sexta-feira, 25 de maio de 2012



Madrugada de segunda-feira, 24 de Maio de 2010 Cumprindo a regra da rega a trinta baldes de dois em dois dias, nestes dias de calor, com ciclismo, ginástica forçada, levantamento e transporte de pesos, a par dos crosses citadinos e campestres, tudo incrementando a minha forma física (“Pareces uma estátua”, diz-me ela), abalanço-me na leitura d”O Verde e do Vermelho” travando a sua velocidade, para que dure mais tempo, até porque a fome devoradora faz-me ultrapassar ideias e conceitos desta obra de tão poucas páginas que folheio pensando sempre que apenas li metade.
E que deliciosa leitura, que encanto de palavras, que narrativa tão elevada e, simultaneamente, sem qualquer parcimónia. Quem diria que um presidente do Conselho de Administração de uma Sociedade Portuguesa de Autores seria tão sublime artista?


Madrugada de terça-feira, 25 de Maio de 2010 Sonhamos para podermos pensar o que não vivemos de dia. Por isso é muito mau sonhar demasiado; e pior não sonhar.
Faria livros dos meus sonhos. Pena mesmo porque cada vez recordo menos, com o tudo e o quase todo a ficar nos esconsos do cérebro a aguardar a próxima vez. Muitas dessas vezes, anos depois, com um encadeamento perfeito numa linha que une o fio de vidas sonhadas. E quantas vezes mantenho a ficção, para me dar conta dessas apenas meses, e até anos, depois da primeira aventura com o joão-pestana?
Sempre soube explicar os meus sonhos, algo de que me sinto prazeiroso. É muito esclarecedor, no mínimo.
Faria obras literárias, ensaios psicológicos, dos meus onirismos; pelas narrativas, pelas intrigas, pela fantasia e pelo surrealismo mas, o que mais me encanta, é o seu grau de pormenor. Mas desta vez até nem foi o caso.
Ontem sonhei aquilo que, por diversas vezes, ao longo da minha vida, ouvia outros contar. Pela  primeira vez fui iniciado em algo religioso numa cenografia tardia no sonho depois muito não-sei-o-quê. Dou comigo numa igreja obscurecida, plena de gente devota, como dos últimos de uma fila em que todos vestiam bata comprida apenas aberta nos braços, pescoço e pernas, circulando entre as pessoas que rezavam e nos observavam. A cor clara da vestimenta é claramente iniciática, assim como a sua simplicidade.
A dada altura todos atenderam à nossa passagem entre eles e deram-nos a comer algo como que folhas negras, ressequidas, que se quebravam. Essas podiam ser recebidas nas mãos para serem levadas à boca, postas directamente na boca tais hóstias, ou, até, passadas directamente dos lábios dos que estavam para os nossos. Lembro-me que recebi desta última forma pelo menos por duas vezes, de mulheres idosas.
Havia carinho e uma atitude de todos estarem habituados a receber (novos membros, presumo) naquele ritual, que não lhes parecia demasiado excepcional. Comigo passou-se o oposto, pois sentia que aquele não seria o meu lugar, pelo menos ainda, e estranhei terem-mo permitido. Mas obedeci com contrição ao momento, que me deixou um laivo de sabor a descanso do espírito. É bom quererem-nos.
Sei, dentro de grande forma, porque é que este sono aconteceu. Tem tudo a ver com a minha “entrada” na igreja, colocando-me como parte da estrutura religiosa, quando aceito colaborar com a sua imprensa. O sonho pareceu-me dizer que está tudo bem e que sou mais merecedor dessa união do que posso pensar.

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terça-feira, 22 de maio de 2012


Madrugada de sexta-feira, 21 de Maio de 2010 Os banqueiros deste país, reunidos, conferenciam a propósito do Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) levado a cabo pelo Governo. No fim, falam à Comunicação Social. Dizem que “os portugueses terão de baixar o nível de vida”. Pois, os portugueses. Eles não. São os donos do dinheiro e, esse, não conhece fronteiras…


Madrugada de domingo, 23 de Maio de 2010 Fim d”O Livro das Almas”, de Glenn Cooper no dia de ontem. Leitura atabalhoada da minha parte, mas com bons momentos. Fica-me o registo destes tempos de incerteza e perplexidades onde, tal como noutros anteriores, o Homem busca as respostas às dúvidas do presente, no passado. Mas como a progressão histórica é helicoidal, algo se acrescenta sempre à teoria circular. Neste tempo, junta-se o conhecimento sistemático, científico. Mas as dúvidas e as incertezas, essas, são sempre as mesmas.
Hoje comecei, de José Jorge Letria, “O Vermelho e o Verde”, “um intenso fresco narrativa cuja acção decorre entre 1 de Fevereiro de 1908, dia do Regicídio, e o fim do Verão de 1918, ano da gripe espanhola, do fim da Primeira Guerra Mundial e do assassinato de Sidónio Pais, na Estação do Rossio”. Diz ainda, porque vale a pena transcrever, “confrontam-se ideias e personalidades, afectos e memórias, sonhos e desaires, republicanos e monárquicos, pais e filhos, e ainda modos distintos e conflituantes de pensar Portugal”.
Neste momento li as primeiras quatro páginas. Foram um encanto. Mas devia ser assim. O escritor também o é para as crianças.

