Madrugada de terça-feira, 20 de Julho de 2010 – Hoje anoto, porque voltei a”O Meu Outro Diário”. Por lá me fico, o tempo não dá para tudo e ainda nem iniciei as minhas leituras de cama.
Madrugada de quarta-feira, 21 de Julho de 2010 – Traduzo bem a felicidade desta fase da minha vida, nestes últimos anos, no tempo que consigo arrancar aos dias para estar nos Hortos a regar, um imperativo de respeito à vida que optamos por criar; também aos momentos que cumpro de leitura lúdica e que transformo em horas diárias.
No primeiro caso, nunca falhei mais longe do que numas poucas folhas de alface queimadas, por algumas horas de atraso no regador despejado; no segundo, no máximo à custa de horas de sono, retemperadas pela calma de disciplina a que me impus na última década da minha vida, talvez já mais um pouco.
Tudo isto a coberto de uma estrutura de conforto que só o deixa de ser por escolha própria. Se menos sou ou estou do que fui ou estive, é porque a alteridade, e como tal o mundo, se têm vindo a degradar. Mas na redução a que assisto, contas feitas, só me sinto engrandecer.
Em fim de noite assisto com I. a um episódio da nova temporada do “Vai Tudo Abaixo”, em canal por cab (porque aquilo não caberia num canal emitido em antena aberta). De sobrolho franzido, leio um aviso prévio ainda antes do genérico:
“Neste programa não molestámos qualquer animal racional ou irracional.
Todos os intervenientes autorizaram o uso das imagens recolhidas.
Por favor, não confundam ridicularizar estereótipos com a realidade.
Afinal isto é apenas televisão.”
Num país verdadeiramente livre, a produção deste tipo de programas não sentiria a necessidade de perder tempo com isto.
Está a acontecer em todo lado. A secção de “apanhados” fotográficos do jornal regional de maior expansão cá no distrito também já coloca uma nota de conteúdo com a mesma intenção. Isto nada mais é que um pedido prévio de desculpas. É muito mau que programas de crítica humorística e, especialmente, a imprensa, se veja na necessidade de se auto-censurar desta forma, porque há outras, que vão apenas de encontro ao equilíbrio das coisas.
É isto um sinal dos tempos, com o maior partido da oposição ao Governo a preconizar uma Presidência com poderes para levar a cabo governos de “iniciativa presidencial”, aumento dos mandatos de deputados e PR, fim da gratuitidade do Ensino, de uma Saúde tendencialmente gratuita, entre outras pérolas que nos fariam regredir mais de trinta anos, depois de tudo isto ter falhado nos próprios EUA.
Mas não são estes tontos da direita que me assustam. Como não sou nem serei candidato político e posso dizer o que me apetecer, digo que o que temo é a permanente ignorância deste povo que bem pode colocar energúmenos que defendem este tipo de ideário civilizacionalmente retrógrado (e perfeitamente assassino) no poder. É que, verdadeiramente, nunca tive confiança alguma no “eleitorado”. Como poderia ter?
Quanto ao “Vai Tudo Abaixo”, continua brilhante. Diz um dos actores da rubrica “Os Homens da Luta” enquanto acompanham uma maratona de luta contra a fome: – “Contra a fome o que eu faço é comer, pá!”. É difícil encontrar algo tão simples e tão piadético.
Madrugada de quinta-feira, 22 de Julho de 2010 – Sempre senti uma ponta de vexame nos outros ao longo de grande parte da minha vida. Por uma razão muito simples: nunca deixei de cumprir as horas marcadas e, nos poucos casos que isso não aconteceu, sempre por motivos de força maior, dei nota disso mesmo atempadamente. Não os outros e, por isso, eu mais que eles.
É um problema nacional deste país que nem horários consegue cumprir. Seja para o trabalho, quer para o lazer. O Eça descreveu muito bem este sortilégio pátrio com cada empregado de escritório a medir a sua importância relativamente ao colega do lado no tempo de atraso ao encontro. Quanto mais atrasado, mais importante seria o seu patrão.
Mas hoje ultrapassei todas as marcas. Na verdade, o caso até nem foi o atraso propriamente dito. Na verdade, esqueci-me completamente das gravações prévias ao programa de rádio “30 Dias”, que mantenho desde Abril do ano passado na (...) e só o telefonema do radialista responsável pela parte técnica me alertou, passava meia hora daquela acordada.
Não me lembro de alguma vez ter tido uma coisa destas. Aborrece-me particularmente que tenha acontecido, pois esta coisa da assumpção de compromissos e do respeito pela hora marcada é parâmetro essencial no meu ser-estar.
Poderia dizer que tudo se arranjou, que a coisa se fez (que se arranjou e ficou feita), mas problemas nas definições do programa informático acabaram por pesar ainda mais no atraso das gravações e foi mais o tempo de espera à custa disso mesmo do que o que ficou perdido pelo meu esquecimento. Por isso as minhas desmesuradas desculpas foram menos sinceras no fim do que no princípio; até porque ninguém se pareceu importar muito pelo material que não estava nas condições de afinação requeridas, desde o técnico ao director-geral da estação.
Às tantas, o mais estranho nisto tudo foi o meu cuidado com as desculpas apresentadas. Nem duvido, até.
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