Segunda-feira (idem) de 19 de Abril de 2010 – Todas as manhãs me custam. Sempre uma irritação profunda sem objecto específico, mas simultaneamente a tudo dirigida. Tudo me dói: a coluna, as costas, o pescoço; as pernas perras, o exterior dos braços, até aos dedos mindinhos das mãos, sem circulação. Um mal-estar psicológico que vê inimigos em qualquer brilho, em qualquer som. É como que se uma guerra me esperasse. Vencer o início do dia começa por isso com coragem, a seguir olhar de frente a sua claridade para que o cérebro permanentemente muito mal descansado comece a funcionar e só aí começo a engrenar, lentamente, até começar a conseguir algum embalo com algo no estômago para que possa receber o primeiro café do dia. Conquisto, a pulso, as primeiras duas horas do dia como que de uma escalada se tratasse. Depois, independentemente da forma como me corra a jorna diária, essa é feita de uma constante tomada de velocidade que só mesmo as primeiras horas da madrugada e o cansaço intrínseco me conseguem abrandar. E no entanto, recolho-me entre lençóis desejando viver o dia que se segue; e mormente o sono de insónia que já toma conta de mim, estupidificando-me, não desejo dormir querendo viver sem perder tempo. Também por isso o ritual destas páginas de agora, que encontram similares no passado longínquo ou no mais e menos recente. À mão ou à máquina, ou até apenas entre vilosidades cerebrais. Sempre me recordo de me fazer em letra de forma. Mas tenho de me ler com atenção ainda que não me possa levar ainda mais a sério.
Hoje o rapaz mais velho passou por cá, depois de meses. Algo alterado, mas a que acrescenta uma dose de auto-controlo, não vá eu corresponder reciprocamente.
Já não o incomodo por isso, ou por coisa nenhuma, não vale pena e, é óbvio, nunca teve qualquer resultado que verdadeiramente importe. Está fisicamente alterado. Diz que está mais gordo. Eu ter-lhe-ia respondido que está é mais inchado.
Sempre que tenho contactos com eles saio extremamente afectado. Quero-os muito mas de outra forma e não sei como tê-los assim: como estão. Como gostaria de os haver, para que se tivessem a si próprios.
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