sexta-feira, 27 de julho de 2012


Madrugada de sexta-feira, 11 de Junho de 2010 Em grande medida sinto como que se vivesse sozinho, no meio de todos. Não tenho paciência para o que podem querer de mim. A felicidade completa, só no retiro dos Hortos, entre a lama ou o pó, ou no recolhimento da Redacção fechada, com as notícias ou o classicismo da música que passa na RDP2 a embalar-me. Se bem que esteja sempre presente na minha comunidade, este inexorável afastamento da sociedade normativa cada vez mais amplo se agiganta, numa ascese cada vez mais compenetrada e convencida, como que um deboche de solidão compensatório de todas as obrigações que me envolvem – relativo a vizinhos, conhecidos, amigos, família. Não sei onde residirão as culpas, se há, sequer, quaisquer responsabilidades a definir, mas há uma constante que me diz que é pelo melhor.
Cumpro-me no viço das folhas das nabiças que me enchem o prato de sopa verde. A chuva que contínua vem vindo garante-me o descanso do conforto das hortas que me consomem em saudade enquanto percorro teclados cobrindo folhas brancas virtuais de textos com o diário, noticiários, poesia esquiva; leitura obrigatória de jornais regionais, breves incursões pelos nacionais, revistas de ocasião e os meus livros. Todos eles que me recobrem a pele, a alma e os sentidos, absorvendo-me todo enquanto a loucura dos outros me espreita na vã afã do meu descuido impossível. Estou atento, muito atento.
Na verdade a cobrir a desdita, vou sorrindo complacente, por vezes escarninhamente, das raivas que vejo cultivadas, crescentes a corroer os hospedeiros que julgaram aí ter uma arma contra o próximo. Deixei de tentar explicar puxando ao bom caminho. Agora na postura vou zombando da contracção alheia, aceitando o quanto se trata de destino escolhido. Assinalo a rábia dos distraídos como ressarcimento do exagero do prazer desmedido, das irresponsabilidades havidas e provocadas por menos um livro lido, menos uma aula assistida, menos um conselho seguido, enfim, menos trabalho em ser.
Não advogo autos de fé. Mas creio que a esta altura a purga é necessária; aliás, está a acontecer.

Lá fora a chuva cai. Espero ardentemente novo dia depois da insónia. A escrita ou a lavra, tanto faz. Busco o caminho da perfeição entre sinuosas escusas que ultrapasso no passo célere e determinado. Sinto-me forte enquanto o meu corpo vence o matagal que estala à minha passagem.
Sou passo indestrutível!

Este Kerouac inunda-me. Partilho a matriz. Desprezo-lhe a intensidade das fraquezas, contudo, pergunto-me se teria a coragem de assim as abraçar. Permito-me julgar que se resumia a uma brilhante loucura.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012


Madrugada de quinta-feira, 10 de Junho de 2010 Passam os dias sem que me saia um cêntimo do bolso. Quer dizer, para café, lanches, jornais, bebidas, cinema e afins.
No que toca ao tabaco, reduzi o fumo para quase metade do que já foi e compro em Espanha, o que me faz ficar o preço uns furos bem abaixo do que gastaria a comprar no comércio nacional; sobre isso, o facto de fumar mais de metade dos cigarros enrolados à mão. O que fumo em quatro dias custa-me três euros e meio; seriam quase oito se fumasse português e quase quinze se ainda fumasse o que já fumei.
As bebidas acabaram há muito, desde que me votei a abstémio.
Jornais, tenho todos os que quero; das permutas e onde estão, que é em todo o lado.
Lanches, faço-os em casa, na Redacção ou no campo, recusando-me a entregar esse dinheiro a outros.
Cinema, já quase só quando o rei faz anos; o bilhete está obscenamente caro e tenho muitas gravações à minha espera no “Meo”.
Enfim, com o que já poupei nisso nestes dois, três anos, engordei a carteira de acções, fiz um PPR, nunca tive tanto numerário no cofre e tenho feito todas as benfeitorias e compras de material e equipamento para os Hortos; também reequipei a Redacção de material informático e meti móveis novos. Já penso novamente em férias

mas…

neste momento, neste país, em cada quatro cheques que são passados, três não tem cobertura.
Ando sempre ao contrário. No tempo que este país (pensava que) tinha dinheiro, eu não sabia onde estava o meu. Agora encontrei-o.


Noite Dia de Portugal (!), pois…. Hoje pagámos a prestação da dívida soberana a uma taxa de juro superior à da Grécia. Em 1872, o Eça escrevia:

“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, a Grécia e Portugal.”

                                                          , texto depois reunido n”Uma Campanha Alegre”.

Fica-me das comemorações deste ano a entrada em parada dos Antigos Combatentes, pela primeira vez em democracia. Desta ainda tão imberbe, por aqui se vê.

Por fim, porque não apetece escrever. A. retirou-se do “retiro”, quem diria?... Mas, talvez, de todos só eu me surpreenda, quis acreditar noutra coisa. A sua mãe, conivente com estas irresponsabilidades, como sempre, tão fraca como ele ou ainda mais.
Temo que fraquejem até ao fim.

