idade dos meus filhos, é muito mais conservadora do que foi a minha naquela idade e antes de isso.
No festival de Vilar de Mouros, em 84, desnudava-mo-nos, no rio Coura, a exemplo da geração mais velha, enquanto este pessoal já não o faz em lado nenhum da forma libertária como tivemos a sorte de viver a vida. Naquele tempo, o que éramos estava bem patenteado, por exemplo, nos equipamentos desportivos… que hoje em dia tapam tudo. O advento da SIDA acabou com a revolução sexual de vez, mas esta geração ainda não teve tempo de vida suficiente para perceber isso e, por isso, Sara tentou-me explicar que os jovens encontram-se e despem-se. Eu sorri-lhe e disse que toda a gente sempre se despiu. Isso foi pouco antes da entrevista que gostei muito de fazer. Só por dizer que as naturais (?) desconfianças perante os jornalistas a impediu de ir um pouco mais longe nas respostas dadas, que lhe saíram, na maior parte das vezes, estereotipadas, como aquelas que ensinam aos jogadores de futebol hoje em dia. “O importante é a equipa”, “sem os outros tal não resultaria”, “isto é o trabalho de todos”. Se algo se perdeu foi por aí, mas nada que tenha ensombrado o trabalho, que evidencia uma interlocutora arguta e perspicaz, que foi ouvida em directo aos microfones de uma das rádios locais – onde tenho programa mensal – e agora pode ser lida em letra de forma nas páginas da minha revista, nesta interessante entrevista directamente vinda da linda boca amorangada de uma das meninas mais simpáticas deste nosso Portugal.

Merece nota dizer que hoje vi quase de enfiada “Lágrimas e Suspiros” e “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman. Dou nota dos filmes, do realizador e de mim próprio, assim também dando da eternidade das coisas belas.

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sábado, 17 de março de 2012



Madrugada de sábado, 01 de Maio de 2010 Manhã de urgência nos Hortos. Nebula mas não chove. Cerca de vinte e cinco baldes de água em vinte regadores, de cima para baixo, ou as abóboras já não estivessem caídas junto ao solo e algumas alfaces a querem amarelar. E a chuva não caiu mesmo.
Ora abóbora, literalmente.

Consegui uma bela sinergia com a entrevista exclusiva que consegui com a SBL. Com um telefonema ao director-geral a uma das rádios locais e outro à direcção de actores do teatro cá do sítio, amanhã farei a conversa com a rapariga em directo e em antena aberta nos estúdios da estação. Melhor não podia conseguir, embora não o devesse escrever.
Vá lá, não foi difícil ultrapassar a patetice das pessoas.

Creio ter percebido hoje a intenção deste “Jogo Duplo” de David Ignatius. Confirmo a primeira ideia de propaganda americana, bem ao estilo da Digest, espalhada pelo mundo. Se o livro do género anterior que li há bem pouco tempo procurava justificar de uma forma descarada (e sonegada, digo-o eu), a política da Casa Branca de George Bush, agora, este, obedecendo ao mesmo princípio mas de uma forma subterfúgica muito mais elaborada, demanda a subtracção de muitas das responsabilidades da CIA nas suas garantias em termos de informação e que coadjuvaram à invasão do Iraque, com base em análises que davam por certo o desenvolvimento de armas químicas, apresentando, este livro, uma espécie de anti-herói que na sombra se rebela contra os seus pares que a todo o custo querem lançar nova ofensiva, desta feita contra o Irão; incluindo nessa vontade a própria presidência norte-americana, a qual, na realidade deste momento, está na mão da equipa do presidente Obama. Brilhante, sem dúvida, mas tão perigoso quando a afirmação em 2003 que Saddam Hussein esteve por detrás do ataque às torres gémeas.
Isto é tudo terrível e organizadamente sinistro…

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sexta-feira, 9 de março de 2012



Madrugada de sexta-feira, 30 de Abril de 2010 Traído pela meteorologia (mas não somos sempre?). A chuva que deveria ter vindo hoje, para já passou ao lado. Ainda tentei mudar o trabalho de montagem da revista com a doce sanguínea designer, mas não conseguiria melhor que adiar o trabalho para a semana que vem, o que seria contraproducente. Por isso as arvorezinhas, as ervilhas tortas, as alfaces, os brócolos, o cebolo e as recém-plantadas meloas ficaram à sede.
Abóbora! Espiga!!

