domingo, 30 de outubro de 2011

  
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Madrugada (idem) de sexta-feira, 9 de Abril de 2010 Entrou na Redacção esbaforida, mas não apenas pelo atraso costumeiro relativamente à hora marcada. Tinha discutido com o colega por causa da sentença da psicóloga condenada a três anos de prisão efectiva por ter atropelado mortalmente duas mulheres e estropiado uma terceira, em Lisboa, nas últimas horas da madrugada do verão do ano passado.
Três anos de prisão efectiva! Inaudito na Justiça portuguesa, algo que aguardo há um ror de anos como medida de justiça de um país que quero, verdadeiramente, desenvolvido. O país de brandos costumes de gente que mata na estrada e logo encolhe os ombros dizendo que se tratou de um acidente que poderia ter acontecido a qualquer um…
Do alto dos seus 24 anos, diz-me que é um exagero, que os peões são muito atrevidos, que, que…
Começo por lhe explicar que está a reagir assim porque, condutora, logo se projectou na personagem representada pela assassina do volante em causa. Assenta que sim. Acrescento que não precisa, que não matou ninguém e que, agora, com esta sentença será uma condutora ainda mais cuidadosa.
Logo adianto que a condenada foi alvo de um processo justo usufruindo de todas as condições de defesa e que, à excepção do próprio advogado, não houve ninguém que a defendesse a nível de testemunhas do acidente, antes pelo contrário.
Continuo dizendo – apesar de alguma dose de especulação porque não vi e não assisti ao julgamento –, que se tratava de alguém que àquela hora vinha da boa vida, enquanto as vítimas se dirigiam para o trabalho; que conduzia a 122 quilómetros por hora, numa zona cuja velocidade permitida era de trinta; que os atropelamentos de que fora considerada única responsável aconteceram em cima de uma passadeira com semáforos, naquele fatídico momento com luzes vermelha para os automobilistas e verdes para os peões; que entrou em contradição por diversas vezes nas suas declarações; que chegou ao cúmulo de mentir em tribunal afirmando que o seu automóvel tinha ganhado vida; que ao longo do processo do julgamento nunca revelou arrependimento; no entanto, evidenciou frieza perante o sofrimento de terceiros; entrava sistematicamente no edifício do tribunal de óculos escuros e lenço a tapar o rosto, assim dando relevo a algum sentimento de culpa; por fim, que entrou nesta última sessão desacompanhada, não teve um familiar ou amigo(a) que a acompanhasse.
Não lhe disse que, no que me toca, esta psicóloga é uma gaja qualquer que não merece qualquer contemplação.
Ficou um pouco mais convencida, mas muito longe de totalmente.
No fim acrescentei, em modo de conclusão, que a Lei serve para defender os mais fracos e que entre alguém que atravessa, a pé, uma passadeira e um condutor protegido dentro do seu automóvel, à face dessa Lei considerado objecto potencialmente perigoso, não há dúvida de quem é o mais forte, neste caso.
Não deixei ainda de relembrar os últimos casos semelhantes e mais mediáticos ocorridos em Portugal, quer devidos a condutores quer embriagados, quer simplesmente irresponsáveis, sem que tenha havido qualquer pena de prisão efectiva para os assassinos em quatro rodas.
Conclui dizendo que, com este acórdão, aconteceu um corte epistemológico na Justiça portuguesa, que Portugal subiu mais um pequeno degrau na longa escada do desenvolvimento e que, por princípio, haverá menos hipóteses de quem quer que seja me atropelar na via pública. Ou a ela.

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sábado, 22 de outubro de 2011


Madrugada (idem) de quinta-feira, 8 de Abril de 2010 Não me contenho e, a algumas páginas lidas, que não são as meia-dúzia que há pouco referia em conversa conjugal, mas já 44, rendo-me às evidências postas a nu por Saramago e muitos autores estrangeiros, acerca da Lisboa pré-terramoto e o seu povo. Algo que cheguei até a detectar em páginas de obras da Fina d’Armada e muito bem descrito no livro de Peter Prince, “Adam, O Espertalhão (do inglês original, “Adam Runaway”) – se bem que mantendo alguma distância porque desconfio sempre dos autores ingleses no que toca às suas peculiares opiniões sobre os povos não britânicos – e que evidencia a vida de luxo e opulência desmesurada da capital setecentista portuguesa.
Mas não é isso o que mais me impressiona. É a sujeição alarve e irracional aos poderes inquisitoriais, sujeição sempre autorizada, por inerência, e que alienava este povéu de Deus transformado em armada de mesquinhos demónios perante todos os outros, perante si próprios. Até descrições encontrei sobre como os lisboetas procuravam, entre abalos sísmicos, salvar as estátuas do Santo António de Lisboa antes mesmo de tentarem salvar os próprios filhos. Aqueles mesmos cidadãos que enchiam o Terreiro do Paço, em festa, para assistirem aos autos-de-fé.
Deus escreve mesmo direito, por linhas tortas. A um de Novembro de 1755, pelas 9h40 da manhã, dá-se o primeiro sismo de três, quando mais de meia Lisboa se encontra no interior das igrejas e capelas, esperando a tarde para a queima dos hereges. Intencional ou não, há sempre uma mensagem subjacente a este pormenor. Não sei se será exagerado chamar àquela Lisboa fanática e perdulária, uma Sodoma, ou Gomorra, dos tempos modernos e, como tal, castigada. Se calhar, o próprio tsunami de há poucos anos que varreu parte da Insulíndia não deixará de ter a ver com a própria região, que entre outras actividades é uma das zonas mundiais de maior turismo sexual, famosa também pela profusão de pedofilia…
Enfim, divago, bem sei.

