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Madrugada (idem) de sexta-feira, 9 de Abril de 2010 – Entrou na Redacção esbaforida, mas não apenas pelo atraso costumeiro relativamente à hora marcada. Tinha discutido com o colega por causa da sentença da psicóloga condenada a três anos de prisão efectiva por ter atropelado mortalmente duas mulheres e estropiado uma terceira, em Lisboa, nas últimas horas da madrugada do verão do ano passado.
Três anos de prisão efectiva! Inaudito na Justiça portuguesa, algo que aguardo há um ror de anos como medida de justiça de um país que quero, verdadeiramente, desenvolvido. O país de brandos costumes de gente que mata na estrada e logo encolhe os ombros dizendo que se tratou de um acidente que poderia ter acontecido a qualquer um…
Do alto dos seus 24 anos, diz-me que é um exagero, que os peões são muito atrevidos, que, que…
Começo por lhe explicar que está a reagir assim porque, condutora, logo se projectou na personagem representada pela assassina do volante em causa. Assenta que sim. Acrescento que não precisa, que não matou ninguém e que, agora, com esta sentença será uma condutora ainda mais cuidadosa.
Logo adianto que a condenada foi alvo de um processo justo usufruindo de todas as condições de defesa e que, à excepção do próprio advogado, não houve ninguém que a defendesse a nível de testemunhas do acidente, antes pelo contrário.
Continuo dizendo – apesar de alguma dose de especulação porque não vi e não assisti ao julgamento –, que se tratava de alguém que àquela hora vinha da boa vida, enquanto as vítimas se dirigiam para o trabalho; que conduzia a 122 quilómetros por hora, numa zona cuja velocidade permitida era de trinta; que os atropelamentos de que fora considerada única responsável aconteceram em cima de uma passadeira com semáforos, naquele fatídico momento com luzes vermelha para os automobilistas e verdes para os peões; que entrou em contradição por diversas vezes nas suas declarações; que chegou ao cúmulo de mentir em tribunal afirmando que o seu automóvel tinha ganhado vida; que ao longo do processo do julgamento nunca revelou arrependimento; no entanto, evidenciou frieza perante o sofrimento de terceiros; entrava sistematicamente no edifício do tribunal de óculos escuros e lenço a tapar o rosto, assim dando relevo a algum sentimento de culpa; por fim, que entrou nesta última sessão desacompanhada, não teve um familiar ou amigo(a) que a acompanhasse.
Não lhe disse que, no que me toca, esta psicóloga é uma gaja qualquer que não merece qualquer contemplação.
Ficou um pouco mais convencida, mas muito longe de totalmente.
No fim acrescentei, em modo de conclusão, que a Lei serve para defender os mais fracos e que entre alguém que atravessa, a pé, uma passadeira e um condutor protegido dentro do seu automóvel, à face dessa Lei considerado objecto potencialmente perigoso, não há dúvida de quem é o mais forte, neste caso.
Não deixei ainda de relembrar os últimos casos semelhantes e mais mediáticos ocorridos em Portugal, quer devidos a condutores quer embriagados, quer simplesmente irresponsáveis, sem que tenha havido qualquer pena de prisão efectiva para os assassinos em quatro rodas.
Conclui dizendo que, com este acórdão, aconteceu um corte epistemológico na Justiça portuguesa, que Portugal subiu mais um pequeno degrau na longa escada do desenvolvimento e que, por princípio, haverá menos hipóteses de quem quer que seja me atropelar na via pública. Ou a ela.
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