Mas consegui marcar a entrevista com a SBL. Marcação que subconscientemente tinha vindo a adiar, também não pesquisando convenientemente os contactos. Mas hoje decidi-me à coisa, até porque a última representação da peça é já sábado e a bela vai para o Porto com todo o estaminé.
Primeiro falei com o director artístico, depois com a directora de actores e a coisa ficou marcada. Agora extremamente excitado, continuo nervoso com o encontro e a conversa agendada. Sei porquê. A SBL foi a pessoa viva que, nos últimos anos mais me conseguiu afectar em termos artísticos, encantando-me, enquanto me tenho vindo a deixar embalar com isso. Se a actriz e a sua personagem me encantaram, temo que a conversa com a mulher me desencantem. E eu quero continuar inebriado!

Última porque não podia deixar em claro: Assisti a grande parte da inquirição ao antigo director de programas da TVI pela comissão parlamentar para o efeito. Um deputado do PS, que não o energúmeno de anteontem, procurou limitar as questões apresentadas pela sua colega do CDS, ao melhor trejeito pidesco. Levou uma tareia dela, do presidente da comissão (PSD) e do deputado do Bloco de Esquerda.
Torna-se inenarrável como esta esquerda dita “do centro” se fascistiza a olhos vistos enquanto são os gajos da direita a indignarem-se com esta coarctação da Liberdade e do seu exercício para o apuramento da verdade!

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sexta-feira, 2 de março de 2012


Madrugada de quarta-feira, 28 de Abril de 2010 Está tudo louco! A bolsa de valores bateu ainda mais fundo depois das perdas de ontem das quais não houve qualquer recuperação. Títulos com quase dez por cento em perdas, só hoje, depois dos quatro e cinco por cento de ontem!
Uns bandidos, aqueles que nos meterem neste crise económica e financeira, baixaram o rating de Portugal de A+ para A-. Uma qualquer agência financeira que, menos de dois meses após as últimas avaliações por outros quejandos, diminuiu ainda mais a credibilidade da economia portuguesa. Os abutres acercam-se do nosso país depois da Grécia. Querem-nos fazer pagar ainda mais caros os juros da dívida pública deste país que, muito por sua culpa, é verdade, funciona à conta do crédito alheio.
Os analistas internacionais mais reputados, dizem que se trata de um “efeito de contágio”. Cá para mim, estão-nos a tossir para cima.
Ao mais antigo estilo usurário, tais hienas, acercam-se dos mais débeis procurando alimentar-se desta economia do espaço euro de fora para dentro, chupando ossos e tutano para amenizarem as suas próprias perdas fruto da mais obscena ganância numa orgia de cobiça torpe que tudo exaure, tudo secando à sua volta. Bandalhos!
Esta é a guerra dos poderosos contra os fracos, cuja semente é a avidez dos primeiros que não querem deixar de o ser e dos segundos a quem fizeram crer que poderiam andar de mãos dadas consigo, vestindo iguais luvas, encimados por semelhantes cartolas, também transportando as mesmas bengalas. Loucos uns e outros!
Só um país unido poderia fazer frente a tão ignominioso ataque. Mas é uma guerra sem hipóteses pois, tanto governo como oposição, há muito perderam qualquer tipo de autoridade que nos possa mobilizar. E quem deve a trinta e quarenta anos a bancos tecnicamente falidos, num Estado que atestam próximo da bancarrota, não têm ânimo para o que quer que seja, quanto mais acreditar. Seis mil milhões de euros em juros que esta país tem de pagar todos os meses aos estrangeiros! Quem pode criar riqueza assim?!

No meio disto tudo os Hortos onde passei toda a tarde, Abri o poço pela primeira vez e apeteceu-me beber aquela água. De regador enchido a balde, espargi o mais raro elemento do universo pelas hortas onde, hoje, juntei pés de meloa. Seguir-se-ão os de melão, pois a linfa da vida não lhes há-de faltar, graças a Deus, é caso de o dizer.
Da dura labuta ficou-me potenciada a dor com que convivo desde a mancebia, nestas costas que doem como que se de papel fossem, mas que resistem, estóicas, sempre endurecendo as fraquezas intrínsecas. À noite nada sentia elevando-me a uma super-humanidade que, aliada ao trabalho a que me elegi, quase me elevava, eufórico, a uma sobre-humanidade. Pelo menos desta, desnorteada, em que me vejo incluso…

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