sábado, 9 de março de 2013

Madrugada de quarta-feira, 06 de Outubro de 2010 Nas entrevistas de rua a propósito das comemorações do Centenário da República, muitos cidadãos e cidadãs anónimos, com predominância das últimas, fazem apologia da monarquia. Talvez achem que as revistas “Maria” ficariam mais interessantes.
Foi por isto que os revolucionários de 1910 afinal não lhes deram o direito de voto. Mas não é isto o mais preocupante. É este país continuar, agora e sempre, dividido.


Madrugada de quinta-feira, 07 de Outubro de 2010 Vejo um programa de sátira política norte-americana, num canal da TV por cabo (haverá outra?). Entrevistam o chefe sindical local sobre o facto das manifestações contra as actuais condições de trabalho de uma grande cadeia de supermercados serem formadas não por trabalhadores, mas por indivíduos contratados a agências de trabalho temporário para cumprirem os protestos entoando cânticos enquanto empunham cartazes reivindicativos; também acerca do facto desses temporários serem retribuídos nas mesmas condições dos tais trabalhadores da tal cadeia, os quais não se apresentam à manifestação para não verem os seus ordenados diminuídos.
O sindicalista que nada nega, diz abertamente, após muitas hesitações, que não sabe “o que é que deve responder” às questões do (convenhamos) pseudo-jornalista do programa.
É possível ser-se tão imberbe? É possível, aquilo? É!


Madrugada de segunda-feira, 11 de Setembro de 2010 Socorrendo-se da imagem e voz do velho actor respeitado, sorridente, em anúncio publicitário na TV a grande empresa de telecomunicações, faz saber que é a melhor, “porque é a que mais cumpre o que promete”. Como se algumas promessas não o fossem, verdadeiramente. E tal como o actor, o pagode aceita e ri.
Estes são tempos cegos e não há sequer zarolho que nos salve disto.


Madrugada de quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 No jogo de hoje em que a selecção portuguesa ganhou por sofrível “um-três” à Islândia, país –economicamente depauperado e que protesta ao som das panelas de cozinha batidas na rua pelos seus cidadãos aos governantes –, o rapaz, talvez o mais brilhante de todos a seguir ao nosso mais-que-tudo do futebol luso, foi bem o paradigma deste país que esvazia as suas energias e inteligência como balão furado.
Bem-apessoado, galã de meninas, foi já dado como caso de sucesso, exemplo do jovem proveniente de bairro social que singrou na sua arte à conquista do mundo. Mas não concordo. O verdadeiro êxito pessoal não se consegue através dos contratos milionários que apenas serão, porventura, o efeito; consegue-se, sim, colocando em jogo na vida, a honestidade, o rigor e a probidade. O talento com que nascemos tem de ser utilizado de forma positiva, construindo-nos, assim, ao longo de tudo. Mas ele perdeu-se em volteios, simulações, e eu fico a perguntar o que não alcançaria, e outrossim a sua equipa, se toda aquela inteligência e recortes técnicos fossem postos ao serviço de um desempenho íntegro, limpo de subterfúgios.
Tão bons somos na arte do fingimento, mas tão maus para com a verdade. A desportiva, ou outra qualquer.


Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010 “Estive com Deus e com o Diabo. Ambos lutaram por mim, mas eu agarrei a mão boa”. Foram estas as palavras de um dos primeiros mineiros a ser resgatado da mina chilena que sofreu colapso em Agosto passado, soterrando-os.
No dia 13 de Outubro, dia de Nossa Senhora, os trinta e três mineiros começaram a chegar à superfície, ao ritmo de meia em meia hora (33 em 33 minutos?). Também continha 33 caracteres, a primeira mensagem enviada para o exterior, logo que as comunicações entre a superfície e a bolsa de confinamento, a 700 metros de profundidade foram tornadas possíveis.
Com toda esta numerologia, relacionada com o surgimento da Mãe aos pastorinhos em Fátima e a idade adulta do Cristo, todos chegaram vivos e bem, de saúde física e mental.

Sobre o fenómeno destes dois meses de confinamento do grupo que reagiu sempre positivamente, dos impactos físicos e psicológicos, das inerentes descompensações e da forma como compensaram, a Medicina está interessada, a Psicologia também e até está a investigação espacial. Os técnicos das áreas investigam e discutem (devem fazê-lo, aliás), mas a resposta estará bem mais próxima do que a formulação de hipóteses científicas poderia admitir. O sempre católico Chile compreende bem esta força dos seus mais esforçados, porventura dos economicamente e até educacionalmente mais débeis, que labutam esforçadamente todos os dias do mês de trabalho, erigindo os seus lares, criando as suas famílias. A energia destes trabalhadores em paupérrimas condições materiais, condições essas que, por pouco, não os matou a todos, adveio e advém da força da Fé. Todos o afirmaram. Todos, sem excepção.
33 os dias de perfuração.
33 o número de países alí representados por jornalistas. 
União (entre os homens), Esperança (na salvação) e Fé (em Deus), três sentimentos comuns no discurso religioso, permitiram àqueles trabalhadores, ao longo daqueles 69 dias indubitavelmente difíceis, confrontados com a forte possibilidade de morte, manterem a serenidade a que assistimos ao longo destes  dois meses.
Quais psicologias, qual carapuça?!
Estes três sentimentos apenas que, dizemos nós, foram verdadeiro “remédio santo”.

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