domingo, 20 de janeiro de 2013


Madrugada de terça-feira, 31 de Agosto de 2010 De tão quente o ar do princípio da tarde parece veludo na pele e como que nos embala. Da secura do dia o azul do céu empalidece como numa fotografia a cores antiga.
Debaixo desta canícula tremenda trouxe mais dois originais de pintura de entre os arrumos da exposição do casal de artistas cuja mostra reportei. Quid pro quo tem de ser máxima da vida para que não nos percamos nos desejos de outros, esquecendo-nos de nós mesmos.

Para prenda de aniversário procuro uma roupa interior bonita para a cara-metade. Numa mão, “Victoria Secret”; do outro, “Intimissi”. Prefiro sempre a segunda.


Madrugada de quarta-feira, 01 de Setembro de 2010 Regresso à sala de cinema, em muito tempo para filme de acção com diva do cinema a viver os quarenta, idade em que são mais belas e doces que nunca. O próximo já está agendado porque necessário ao imaginário. Seria hoje, não fosse a conveniência dos vales desconto.
Pena o frio que se passa ao longo das mais de duas horas de fita, fruto do provincianismo de quem não percebe que o sistema de ar condicionado existe para o bem-estar e não para enregelar o utente. À conta disto, contas feitas à horas passadas sob sistemas deste tipo em toda a minha vida, foi sempre pior a emenda que o soneto. Devo ter passado mais tempo desconfortável à conta dos exageros desta malta, quer seja os arrumadores das salas de cinema ou os motoristas de autocarro, ou outros que tais, do que aquele para que a coisa devia servir, enfim, apenas, para refrescar um pouco. Bem pensando, já me proporcionou mais espirros que momentos de doce refresco.

Hoje, em dia de rega matinal a dar uso à nova máquina e muita produção escrita, terminei “O Dia da Infâmia”, de Carl Smith, com ilustrações de Jim Laurier e Adam Hook. Magníficos ensinamentos esta colecção a vários volumes me tem proporcionado, sempre indo conseguindo saber mais ao sabido. Mas faria melhor ainda, se algo tivesse a ver com a sua produção, com muitos apontamentos no que toca ao armamento e que muita falta faz aqui, para além de outros cuidados com a fotografia e gráficos; também a dimensão dos volumes seria outra, precisamente por causa daqueles últimos.
“Contra-ataque ao Japão – Guadalcanal” (Fevereiro de 1942) é o volume que agora já segue na mesinha de cabeceira. Sem fazer referência ao responsável pelas ilustrações, é da autoria de Joseph N. Mueller.
Já não dou é conta dos volumes recebidos que acumulam. Leitura para mais de um ano, com certeza, a que se junta toda a outra.


Madrugada de sexta-feira, 03 de Setembro de 2010 I. perfez 47 anos esta quinta-feira. Não teve tudo o que merecia por este dia que devia ter sido de comemoração, mas estive sempre embebido nela pelo amor e sentiu-o. Toda a vida nos parece querer arrancar um do outro, no seu normal curso ou nas pequenas fatalidades. Talvez por isso mais me apegue como lapa em rocha batida pelas vagas. Está linda, mais do que alguma foi e já o era antes. Celebrei-a de manhã, à tarde e mesmo no trabalho de montagem; e à noitinha, ainda que com A., de camiseta cada vez mais desabotoada. Mas sente-se confortável comigo e gosto que seja assim.
Já a I. compensarei esta noite fora. Será já este fim-de-semana. Que o corpo não a traia. Que não nos traia.

É difícil acreditar que só regressei na passada segunda-feira; porque me parece já muito longe no tempo desta pouco mais que uma semana. E outrossim, parece que foi ontem.
Torna-se mais denso o tempo e depois o espaço, quando se faz muito e diverso. Conto as arrumações da viagem, da casa na chegada, as compras, a rega, a monda, as colheitas, o assunto das moto-bombas (uma devolvida para trazer outra), as matérias para a edição da VS&C de Setembro com respectiva montagem e seu encerramento concluído esta noite, as leituras atrasadas, a correspondência, pensamento em filhos transviados com avistamento e momento breve com o mais velho hoje…
Hoje repego nas leituras e irei pedir a paz dos Hortos, enquanto faço a água correr.


Madrugada de sábado, 04 de Setembro de 2010 – Morreu “o bom gigante”, José Torres, antigo futebolista que se revelou o segundo melhor marcador do Campeonato de Futebol do Mundo de sessenta e seis, em Inglaterra, e o treinador que levou a selecção nacional a disputar o Campeonato Mundial de Futebol de oitenta e seis, no México. O homem do “deixem-me acreditar”, se calhar, o nosso pioneiro do “yes we can”.
Morreu da doença de Alzheimer que o minou nos últimos anos. Recordo-me de aqui há dois ter sido referido por parte do companheiro Eusébio, de que já não reconhecia os amigos. Antes disso, títulos que o davam na miséria. Por vezes somos mesmo uma miséria de país.

Mas os noticiários do dia remeteram-nos para o final do “processo Casa Pia”, com a esperada leitura das sentenças após mais de dois anos de inquirições. Todos os arguidos acabaram condenados e a maior pena recaiu no porteiro, antigo utente, o acusado mais frágil, o único a colaborar com a justiça, que o condenou a dezoito anos de prisão, dentro de um sistema que não permite penas superiores a vinte e cinco anos de cadeia.
Vejo, a desoras, nos telejornais gravados todos os envolvidos: réus, testemunhas, advogados. Todos me parecem muito mais velhos, dois anos passados.

No dia de hoje, campo e conversa com o vizinho, enquanto a máquina, pela primeira vez, exaure a água até mais não subir. Não há dúvida, gasto dez vezes mais água sacando-a à força da traquitana, que a erguer aqueles baldes de saúde. Depois, a gasosa que exige, a fazer pagar a peso de ouro a rega…

Em fim de volume: pouco tempo para uma leitura intensa deste “Contra-ataque ao Japão – Guadalcanal” (Fevereiro de 1942 da autoria de Joseph N. Mueller) em que em capa não referiu a ilustradora, Shirley Mallison. O seu a seu dono.
Há sempre mais a aprender. Leio estes volumes, quase devorando, acumulando melhor perceber de cada episódio. É uma universidade. Tendo já conhecido mais ou menos a fundo cada matéria, ou ouvido meras referências a alguma em particular, há algo em cima que se escapou, que o autor anterior não referiu, descoberto ou redescoberto agora.
E regresso ao cenário europeu. No Atlântico Norte segue “O Grande Assalto dos Comandos em St-Nazaire, da lavra de Ken Ford e ilustrações de Howard Gerrard. A guerra com ingleses sabe sempre a algo mais, especialmente quando combatem os nazis.

Só não são horas infindáveis de leitura, estas, porque seria figura de estilo; mas muitas a tirar àquelas do sono e sempre prolongadas por estas notas que me atiram para uma espécie de desvario, uma corrida contra o tempo sempre parco, reduzido a dias de poucas horas e meses muito curtos, anos que passam num piscar de olhos.

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