Soube hoje que a progenitora está de braço ao peito. Foi operada ao ombro esquerdo(?), parece que se formou um osso onde não devia estar. Há pouco mais de um ano, foi o progenitor, devido a queda, mas aí, os médicos detectaram a falta de osso onde devia haver. Está visto para onde foi…

Escrevo primeiro sobre os meus livros. Depois das moléstias dos outros. Neste caso, talvez não esteja certo.

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sábado, 12 de maio de 2012


Madrugada de terça-feira, 18 de Maio de 2010 Por entre os escolhos da vida, uma ligadura no tornozelo direito tenta segurar os sobre-esforços necessários ao preenchimento interior, para que o corpo não vacile neste cumprimento da alma. Outra me falta, no joelho do mesmo membro e que torcicola também doendo, a aguentar aquele lá de baixo.
Das hortícolas e dos infindáveis baldes e regadores, dos quilómetros percorridos a pé na cidade, acima e abaixo, repetindo lugares, cruzando percursos, os sinais dos excessos a ficarem inscritos no corpo, há já tantos anos, sempre fugindo da colocação de uma ligadura, para não facilitar a segunda e depois a terceira, talvez. Mas hoje não. Estou cansado e a insistência da dor, que vai e vem, pede-me o descanso do aperto. Assim previno o cimabaixo do dia seguinte, manhã no campo e tarde na cidade, com noite dentro da Redacção, a fazer serão.


Madrugada de quarta-feira, 19 de Maio de 2010 Está feito, não tinha saída! Hoje, por comum acordo com o pároco da área das instalações da Redacção, oficializei a minha ligação formal à Igreja Católica, da maneira que podia e sabia (e que escolhi). Tornei-me publicista no seu jornal de paróquia. Escrever o quê? Assuntos “introspectivos”, disse eu. “O que quiser”(es, disse ele).
Seja o que Deus quiser! Eu, quero que sejam “As Reflexões de Pater Calvus”.
                                                            

Madrugada de quinta-feira, 20 de Maio de 2010 Chegados ontem e ontem folheados, os quarto e quinto volumes da colecção Osprey, pego hoje n”O Grande Assalto Pára-Quedista Nazi”, a pioneira intervenção com emprego de tropas aerotransportadas. Foi em Creta a Maio de 1941, quando as derrotadas tropas britânicas ajudadas por tropas coloniais venderam cara a derrota infligindo pesadas baixas aos alemães.

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sexta-feira, 4 de maio de 2012


Madrugada de sexta-feira, 14 de Maio de 2010 Leio “O Livro das Almas”. Absolutamente loucos, estes americanos. Só mesmo esses cretinos para imaginarem uma história daquelas (“A Biblioteca da Morte”), com a Inglaterra a dispensar semelhante livraria para protecção, ou para o que quer que fosse, a esses doidivanas, ou a outros quaisquer.
A Inglaterra!...


Madrugada de sábado, 15 de Maio de 2010 Debaixo da poalha, fiz três saídas para colocar a edição deste mês nas bancas, com boa recompensa nas vendas do número do mês anterior. Em final de dia, a última negociação de uma magnífica secretária em carvalho, em estilo, que me ficará por um terço do seu preço original. Já madrugada dentro, o visionamento de duas horas de um documentário magnífico, “Jean Gabin Intime”.
Há muitas formas de uma pessoa enriquecer e todas elas boas.


Madrugada de segunda-feira, 17 de Maio de 2010 Em dias quentes de sol, água do meu corpo na vestidura, água do poço nas hortas. Não há meio de fugir! Os rebentos, nascidos e criados, quase todos já, precisam que os dessesdente e a urgência de o fazer é maior do que tudo o resto. Depois de dois sóis estou lá caído sempre, terra dentro; a esta ou àquela hora, mas estou, incessantemente, com mãos que engrossam, ossos que rangem, sempre me fortalecendo enquanto os tons verdes ficam mais fortes, espessados, avolumados. As alfaces estendem-se umas sobre as outras, fazendo apertado manto. O brócolo, ora firme, ora curvado, cobrem-nas, escuros. As ervilhas sobem, já mais compridas que eu. O cebolo firma-se, como que em parada. A meloa e o melão lutam para viver, ainda estreantes, depois do frio dos dias. A abóbora (lá “cabaça”) surpreende aqui, ali, acolá e acoli, pensava eu que não chegariam. O limoeiro reagiu ao fogo, o pau da macieira é agora novelo de flor, a tangerineira rebenta a todas as direcções, a oliveira renasce coberta de pontos verdes.
Dou-lhes tanto de mim, quero que sejam tanto… e quanto do que lhes quero não será da fome dos outros rebentos?

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