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sábado, 15 de outubro de 2011


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Feriado da Páscoa, segunda-feira, 5 de Abril de 2010 Depois do Natal que o não foi verdadeiramente, na realidade pela primeira vez apesar dos outros bem tristes que o antecederam, agora, uma não-Páscoa, acompanhada de coisa nenhuma.
Terei tempo para voltar a isto, mas não agora. Apenas o registo porque tão importante como aquilo que passa e que é o que não passa devendo passar.

 
Madrugada (sempre) de quarta-feira, 7 de Abril de 2010 Ontem o término da lição Ian Fleming; logo outro volume desvirgo: “Terra”, no título original do geólogo britânico Richard Hamblyn.
Do primeiro fica-me muito: a experiência aventurosa, “verdadeira”, corporizada em letra de forma do mundo feio, ignóbil e necessário das tensões políticas que transmutam a natureza idealmente boa do Homem, em que continuo a acreditar; a assaz mordacidade como moratória das fraquezas humanas; a atitude boccaciana num quase não te rales que nos abre o devaneio perante as complexidades da vida…
Outras análises também me seriam possíveis, mas infindáveis. Por isso uma menção à escrita óbvia de um aristocrata que não deixa de tudo engavetar, bem arrumadinho, na observação fleumática tão britânica, quer se refira a raças, a costumes, a culturas, hábitos, usos e práticas, com uma frieza nada indiferente, apresentando sem qualquer dúvida tipologias, o que será, hoje em dia, pouco aceitável.
Durante as leituras dos quatro volumes em questão, nunca deixei de pensar no primeiro Tintim, de Hergé, cuja aventura passada na Rússia foi completamente obliterada pela intelectualidade europeia do séc. XX, porque politicamente incorrecta à luz das ideologias de esquerda da época e que dominaram a intelectualidade. Felizmente, a obra foi recuperada e bem, digo-o também. Afinal, era tudo verdade.
Nunca, tanto como hoje, a marcação de diferenças foi tão importante, de resto como o preconceito. É ele que nos orienta na vida. Polícia bom, ladrão mau, é óbvio, tão simples como isto - E como andaríamos nesta vida se o não soubéssemos? Não foi o conhecimento a priori que determinou a esfericidade da Terra pelos primeiros sábios gregos?
Contudo, digo-o eu, foi neste esbatimento das diferenças – das raças, por exemplo, assim como aquele dos ritos de passagem –, que o desnorte das sociedades modernas se instalou abrindo caminho às hordas de jovens que, agora, procuram vincar cada vez mais as diferenças com arremedos de heranças de natureza tribal, onde profusamente se instalam piercings, tatuagens, cortes de cabelo escaganifobéticos, como diríamos em miúdos, numa espécie de caminho inevitável da nossa própria existência: procurar saber quem somos!

E depois de Fleming, “Terra”, com os capítulos correspondentes aos “quatro elementos: A Terra, o Ar, o Fogo e a Água. O primeiro, o terramoto de Lisboa de 1755. Porque raciocino a ler e a escrever, sempre voltarei a esta postila que hoje escrevo (o meu dia é feito entre as 12 e as 4 horas) mas, por agora, nota à confirmação de uma Lisboa pré-terramoto dobrada ao poder dos padres inquisitoriais, mas não só, de multidões raivosas, risonhas e ululantes face aos autos-de-fé, numa Lisboa faustosa, mas miserável. Já não tenho qualquer dúvida, pena é que tenham sido os autores anglo-saxónicos quem me revelou a terrífica verdade.
(mal)Bendito Marquês de Pombal!

Não será isto o mais interessante deste livro que agora afagarei entre mãos e dedos nos próximos dias. Outra coisa será, sinto-o no peito e abdómen, agita-me mãos e braços…

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sábado, 8 de outubro de 2011


Quinta-feira, 1 de Abril de 2010 No dia das mentiras, quinta-feira dita “de cinzas”. Mentira, mesmo, porque poucos se lembram ou importam, um pouco à medida da moral sexual da igreja, ou os já findados discursos de várias horas de Fidel de Castro ao seu povo adormecido.
Neste tempo Pascal, mais próximo me sinto da profunda compunção pela prisão e sanguinário assassínio de Jesus de Cristo, do que da alegria na sua ressurreição. Não é o que quero, mas é o que aqueles que me estão mais próximo do coração me trazem. Pelos actos sim, mas sobretudo pelas omissões, piores que qualquer acção directa e inequívoca com que me pudessem alguma vez ter agastado.

