sexta-feira, 29 de abril de 2011



Viana do Castelo, domingo, 6 de Setembro de 2009 – OFB tem uma coisa estranha na sua prosa, que leio (também assim reencontrando a literatura, depois das últimas dezenas lidas de “best-sellers” editados pela Bertrand): Escreve n”A Solidão do Anjo”, que o quadro-negro da sala de aula é feito de basalto; no “Em Viana Chove que Deus tarda”, refere por diversas vezes os “pintelhos” aí ditos “pentelhos” e, como tal, assim escritos; “Picolina”, a "bendita" senhora de Viana, é mencionada por “Pacolina”; endereça um suposto site para o endereço “www.bordadagua@gmail.com”… e tem muitas assim nas suas obras escritas, outras que tais que me fazem rir e ainda mais desfrutar da leitura. Claro que estas trocas bem poderiam ser literatura, mas eu acho que é confusão.

Mas, para o que interessa mais, sobre a realidade das coisas, creio que esta está um tanto ou quanto descolada das gentes vianenses, ouradas e multicolormente trajadas com os bombos da festa de permeio. Talvez isto seja um facto e esteja algo implícito nesta literatura surrealista do Orlando, especialmente esta mesmo, que é aquela publicada em livros com edições de 150 exemplares através de Centro Cultural do Alto Minho (e é só para quem quer). Afinal, o parco dos números permitem-lhe brincar com toda esta surrealidade. Até porque não pode escrever isto, desta maneira, apenas por acaso.

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Viana do Castelo, terça-feira, 8 de Setembro de 2009 – Em fase de pré-campanha das eleições Legislativas, no programa “Como nunca os viu”, pessoal e personalizado, o político na suposta intimidade, dos seus lugares, das suas coisas, dos seus gostos e preferências, coisas assim, é o que se pretende aí. PP apresenta a sua casa que transparece idiossincrasias. Eu, no seu lugar, não o faria, pelo menos naquela casa. PP é simpático e não precisaria, mas quer convencer disso mesmo. No entanto, querendo convencer, não parece estar convencido de si mesmo. Faz-me lembrar um bom amigo meu.

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quinta-feira, 14 de abril de 2011


Viana do Castelo, quinta-feira, 3 de Setembro de 2009 – Vejo uma jovem mulher com uma t-shirt com os dizeres “Liberdade é poder dar uns puns na cama à vontade”. Eu penso que liberdade é podermos fazer figura de urso sempre que quisermos.


Meadela, quarta-feira, 2 de Setembro de 2009 – Num telejornal à noite vejo o português Lopes da Mota, presidente do Eurojust, a ser questionado em sessão da Comissão de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu acerca de alegadas pressões sobre os magistrados do caso “Freeport”, pelo também português eurodeputado Nuno Melo, do CDS-PP. O Eurojust é mais um sistema querer fazer-nos crer na Justiça como tal.
O deputado português refere ter sido impedido, em Portugal, na qualidade de deputado à Assembleia, de questionar o magistrado, então. Lopes da Mota, que havia sido alvo de um processo disciplinar pelas alegadas pressões, defende-se. Ambos evidenciam trejeitos, expressões, gestos nervosos. Os restantes deputados europeus presentes na Comissão sorriem. E eu dou conta de um profundo sentimento de vergonha a tomar conta de mim.


Meadela, na madrugada de terça-feira, 1 de Setembro de 2009 – Esta noite comprei um relógio de marca na loja da representação, no centro comercial. A menina/mulher que me atendeu teve dificuldade em localizá-lo pela referência que fiz ao modelo. Namorava-o, naquela preciso local da montra há mais de dois anos. Indico-lho e peço que me diga o que sabe do artigo, estranha, contemporizo, perde a pouca segurança, requeiro a respectiva literatura, os seus olhos como que me pergunta, “o quê?”. Enfim, procura algo, espero o libreto explicativo, vê catálogos, pergunta-me há quanto tempo é que o relógio está na montra (estranho agora eu), decido sair da loja a apontar-lho na montra. Finalmente trá-lo.
Com gosto pego na coisa e tiro, eu próprio, a etiqueta, observo-o cuidadosamente sorrindo interiormente à referência que faço, perante a mudez da empregada, acerca da tecnologia de décadas dos mecanismos “automáticos” sem recurso à velha “corda” e, agora, à pilha de energia.
I. entra e mostro-lhe a coisa bonita que manuseio com gosto, clássica com um toque desportivo e explico-lho: caixa em aço inoxidável, pulseira em pele com referência à marca, estanque até cinquenta metros, vidro em safira, modelo 2006/2007, mecanismo automático, o qual respondeu imediatamente quanto lhe peguei iniciando o movimento do ponteiro dos segundos. Deixo a referência ao preço para mais tarde.
A empregada, que olhou com desconfiança a minha barba de alguns dias, a tez morena, o traje casual (a etiqueta do pólo ficou abaixo fora da sua linha de visão, abaixo do tampo do balcão, que também seria capaz de não ter saber para identificar qualidade sem recurso àquela) olha-me agora respeitosamente e quer apanhar-me na conversa, mas não tem a agilidade mental suficiente e já estou muito adiantado no tempo, quase no espaço.

Este é um problema com que cada vez mais me confronto nos últimos anos, já muitos. Esta juventude empregada nos comércios, quer naqueles ditos “tradicionais”, quer neste que vejo nos “C.C.s”, não sabe, de facto, o que é que anda a fazer. Esta rapariga vende relógios e joalharia, mas bem podia estar num pronto-a-vestir ou a servir à mesa num café. Foi isto que lhe saiu na rifa da vida e deve dar-se a alguma importância por isso, mormente as longas horas, os fins-de-semana de trabalho e o salário de reinserção.
Peço, numa esplanada, mais de três coisas, uma delas com a referência a “cheio” e geralmente falham uma, às vezes duas. Não têm o exercício da memória, a escola por objectivos nunca lha exigiram e o atraso no caminho da vida é cada vez maior, encurtando o percurso inexoravelmente.


Avenida dos Combatentes, Viana do Castelo, domingo, 30 de Agosto de 2009, à noite – Depois das Festas d’Agonia, na noite da Viana da Foz do Lima ainda descomposta, na ainda multidão, retardatária, olho à volta e vejo os loucos de Lisboa que, se já cá não estão, estão a chegar; vejo-os cada vez mais frequentes, em torno das esplanadas cheias de calor, plenas, com os olhares como que despercebidos dessas vozes altas inconformadas, ébrias, a todos dirigidas.

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