Madrugada de segunda-feira, 24 de Maio de 2010 – Cumprindo a regra da rega a trinta baldes de dois em dois dias, nestes dias de calor, com ciclismo, ginástica forçada, levantamento e transporte de pesos, a par dos crosses citadinos e campestres, tudo incrementando a minha forma física (“Pareces uma estátua”, diz-me ela), abalanço-me na leitura d”O Verde e do Vermelho” travando a sua velocidade, para que dure mais tempo, até porque a fome devoradora faz-me ultrapassar ideias e conceitos desta obra de tão poucas páginas que folheio pensando sempre que apenas li metade.
E que deliciosa leitura, que encanto de palavras, que narrativa tão elevada e, simultaneamente, sem qualquer parcimónia. Quem diria que um presidente do Conselho de Administração de uma Sociedade Portuguesa de Autores seria tão sublime artista?
Madrugada de terça-feira, 25 de Maio de 2010 – Sonhamos para podermos pensar o que não vivemos de dia. Por isso é muito mau sonhar demasiado; e pior não sonhar.
Faria livros dos meus sonhos. Pena mesmo porque cada vez recordo menos, com o tudo e o quase todo a ficar nos esconsos do cérebro a aguardar a próxima vez. Muitas dessas vezes, anos depois, com um encadeamento perfeito numa linha que une o fio de vidas sonhadas. E quantas vezes mantenho a ficção, para me dar conta dessas apenas meses, e até anos, depois da primeira aventura com o joão-pestana?
Sempre soube explicar os meus sonhos, algo de que me sinto prazeiroso. É muito esclarecedor, no mínimo.
Faria obras literárias, ensaios psicológicos, dos meus onirismos; pelas narrativas, pelas intrigas, pela fantasia e pelo surrealismo mas, o que mais me encanta, é o seu grau de pormenor. Mas desta vez até nem foi o caso.
Ontem sonhei aquilo que, por diversas vezes, ao longo da minha vida, ouvia outros contar. Pela primeira vez fui iniciado em algo religioso numa cenografia tardia no sonho depois muito não-sei-o-quê. Dou comigo numa igreja obscurecida, plena de gente devota, como dos últimos de uma fila em que todos vestiam bata comprida apenas aberta nos braços, pescoço e pernas, circulando entre as pessoas que rezavam e nos observavam. A cor clara da vestimenta é claramente iniciática, assim como a sua simplicidade.
A dada altura todos atenderam à nossa passagem entre eles e deram-nos a comer algo como que folhas negras, ressequidas, que se quebravam. Essas podiam ser recebidas nas mãos para serem levadas à boca, postas directamente na boca tais hóstias, ou, até, passadas directamente dos lábios dos que estavam para os nossos. Lembro-me que recebi desta última forma pelo menos por duas vezes, de mulheres idosas.
Havia carinho e uma atitude de todos estarem habituados a receber (novos membros, presumo) naquele ritual, que não lhes parecia demasiado excepcional. Comigo passou-se o oposto, pois sentia que aquele não seria o meu lugar, pelo menos ainda, e estranhei terem-mo permitido. Mas obedeci com contrição ao momento, que me deixou um laivo de sabor a descanso do espírito. É bom quererem-nos.
Sei, dentro de grande forma, porque é que este sono aconteceu. Tem tudo a ver com a minha “entrada” na igreja, colocando-me como parte da estrutura religiosa, quando aceito colaborar com a sua imprensa. O sonho pareceu-me dizer que está tudo bem e que sou mais merecedor dessa união do que posso pensar.
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