Madrugada de sexta-feira, 23 de Julho de 2010 – Com uma profunda pena, arranquei à terra a última das alfaces da temporada. Vai Julho alto e as nabiças já escasseiam, o brócolo já chegou ao fim e as cebolas já estão todas encaixotadas. Aguo agora as abóboras pouco mais que desenxabidas e luto pela suculência de menos de uma vintena de couves lombardas, que me parecem prometer, mas que a vizinha há muito me anunciou costumarem sair muito rijas.
Agosto está à porta e anseio já pelas culturas de inverno. Nova semeadura de nabiça e estreia à couve penca, para provar no Natal.
Prosseguirei para já a limpeza do terreno, talvez a recuperação de partes de muros e, se nada mo impedir, este fim-de-semana coloco a primeiro uso o aparelho com o herbicida, pois os silvados das bouças vizinhas caem outra vez cobrindo as pedras arruinadas.
Com alguma sorte, a bomba de água avariada irá amanhã para o representante, segundo promessa de amigo com quase um mês de palavra dada, a ver vamos.
Madrugada de sábado, 24 de Julho de 2010 – Vivemos tempos interessantes. Há dois dias um alto dignitário da igreja portuguesa veio a terreiro insurgir-se contra os responsáveis financeiros pela crise económica que atravessamos. Com um ar de quem, sem a batina, e faria bem passar por mais um banqueiro, falou das culpas dos bancos neste frenesim de créditos distribuídos a torto e a direito, de uma forma que muito poucos se atreveram a fazer recentemente; da condenação dos mais vulneráveis às tentações do crédito fácil, concedido por quem deveria ter mais responsabilidade na sua atribuição. E acabou por apelar à revolta social.
No dia de ontem, na resposta ao torvelinho do jornalismo, desafiou os detentores de cargos políticos, eles também no rol das suas acusações, a cederem vinte por cento dos seus rendimentos às organizações que trabalham para os mais necessitados.
Hoje responderam os políticos, da esquerda à direita. Que a caridade é com cada um, que a doutrina católica ela própria diz que a mão esquerda não vê o que faz a direita, que têm a consciência tranquila no que toca às suas contribuições caridosas.
É fácil e óbvio dizer que o sacerdote não tem base de sustentação no seu apelo, porque é assim mesmo. Mas, digo eu, até que enfim alguém da hierarquia mais notória, que não um simples pároco, dá finalmente um murro na mesa exigindo um “basta” à horda de bancos e instituições financeiras que ainda há bem pouco, nas suas próprias palavras, lhe haviam oferecido uma quantia exorbitante para que fosse de férias… a pagar depois.
Ainda bem que há padres com eles no sítio.
No meio disto tudo os resultados aos “testes de stress” feitos a noventa e um bancos europeus, que constituem dois terços da estrutura bancária da Europa. Os quatro maiorres bancos auditados revelaram resultados positivos. Falharam os testes cinco caixas de aforro espanholas, um banco grego (admira ter só sido um) e um banco… alemão.
Isto é Deus a escrever direito por linhas tortas.
Madrugada de domingo, 25 de Julho de 2010 – As coisas simples são mais belas, porque mais sozinhas. Compõe-se um quadro com uma só flor, representa-se uma flor com somente uma pétala, monta-se uma película apenas a duas cores…
Esta madrugada mais filme do mui brasileiro Canal Europa seleccionado da colecção gravada; “A Segunda Noite de Núpcias”, filme italiano escorreito em fímbrias de humor mediterrânico, assim racontando o dramatismo da vida do pós-guerra. Um postal de vidas e, como tal, pequenas lições de crescimento deste género que, de tão humano, quase animal. A simplicidade complicada colocada na vida de um simplório que explicou porque todos os outros são menos ainda, ainda que entendendo-os melhor sem reciprocidade versa.
Descanso assim vendo e conforto-me comigo, conformando-me com o sono a meu lado, amando-o(a) até. Nunca quero perder de vista o quanto tenho e sou, só por tê-la.
Madrugada de terça-feira, 27 de Julho de 2010 – Depois dos “testes de stress aos bancos”, que visavam aferir das capacidades de resposta perante cenários de crise financeira, com pouca liquidez na banca, onde provámos estar melhor que os bancos alemães, seguem-se os “testes de mercado”. Aguardo curiosamente os resultados.
Depois dos primeiros dados saídos a público, a bolsa continuou a afundar e só hoje houve recuperação digna de nota. Mesmo em melhores condições, não conseguimos, sozinhos, inverter a insegurança dos mercados dentro do país. Farto de continuar à espera dos outros, sem gente que saiba fazer sair disto.
Que se danem todos! Num país com a capital mais quente da Europa, a mais de quarenta graus centígrados, com previsão parecida para os próximos dez dias, pelo menos, refugio-me nos Hortos para aguar a abóbora e a nabiça. Regador acima, regador abaixo, já perto da hora do jantar com a temperatura a secar tudo à minha volta, e a mim mesmo, ouço a vizinha a vituperar o marido enquanto dá ordens para sacar a batata da terra. E que linda que ela é! A branca e a vermelha. Fico-me pelo amor às minhas cabaças tenras e desenxabidas, de alimentar porcinos, donde I. faz sopa que muito aprecio. A nabiça resiste, sempre. E eu também, debaixo do sol de fim de dia a parecer meio-dia, ou agora aqui, a escorrer água no esforço do laptop apoiado nas pernas flectidas enquanto escorro água pelo pescoço debaixo desta imensa barba de peregrino, a ser no próximo mês de Agosto à Santiago Composteliana deste Ano Xacobeo.
Iremos.
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