sábado, 31 de dezembro de 2011



Segunda-feira (idem) de 19 de Abril de 2010 Todas as manhãs me custam. Sempre uma irritação profunda sem objecto específico, mas simultaneamente a tudo dirigida. Tudo me dói: a coluna, as costas, o pescoço; as pernas perras, o exterior dos braços, até aos dedos mindinhos das mãos, sem circulação. Um mal-estar psicológico que vê inimigos em qualquer brilho, em qualquer som. É como que se uma guerra me esperasse. Vencer o início do dia começa por isso com coragem, a seguir olhar de frente a sua claridade para que o cérebro permanentemente muito mal descansado comece a funcionar e só aí começo a engrenar, lentamente, até começar a conseguir algum embalo com algo no estômago para que possa receber o primeiro café do dia. Conquisto, a pulso, as primeiras duas horas do dia como que de uma escalada se tratasse. Depois, independentemente da forma como me corra a jorna diária, essa é feita de uma constante tomada de velocidade que só mesmo as primeiras horas da madrugada e o cansaço intrínseco me conseguem abrandar. E no entanto, recolho-me entre lençóis desejando viver o dia que se segue; e mormente o sono de insónia que já toma conta de mim, estupidificando-me, não desejo dormir querendo viver sem perder tempo. Também por isso o ritual destas páginas de agora, que encontram similares no passado longínquo ou no mais e menos recente. À mão ou à máquina, ou até apenas entre vilosidades cerebrais. Sempre me recordo de me fazer em letra de forma. Mas tenho de me ler com atenção ainda que não me possa levar ainda mais a sério.

Hoje o rapaz mais velho passou por cá, depois de meses. Algo alterado, mas a que acrescenta uma dose de auto-controlo, não vá eu corresponder reciprocamente.
Já não o incomodo por isso, ou por coisa nenhuma, não vale pena e, é óbvio, nunca teve qualquer resultado que verdadeiramente importe. Está fisicamente alterado. Diz que está mais gordo. Eu ter-lhe-ia respondido que está é mais inchado.
Sempre que tenho contactos com eles saio extremamente afectado. Quero-os muito mas de outra forma e não sei como tê-los assim: como estão. Como gostaria de os haver, para que se tivessem a si próprios.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Domingo (mesma mentira porque já madrugada do dia seguinte) de 18 de Abril de 2010 Hortos de tarde porque sempre que posso. Plantio de alfaces a aproveitar a terra tratada que sobrou do cebolo, o qual parece ter pegado bem. As mais antigas estão lindas e as couves de brócolos quase triplicaram de tamanho nestes últimos dias chuva. Muito compensador; e que não me falte a água.
Ainda sachar e mondar as hortas e a terra em torno das árvores, enquanto que, com a simplicidade dos néscios (claro que não!), vou falando com os vegetais. Nunca esquecerei as roseiras da minha moradia do Porto, quando da licenciatura, que secavam as flores quando vinha para Viana e floriam esplendidamente poucos dias após o meu regresso, facto que constava na vizinhança.
Na quietude das boas horas passadas nos Hortos, sob os protestos dos melros e a curiosidade – que, creio, já afectiva –, do pisco do costume, tanta reflexão sobre as coisas do mundo, porque lá é fácil pensar e o tempo que aí me passa esvaí-se sem que dê por isso, sendo sempre suficiente.

Na salvação deste trabalho de Deus, o pensamento refugia-se no choro do Papa quando se encontra as vítimas da pedofilia dos padres católicos, enquanto se desloca à Malta de S. Paulo; reflicto neste Vaticano há meses sob ataque e na grande Bíblia que namoro há uns anos na livraria do Centro Católico e que gostaria de adquirir.

Tanta coisa para fazer e tão pouco tempo. Nos Hortos o reencontro do meu equilíbrio, a consciência do que de mim é verdadeiro; e neste ficheiro Word o que pode me importa nos acontecidos do mundo. Contudo, sempre a dúvida acerca da correlação destes com aqueles todos que correm e, depois, a procura da razão autêntica. É o que me impele para os Hortos, se bem que sempre temendo que de fuga se trate. Mas creio que não no mau entendimento da expressão, pelo menos.

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