sexta-feira, 23 de setembro de 2011


Segunda-feira (mais ou menos) 3h00 de 29 de Março de 2010 Terminada a leitura do “Dr. No”, de Ian Fleming, o terceiro volume de quatro da colecção recebida da Contraponto, através da Distribuidora Bertrand, logo ataco a colecção de contos “Quantum Of Solace”. Depois do breve “Casino Royale”, uma literatura expurgada de quaisquer maneirismos, outro envolvimento literário neste “Dr. No”, a certificar-me dos dotes linguísticos do inglês amaneirado, então muito criticado pelo forte pendor narrativo em detrimento daquele descritivo. E nisto encontro um Bond muito humano, quase frágil, como não poderia deixar de ser num homem são saído da guerra, que pouco tem que ver com o personagem cinematográfico que admiro e sempre admirei. Essa afeição permanece com o progredir da leitura, cresce ainda mais e eleva-se porque o personagem baixado à terra dos homens.
As histórias curtas deste “Quantum” enlevam-me na sua simplicidade, quase contra a natura das narrativas elaboradas das películas. Só se assemelham nos títulos. Um inicial “Alvo em Movimento” que só necessita de uma estrada, uma árvore, um esconderijo de brincadeiras da criançada e um enredo pouco rebuscado; simples e directo. Depois, uma “Missão Ultra-secreta” que tipifica uma história pouco burlesca de vingança, baixando tão simplesmente o romantismo das missões dos agentes secretos ao assassinato retaliatório.
Mas nestes contos onde ora viajo, descortino já a narração implacável das agonias e que tanto impressionaram os leitores e críticos coevos; porque habituados às doces mortes dos westerns hollywoodescos, sem sangue, rápidas, mortes fáceis em ecrãs, quando as verdadeiras mortes, tal como as descritas em Fleming, são lentas e dolorosas, como que antecipando os grandes planos dos “westerns spaghettis”.
No entanto, nem de perto nem de longe pornográficas como aquelas que se lêem hoje em dia em alguns autores consagrados. Lembro-me no imediato várias agonias oníricas, assim como as mortes dissecadas ao pormenor em Dan Brown, até ao fim fazendo acreditar que há uma réstia de esperança e que nunca se cumpre.

 Mas…

Leituras à parte, hoje passeei. Depois de um fim de tarde domingueiro de jornalísticas escritas, com lua-cheia que condicionou uma vez mais o comportamento da companhia, por isso alterada, saio em direcção ao centro a anteceder a hora de jantar.
Dia brilhante este, maravilhoso, daqueles que se seguem à chuva e surgem sem vento para além da aragem vinda do monte de Santa Luzia. Nestes dias de Março as gatas vagueiam, ou empoleiradas nos muros antigos que ainda não soçobraram, prenhes, melosas e de olhares pungentes, fitam-nos nas ruas esvaziadas de gentes. Rua da Bandeira, avenida Conde da Carreira, um ou outro automóvel, apenas, a que forço a paragem à presença da passadeira. Quedo-me apreciativo das obras da nova rua projectada à rua Nova de S.º Bento, passo a do Gontim, avenida Rocha Páris, quase nenhuns transeuntes, a agora pedonal Mateus Barbosa, subo a Sacadura Cabral e estou na praça da República, despida.
Sei que há futebol, que muitos já jantam, mas será igual daqui a uma ou duas horas, exceptuando as hordas costumeiras de jovens desgarrados, alienados de serem e que são e o são cada vez mais. A cidade está morta, porque já ninguém acredita nisto, aqui ou noutro lugar qualquer. Nem os cafés estão abertos.
Se podia haver dúvidas desta agonia tão real, essas só esmorecem dentro do centro comercial onde vou espreitar a fauna local. Mas mesmo aí só os comes-e-bebes mantém alguma actividade digna de nota. Muitos espaços encerrados cobertos com taipais decorados com fotos da Viana antiga… plena da gente do tempo. Comércios encerrados é o que é, nem sequer os costumeiros dísticos anunciadores da próxima inauguração. Outras marcas instalaram-se em espaços mais pequenos, mais baratos, portanto; outras, inclusivamente, saíram para as ruas de Viana incorporando o comércio dito tradicional.
O centro comercial, numa cidade, constitui o super-predador da estrutura comercial da urbe. Tal como na vida selvagem, o biótipo mais saudável e forte é aquele que mais predadores consegue suportar e fazer sobreviver, alimentando-o com toda a cadeia abaixo. Este está doente. Adoeceu pouco menos de um ano após a abertura e a chaga dos espaços vazios alastra mês após mês, com as algumas das salas de cinema, em invariáveis vezes, a nem sequer darem início às sessões. Isto não contando com aqueles espaços que foram mudando a gerência de ano a ano, quando não a cada seis meses.
Finalmente as pessoas perceberam que não podia ser, que não se pode suportar tanto. Talvez agora possamos começar muita coisa de novo, depois de percebermos a felicidade de não ter e de não dever.

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