Entretanto, renovo a leitura na continuidade do imaginário das aventuras de 007. Já com alguma nostalgia, termino os contos do “Quantum Of Solace” e pego no último livro da colecção, ”Vive e Deixa Morrer”, cujo título parece fazer-me um discurso directo: segue a tua vida e deixa estar o que não pode ou não quer ser movido. É! De facto, sempre que os tento puxar mais parecem enterrar-se no lodo, como que me obrigando ao esforço enquanto mais se atolam. Nesta luta sem tréguas, esmoreço perante todo o quebranto a que presencio; parecem não perceber da lama que não os deixa respirar, enquanto quase sorriem no estertor do afogamento. Não sei se já desisti, se bem que ainda me revolte; não sei o que serei quando deixar de os ver, definitivamente afundados.


Sábado, 3 de Abril de 2010 Depois de uma tarde inteira de trabalho na Redacção, a montar a edição deste mês da revista, à noite vejo uma (pretensa) versão cinematográfica da Lenda da Excalibur, de um tipo qualquer que, diz a sinopse é “uma impressionante e espectacular versão ‘em Excalibur’, realizada pelo visionário John Boorman”. Não poderá haver maior ridículo acerca da, com certeza, mais bela das lendas medievais. Impressionante, é como os americanos conseguem estragar tudo. Impressionante, de facto!

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sábado, 1 de outubro de 2011


Madrugada de terça-feira, 30 de Março de 2010 A pena chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona-me. Hoje, pouso-a… mas só depois disto.


Terça-feira, 30 de Março de 2010 Encontrei-a na rua vinda de Inglaterra. Há muito tempo (o suficiente para não me recordar) que não nos víamos. Parou do outro lado da estrada que atravessei, feliz e forte. Aproximámo-nos. Ela insegura, expressão muito vincada; eu, sorridente e afectivo. Beijámo-nos e perguntei por ela, toquei-lhe muito, ela sensibilizou-se ainda mais, mantendo ainda assim a estatuária corporal; contudo, hesitante na atitude, apesar de não vacilar, não tem ânimo para ter a coragem de o revelar.
“Estás velha”, disse-lhe. “O fumo conserva”, replica. Sorrio o mesmo sorriso que lhe levei inicialmente, enquanto penso que o fumo conserva coisas mortas. Sinto que parte do seu espírito está assim. Creio que já partiu para a grande ilha um pouco nesse estado, há muitos anos.
Está coberta de maquilhagem, para além do aceitável, perdeu as gorduras faciais que emprestavam juventude, cobre vários dedos de anéis de todas as formas e feitios, com ouro à mistura e pulseiras várias, mormente os empréstimos pedidos por telefone a Portugal. Usa as unhas com o mesmo corte de muitas que conheci na rua, revela tatuagens e veste como se para a noite em restaurante de renome. Será assim pelas grandes bretanhas, ainda não é dentro dela, acho que nunca o será verdadeiramente.
Não gosto de quase tudo, mas sorrio, apesar de sempre preocupado por dentro.
Pergunto-lhe pelo filho, diz-me que está a tirar umas férias dele e do marido. Tergiversa desde o princípio, o que é uma pena e dá na sinceridade que procuro mas já não sabe ter. Obriga-se então a perguntar pela minha I., pede-me que lhe dê os seus cumprimentos ao que respondo que com certeza, enquanto penso que teria a obrigação de o fazer pessoalmente.
O mesmo sorriso continua na minha expressão de menino. Não o faço propositadamente, é mesmo assim pois, apesar de tudo, a felicidade do momento nunca me abandona; ela não tem a mesma sorte que eu, permanecendo a asserção pétrea do rosto. Despeço-me dizendo-lhe para telefonar para irmos tomar um café, esboça um nim, pouco à vontade consigo própria enquanto paira sobre a lama da incerteza que o momento lhe cola.
Despeço-me sem lhe perguntar quando se vai embora de regresso ao desemprego e ao bairro “Shameless”, pois não vale a pena. Não telefonará apesar das saudades inevitáveis, da mesma forma que não me deu nota desta sua vinda, agora já de há dois dias. Este encontro foi puramente casual, o que é uma pena, como é óbvio.

Telefonou-me do Porto onde estuda em busca de Novas Oportunidades, literalmente. Um estado de vigília, que foi o primeiro, assustou-o… e teve medo de adormecer esta noite. Sou esteio firme dos seus sustos, desde pequenino; continuarei a sê-lo por mais comprido que esteja. Gostaria de ter sentido assim tanta firmeza.

Família: chegam-se-me e logo não durmo.

Disse que pousei a pena. Não pude. Mas não porque me chama, envolve, acaricia, inebria, vicia e condiciona. Apenas porque e tão-somente me sustenta!

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