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sexta-feira, 13 de julho de 2012


Madrugada de quarta-feira, 9 de Junho de 2010 De Robert Kirchubel termino hoje “Operação Barbarossa I”, já o quinto volume da colecção encomendada. No fechar de página, rememoro a especial curiosidade que me assolou a lição, pelo início do episódio cuja leitura, pensei, seria algo molesto. Mas não, engoli as páginas melhor percebendo o avanço alemão pela primavera, verão, outono e início de inverno ao longo de várias frentes. Percebi melhor a importância do envolvimento romeno e até o húngaro, de que nunca se fala.
Com os anos, a “mãe Rússia” começa-se-me a fazer entender melhor, e quando neles não nos vejo anos, admita-se. Por paradoxal que seja, a coragem e pertinácia, a par da capacidade de sofrimento. Lê-se coisas que fazem lembrar episódios das invasões franceses neste meu país.
Percebe-se, fundamentalmente, que a história que hoje nos é mostrada, muito mais do que aqui há uns poucos anos atrás, é cada vez mais americana, com todos os perigos daí advindos.

Findada essa, até à chegada de nova remessa, inicio uma leitura que há muito resta na mesinha de cabeceira (outros livros estão por outros sítios), uma biografia de Jack Kerouac por Yves Buin. Na verdade, a minha estreia metódica na “geração Beat” e que será a minha entrada oficial no universo “beatnik”. Espero muito, depois direi.

(Hoje voltei à sala de cinema. O que me chamou a atenção, muito depois de vistas as apresentações, foi a humildade inscrita no estilo do actor principal, em entrevista, aqui há uns dias. Mas acaba sempre por ser a mesma espiga. Cada filme que agora surge, cada “novidade”, não vai muito mais longe para além de uma solução de soluções. É verdade, sempre um pouco mais ao havido. Mas esse pouco mais é verdadeiramente muito curto)

Antes da sessão do cinema, mais umas páginas do prefácio do “Jesus Cristo” de Ratzinger. Até para mim é extraordinário como umas poucas linhas me fazem escrever tantas. Irão para “as Confissões de Pater Calvus”, provavelmente. Já lá estão mais destas. E continuarão a moer no subconsciente enquanto adormeço embalado por esta chuva que surgiu a custar e agora ficou rainha dos ares deste dia, assim como da noite – impedindo o programado plantio dos tomates e mais algumas alfaces. E logo agora que tinha o motor de rega comprado, abóbora! Ah, estão a ficar enormes e fiquei sem espaço entre os regos!

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sexta-feira, 6 de julho de 2012


Madrugada de segunda-feira, 6 de Junho de 2010 Seis horas de campo e estou cada vez mais em forma. Quase já nem transpiro. Ergo mais de quarenta baldes de água a mais de quatro metros e passeio com dois regadores cheios, acima e abaixo e nem humedeço a pele. Hoje, depois das mais de seis horas de montagem e finalização da edição de Junho da revista, ontem. E as ervilhas continuam a surgir nos arbustos como num passe de magia. Não acabam, mais de uma centena de vagens colhidas de dois em dois dias!

À noitinha, passo na TV a gravação o programa “Parlamento”, a síntese e debate sobre os temas da semana, que acontece semanalmente na “2” da RTP. Em causa o encerramento de escolas primárias com menos de vinte e um alunos. Serão quinhentas e depois mais quatrocentas, um pouco por todo o país (com a tónica no interior), tudo até ao fim deste ano. As autarquias dizem ter sido apunhaladas nas costas pelo (des)Governo. Eu, estremeço.
Não acredito na justificação da “poupança”, nem da “melhor escola”. Não há nada melhor quando se arranca as crianças às suas famílias e às suas freguesias colocando-as nos actuais centros escolares sobrelotados onde falta todo o tipo de recursos humanos. Escolas de centros urbanos com cada vez menos professores e turmas de trinta alunos sem o necessário apoio de pessoal auxiliar.
Mas pior ainda, para além do facto de arrancar meninos e meninas de seis aos onze anos às seis da manhã à cama e devolvê-las ao lar familiar até doze horas depois, é a imposição deste modelo único de escola que tudo engole, vomitando, depois, um cada vez maior insucesso escolar e pior insucesso educativo, porque mais diáfano. Alunos mais iguais num mundo cada vez menos diverso e, logo, com menores capacidades de resposta a um futuro cada vez mais incerto, onde a certeza é a de que tudo é cada vez mais inconstante e aleatório.
Aqueles meninos, que deixarão de saber revolver a terra, semear ervilhas e beber o leite da teta da vaca, de seis a onze anitos de idade, não deviam estar a pagar as recessões económicas dos poderosos do mundo e de políticos incompetentes, marcados a prazo.
Que mundo terei, quando me faltarem as forças?

Mas ninguém assiste à “2”. Estão a ver os telejornais com a chegada da selecção nacional de futebol à África do Sul. Movo-me com a recepção à chegada dos jovens futebolistas, mesmo na ponta sul daquela África desgraçada. É tão larga, a diáspora! O verde e o vermelho agita-se nas mãos das pessoas que dão as boas-vindas. Com um sabor a ambrósia no céu-da-boca, quase junto ao cérebro, logo amarga um pouco às perguntas destes jornalistas de pacotilha que se colocam a correr atrás dos putos chegados do autocarro (que já os não devem poder ver) e que de microfone avançam sobre a multidão enfileirada que acena. As questões colocadas são de uma indigência intelectual atroz: – “É um super-adepto?” berra o repórter a um paz de alma, feliz, com a chegada dos compatriotas, no meio da multidão ululante. – “Quê?”, pergunta sem conseguir ouvir. – “É um super-adepto?”. É, deve ser, coitado.
E pergunto-me sobre isto perante a minha própria vergonha, em assistir a tanta indigência mental.

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