domingo, 23 de janeiro de 2011

Meadela, quarta-feira, 3 de Junho de 2009 – São eleições no Benfica, outrora símbolo de liberdade. Mas nunca foi. Isso vê-se nestes tempos ditos de libertação. A humana necessidade da prova da força do todo-poderoso salvador, do condicionamento do próximo, encontramo-la no futebol. No presidente do clube (querido e eleito como salvador), ou no jogador que decide jogos.
Conhecemos bem a culpa do nosso silêncio. Por isso os líderes que eternizamos. Não temos coragem de os sacar, porque sabemos que não somos melhores.


Meadela, terça-feira, 9 de Junho de 2009 – Publicidade – Ouço os empresários negar o anúncio porque já deram “para muitas festas de freguesia”. Não vejo estratégia nem alcance. Dizem-me: “A minha publicidade faço-a eu”. Tenho-os visto cair como tordos, a fecharem o estaminé. São sempre os primeiros a cair.

Educação – Farto de gente mal-educada! Confundem as minhas boas maneiras com subserviência. A esses, desde há uns anos para cá, tenho-os tratado a pontapé. E resulta!

Nervoso – Tem o nervosismo de quem dorme pouco e mal. Aliás, como eu.


Meadela, 15 de Junho de 2009 – Feira do Livro de Viana do Castelo. Também “da Lusofonia”. Recordo palavras antigas do Mia Couto, algo como “a Democracia não é o melhor para África”; do Pepetela, em 2003, cá em Viana, referindo-se à corrupção em Angola, dizendo que a essa, no seu país, não passava de “gasosa”. Há dois anos atrás, o Luandino Vieira arrasava em público o seu velho professor primário, cá em Portugal, por o ter reprovado., nesta mesma feira. Recordo a facilidade com que dizem estas coisas todas… e a facilidade com que batemos palmas.


Meadela, quarta-feira, 24 de Junho de 2009 – Leio a mais recente obra publicada de Orlando Ferreira Barros e enlevo-me em literatura. Meteu a minha revista no enredo a propósito de um episódio narrativo com a graça trágico-cómica deste tipo de textos. O homem é literato, de facto, um brinca-na-areia da palavra mas verdadeiro craque destas artes da escrevência. Até naqueles remates ao lado que só os campeões fazem. E às vezes é cada tiro ao lado com a baliza aberta!...
Nesta e noutras obras. Aqui, na noveleta que leio, chama à ministra da Educação “senhora ministra lisboeta das escolas e outros estabelecimentos afins”, mas a senhora até nasceu cá para cima… e lá em cima mesmo: é de Monção…; noutra ocasião, num romance muito bem construído, chamou à pedra do quadro-negro, basalto (eh, eh!). Mas até isso seria necessário para compor bem o estatuto de escritor à séria.
Nestes dois últimos anos de muito livro americano lido e que me têm feito perguntar acerca do destino (trágico) da literatura, conforto-me com o brincar fácil com as palavras que este antigo professor coloca, desfiadas nos seus escritos. Escreve-se bem, sim senhor, apesar dos “sei lás” que vendem às dezenas de milhar por este país fora e dos tais escritores “que escrevem aquilo que um lapão podia escrever”.

sábado, 15 de janeiro de 2011


Meadela, terça-feira, 17 de Março de 2009 – Continua o julgamento de H. Fritzel, o “monstro” austríaco, que sequestrou e manteve relações sexuais com a filha durante décadas. Teve filhos-netos, incinerou outro que não resistiu, em bebé. Soube-se entretanto, que também manteve a sua própria mãe sequestrada durante vinte anos, até à sua morte. Uma verdadeira tragédia edgaralanpoeana acerca da qual me pergunto acerca da nossa própria responsabilidade acerca disto.


Meadela, terça-feira, 24 de Março de 2009 – Neoliberalismo, “terceira via” socialista (outra forma do primeiro) e quejandos, não tenho dúvida, estão mortos e só falta enterrá-los, de vez.
Como um vulcão irrompante, o que está a acontecer nos últimos anos no laboratório social que é a América do Sul, surge numa nova e perfeita simbiose lançando as primeiras réstias de luz sobre a Humanidade: a união entre os ideais do moderado socialismo democrático, uma profunda fé cristã, e o ambientalismo, tão mais necessário a cada corte de uma árvore – o Homem entendido consigo, com Deus e com a Terra. Será aí que residirá a Nova Ordem do Mundo, que perdurará por milénios, nas mais diversas formas.


