Madrugada de terça-feira, 30 de Março de 2010 – A pena chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona-me. Hoje, pouso-a… mas só depois disto.
Terça-feira, 30 de Março de 2010 – Encontrei-a na rua vinda de Inglaterra. Há muito tempo (o suficiente para não me recordar) que não nos víamos. Parou do outro lado da estrada que atravessei, feliz e forte. Aproximámo-nos. Ela insegura, expressão muito vincada; eu, sorridente e afectivo. Beijámo-nos e perguntei por ela, toquei-lhe muito, ela sensibilizou-se ainda mais, mantendo ainda assim a estatuária corporal; contudo, hesitante na atitude, apesar de não vacilar, não tem ânimo para ter a coragem de o revelar.
“Estás velha”, disse-lhe. “O fumo conserva”, replica. Sorrio o mesmo sorriso que lhe levei inicialmente, enquanto penso que o fumo conserva coisas mortas. Sinto que parte do seu espírito está assim. Creio que já partiu para a grande ilha um pouco nesse estado, há muitos anos.
Está coberta de maquilhagem, para além do aceitável, perdeu as gorduras faciais que emprestavam juventude, cobre vários dedos de anéis de todas as formas e feitios, com ouro à mistura e pulseiras várias, mormente os empréstimos pedidos por telefone a Portugal. Usa as unhas com o mesmo corte de muitas que conheci na rua, revela tatuagens e veste como se para a noite em restaurante de renome. Será assim pelas grandes bretanhas, ainda não é dentro dela, acho que nunca o será verdadeiramente.
Não gosto de quase tudo, mas sorrio, apesar de sempre preocupado por dentro.
Pergunto-lhe pelo filho, diz-me que está a tirar umas férias dele e do marido. Tergiversa desde o princípio, o que é uma pena e dá na sinceridade que procuro mas já não sabe ter. Obriga-se então a perguntar pela minha I., pede-me que lhe dê os seus cumprimentos ao que respondo que com certeza, enquanto penso que teria a obrigação de o fazer pessoalmente.
O mesmo sorriso continua na minha expressão de menino. Não o faço propositadamente, é mesmo assim pois, apesar de tudo, a felicidade do momento nunca me abandona; ela não tem a mesma sorte que eu, permanecendo a asserção pétrea do rosto. Despeço-me dizendo-lhe para telefonar para irmos tomar um café, esboça um nim, pouco à vontade consigo própria enquanto paira sobre a lama da incerteza que o momento lhe cola.
Despeço-me sem lhe perguntar quando se vai embora de regresso ao desemprego e ao bairro “Shameless”, pois não vale a pena. Não telefonará apesar das saudades inevitáveis, da mesma forma que não me deu nota desta sua vinda, agora já de há dois dias. Este encontro foi puramente casual, o que é uma pena, como é óbvio.
Telefonou-me do Porto onde estuda em busca de Novas Oportunidades, literalmente. Um estado de vigília, que foi o primeiro, assustou-o… e teve medo de adormecer esta noite. Sou esteio firme dos seus sustos, desde pequenino; continuarei a sê-lo por mais comprido que esteja. Gostaria de ter sentido assim tanta firmeza.
Família: chegam-se-me e logo não durmo.
Disse que pousei a pena. Não pude. Mas não porque me chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona. Apenas porque e tão-somente me sustenta!
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