Madrugada de sexta-feira, 11 de Junho de 2010 – Em grande medida sinto como que se vivesse sozinho, no meio de todos. Não tenho paciência para o que podem querer de mim. A felicidade completa, só no retiro dos Hortos, entre a lama ou o pó, ou no recolhimento da Redacção fechada, com as notícias ou o classicismo da música que passa na RDP2 a embalar-me. Se bem que esteja sempre presente na minha comunidade, este inexorável afastamento da sociedade normativa cada vez mais amplo se agiganta, numa ascese cada vez mais compenetrada e convencida, como que um deboche de solidão compensatório de todas as obrigações que me envolvem – relativo a vizinhos, conhecidos, amigos, família. Não sei onde residirão as culpas, se há, sequer, quaisquer responsabilidades a definir, mas há uma constante que me diz que é pelo melhor.
Cumpro-me no viço das folhas das nabiças que me enchem o prato de sopa verde. A chuva que contínua vem vindo garante-me o descanso do conforto das hortas que me consomem em saudade enquanto percorro teclados cobrindo folhas brancas virtuais de textos com o diário, noticiários, poesia esquiva; leitura obrigatória de jornais regionais, breves incursões pelos nacionais, revistas de ocasião e os meus livros. Todos eles que me recobrem a pele, a alma e os sentidos, absorvendo-me todo enquanto a loucura dos outros me espreita na vã afã do meu descuido impossível. Estou atento, muito atento.
Na verdade a cobrir a desdita, vou sorrindo complacente, por vezes escarninhamente, das raivas que vejo cultivadas, crescentes a corroer os hospedeiros que julgaram aí ter uma arma contra o próximo. Deixei de tentar explicar puxando ao bom caminho. Agora na postura vou zombando da contracção alheia, aceitando o quanto se trata de destino escolhido. Assinalo a rábia dos distraídos como ressarcimento do exagero do prazer desmedido, das irresponsabilidades havidas e provocadas por menos um livro lido, menos uma aula assistida, menos um conselho seguido, enfim, menos trabalho em ser.
Não advogo autos de fé. Mas creio que a esta altura a purga é necessária; aliás, está a acontecer.
Lá fora a chuva cai. Espero ardentemente novo dia depois da insónia. A escrita ou a lavra, tanto faz. Busco o caminho da perfeição entre sinuosas escusas que ultrapasso no passo célere e determinado. Sinto-me forte enquanto o meu corpo vence o matagal que estala à minha passagem.
Sou passo indestrutível!
Este Kerouac inunda-me. Partilho a matriz. Desprezo-lhe a intensidade das fraquezas, contudo, pergunto-me se teria a coragem de assim as abraçar. Permito-me julgar que se resumia a uma brilhante loucura.
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