Meadela, terça-feira, 25 de Março de 2009 – Quanto mais leio mais me assusto. Há cada vez mais formas do saber que têm sido obliteradas por este presente. E não quero morrer em pânico!


Meadela, quinta-feira, 21 de Maio de 2009 – Hoje morreu o João Bénard da Costa, de 74 anos, presidente da Cinemateca Portuguesa nos últimos trinta anos.
Nos últimos vinte viveu serenamente inquieto. Era um Homem que conhecia bem este Portugal de que era um dos meus Mestres. Se calhar, aparou-lhe demasiados golpes. Mas também os deu.


Viana do Castelo, por Abril de 2009 – Este é um país de gente que não chega a horas. E sem se chegar a horas não há organização, condição sine quo non para a formação de um Estado responsável, íntegro e integral. Não há outra saída para a sobrevivência autónoma – tomar consciência dos problemas colectivos e individuais (até porque se tornarão, a prazo, colectivos), identificá-los, referi-los atribuindo o nome aos bois, chamar-lhes cornudos em voz alta, se necessário for.
Esse será o princípio.


Por Maio (creio), na Redacção, no final da entrevista com o escritor Orlando Ferreira Barros – Falávamos das coisas e das pessoas. Afirma-me: “Você é um optimista!”. Respondi-lhe que não, que, isso, talvez houvesse por aqui numa forma simples de "fleumatismo"; porque as pessoas, pela força das coisas, são cada vez menos ignorantes mas (cada vez) mais incultas e que por aqui há, ainda, muita consciência de que o atrevimento será cada vez mais descarado. Por isso é que é preciso ter paciência; daí, eventualmente, a sua leitura do optimismo. Mas não, na verdade. Apenas coloco a fasquia muito baixa, no que toca aos outros.
Desiludo-me menos…

sábado, 8 de janeiro de 2011



Meadela, quarta-feira, 11 de Março de 2009 – Cinco anos passaram sobre os atentados do 11 de Março de 2004 em Espanha e ninguém se lembrou, uma trágica data onde a direita política espanhola falhou clamorosamente, enquanto, de facto, a maioria silenciosa provou que o é mesmo.
Nos telejornais portugueses imperam os “Magalhães” com erros gramaticais a eito. Foram distribuídos nas escolas assim mesmo, quase ninguém deu por esses e os poucos que o fizeram só deram conta quando era tarde de mais. Não tiveram coragem de falar mais cedo, é o que é. Perpetua-se a persistente coragem dos ignorantes ante a recorrente cobardia dos sapientes.


Meadela, quinta-feira, 12 de Março de 2009 – Respondo a emails. Disse-lhe que devia ser exigente consigo própria porque tinha esse direito. Mas que não o fosse com os outros, porque não o tem. Tem vinte e poucos, mas fala como alguém de sessenta do tempo de quando eu tinha dez. Tem muita missa, que procura na TV ao domingo de manhã (diz que é perigoso ir à rua), mas falta-lhe a Filosofia e a Ciência. Também a História. É de Literaturas…


Viana-Porto, sexta-feira, 13 de Março de 2009 – Vejo jovens estudantes
muito novas e pedantes a subir para o autocarro, usando óculos de sol ao estilo da Paris Hilton. À Paris Hilton! A subirem para o autocarro!

E nisto recordo as tentativas de conversa com a alma paterna, vãs, apesar da mútua tentativa, quero acreditar. O problema é que nunca conseguiu ler o Proust, desistiu de o fazer, enquanto eu continuo a tentar.


Meadela, sábado, 14 de Março de 2009 – Continua a surpreender-me o número de pessoas que não vê problema algum em fazer uso de escovas de dentes de outros. Por mais cuidados que tenham em lavar os seus, não posso deixar de pensar que não têm, de facto, verdadeira noção do que é a higiene pessoal.


Meadela, domingo, 15 de Março de 2009 – Sobre o amar ou não amar, pergunto-me acerca do que fazer se não relativamente àqueles com quem estamos. Ilusão desiludida após desiludida ilusão, volto a iludir-me.

Num programa diário a anteceder o jornal da noite, num canal de TV, na rubrica “Se eu mandasse”, diz um distribuidor, vinte e qualquer coisa anos: - “Se eu mandasse? Juntava Portugal e Espanha!”.
Não, não será um novo Filipe II ou os novos aristocratas que vão, de vez, entregar este país às Espanhas, novamente, como profetizava o Torga. Vai ser o Povo que ele tanto amava, porque cada vez mais abúlico e inculto, como ele descrevia.