Madrugada de domingo, 04 de Julho de 2010 – Antes deste último jogo dos “quartos”, tinha dito que ou havia um golo precoce, de qualquer uma das partes, ou o filme da partida seria uma Espanha favorita que teria de passar grande parte do tempo a procurar desmontar um Paraguai que não chegou até aqui por acaso.
Depois, tudo dependeria de quem tivesse maior presença mental dentro de campo. Se do conjunto bem articulado do Paraguai, ou do brilhantismo colectivo desta Castela/Navarra que gosta de jogar com a bola nos pés.
Assim foi. A coisa poderia ter dado para ambos os lados e os dois penaltis falhados por ambas as turmas foram prova disso mesmo. Na verdade, um jogo que poderia ter ido a prolongamento com decisão posterior nas marcas de grande penalidade, acabou por sê-lo ainda antes disso dessa mesma forma. Num terceiro penalti, os espanhóis já não falharam.
Vai às meias-finais a Espanha porque foi mais madura. Mereceu-o.
Já noite dentro, arrumo “Operação Barbarossa II – para Leninegrado” na prateleira, onde esperavam os cinco primeiros da colecção. Gosto de tudo. De os receber, abrir, tocar, cheirar, folhear, fruir letras e imagens, odores, até à colocação no sítio e do seu restar quieto, mas que, para mim, vibra.
Amanhã tenho Hortos, no mínimo para rega. Os chuveiros inesperados de sexta-feira deram-me 24 horas de descanso, permitiram-me a leitura de jornais e revistas, a correcção de algumas notas, revisão de provas, mas senti saudades.
Mais um domingo com quatro conjuntos vestidos diferentes. Para a ida de bicicleta, para o trabalho no campo, na estadia em casa e para a saída em fim de tarde. Esta última, talvez.
Madrugada de segunda-feira, 05 de Julho de 2010 – A canícula chegou em força. Na ida para os Hortos, já tarde para efeito de rega, quase ninguém em lado nenhum. Eu e o suor. Na chegada, as alfaces mirradas, sedentas, recozidas, plantadas na terra como ovos estrelados, escuras. Banhei-as todas. Se não fosse do sol, a morte seria por afogamento, mas uma hora depois respondiam com novo viço, graças aos céus e ao esforço de braços, ombros e costas, porque a rega, a mais de trinta graus à sombra, foi feita a partir das 14, não continuasse a traquitana da bomba de água sem se querer mexer, mormente os meus esforços, mais contidos hoje porque a parte direita do corpo estoirada quarta-feira passada a dar ao cabo de arranque… que não arrancou nada.
Teria desistido hoje, ao fim de dois meses de colheita de ervilhas, da respectiva aguada, mas a oferenda de mais sessenta ervilhas no topo da ervilheira transformada quase em palha, a par de bruxuleantes novas flores, fizeram-me protelar a desistência. Pareciam pedir-me o líquido e eu acabei por anuir. Deram-me muito, mormente a vagens fibrosas, mas já a vizinha me dissera que, este ano, “não esteve bom para as ervilhas”.
No passeio de regresso, debaixo do calor, até calafrios senti nas palmas e dedos das mãos, depois dos mais de trinta baldes tirados do fundo do poço, cada vez com menos água. Coração ou coluna? Não sei, mas sei que fiz o que poucos conseguiriam fazer, ao longo de mais de duas horas a subir dezenas de baldes e a transportar, campo fora, dois regadores cheios.
Tenho comido daquele terreno com o suor do rosto… e dos braços, tronco, pernas e belas dores de cabeça em fim de dia combatidas à força de paracetamol. Ufa, ufa!
Uma nota interessante nesta madrugada dentro: o nosso Cristiano Ronaldo vai ser pai. Está encontrada a explicação de tanto desvario. Que se recomponha depressa e seja melhor do que foi. No campo e fora dele, principalmente.
Madrugada de terça-feira, 06 de Julho de 2010 – Os dias não me chegam. As horas são curtas, por mais que por vezes os minutos pareçam pequenas eternidades. Tanto para fazer. O dia de amanhã começará e já estará meio gasto. Não tenho alternativas a não ser prosseguir com a sensação de tudo acumular à minha frente, arrastando o que defronte mim está com a vontade louca de fazer de braços abertos, tudo abarcando mas que me esmaga, até que, parece-me, não saio do sítio e a vida corre fora de mim. Gigante plantado me sinto.
Já não são os dias e as horas, mas as semanas e os meses que perpassam; é verão com metade do país a alerta laranja e ainda há pouco saí do inverno. Sou hoje sem primavera e amanhã estarei nos fins de tarde de Outono antevendo o inverno que me trará o Natal, comigo a pensar na roupa de verão e na praia onde não cheguei a estar.
Do dia de hoje, feito das rotinas havidas dos meses desde o início do ano, fica-me o banco inglês que me tenta vigarizar, o português que deixou de ser caixa económica na imitação dos caminhos do primeiro, o centro regional de segurança social que a tiques de empresa me quer espremer, o ministério que me suga a mulher, o amigo que amua, os filhos cada vez mais longe, a família ao longe aqui tão perto…
Prendo-me às palavras que escrevo buscando sustentáculo, mas a porosidade destes tempos não me permitem alicerçar o dia de amanhã. Voltarei aos Hortos envolto em suor para dessedentar as alfaces feitas ovos estrelados e regressarei para desejar recomeçar tudo um pouco de novo, mas sem vislumbrar objectivo que me ilustre as névoas turvas em que me sinto envolto.
Em muitos anos, só queria dormir, dormir, acordando em mundo novo. Tem isto um nome e chama-se depressão. E só não a lamento mais porque se justifica.
Mas são quase seis da manhã e não me apetece dormir porque terei de acordar. Gostaria de poder ficar num mundo com o tempo congelado, até que este gelo no espírito enfim derretesse.
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