Meadela, quarta-feira, 3 de Junho de 2009 – São eleições no Benfica, outrora símbolo de liberdade. Mas nunca foi. Isso vê-se nestes tempos ditos de libertação. A humana necessidade da prova da força do todo-poderoso salvador, do condicionamento do próximo, encontramo-la no futebol. No presidente do clube (querido e eleito como salvador), ou no jogador que decide jogos.
Conhecemos bem a culpa do nosso silêncio. Por isso os líderes que eternizamos. Não temos coragem de os sacar, porque sabemos que não somos melhores.
Meadela, terça-feira, 9 de Junho de 2009 – Publicidade – Ouço os empresários negar o anúncio porque já deram “para muitas festas de freguesia”. Não vejo estratégia nem alcance. Dizem-me: “A minha publicidade faço-a eu”. Tenho-os visto cair como tordos, a fecharem o estaminé. São sempre os primeiros a cair.
Educação – Farto de gente mal-educada! Confundem as minhas boas maneiras com subserviência. A esses, desde há uns anos para cá, tenho-os tratado a pontapé. E resulta!
Nervoso – Tem o nervosismo de quem dorme pouco e mal. Aliás, como eu.
Meadela, 15 de Junho de 2009 – Feira do Livro de Viana do Castelo. Também “da Lusofonia”. Recordo palavras antigas do Mia Couto, algo como “a Democracia não é o melhor para África”; do Pepetela, em 2003, cá em Viana, referindo-se à corrupção em Angola, dizendo que a essa, no seu país, não passava de “gasosa”. Há dois anos atrás, o Luandino Vieira arrasava em público o seu velho professor primário, cá em Portugal, por o ter reprovado., nesta mesma feira. Recordo a facilidade com que dizem estas coisas todas… e a facilidade com que batemos palmas.
Meadela, quarta-feira, 24 de Junho de 2009 – Leio a mais recente obra publicada de Orlando Ferreira Barros e enlevo-me em literatura. Meteu a minha revista no enredo a propósito de um episódio narrativo com a graça trágico-cómica deste tipo de textos. O homem é literato, de facto, um brinca-na-areia da palavra mas verdadeiro craque destas artes da escrevência. Até naqueles remates ao lado que só os campeões fazem. E às vezes é cada tiro ao lado com a baliza aberta!...
Nesta e noutras obras. Aqui, na noveleta que leio, chama à ministra da Educação “senhora ministra lisboeta das escolas e outros estabelecimentos afins”, mas a senhora até nasceu cá para cima… e lá em cima mesmo: é de Monção…; noutra ocasião, num romance muito bem construído, chamou à pedra do quadro-negro, basalto (eh, eh!). Mas até isso seria necessário para compor bem o estatuto de escritor à séria.
Nestes dois últimos anos de muito livro americano lido e que me têm feito perguntar acerca do destino (trágico) da literatura, conforto-me com o brincar fácil com as palavras que este antigo professor coloca, desfiadas nos seus escritos. Escreve-se bem, sim senhor, apesar dos “sei lás” que vendem às dezenas de milhar por este país fora e dos tais escritores “que escrevem aquilo que um lapão podia escrever”.