Madrugada de quinta-feira, 15 de Julho de 2010 – Nestas notas (por vezes diárias) que escrevo, são compassos de vida que acabam por ficar registados. Esses ultrapassam sempre no seu volume o intuito primeiro que esteve na forja destas mesmas: a terra em que enraízo o corpo e os livros que me refrescam a mente.
No entanto, o avassalamento deste mundo desvairado, que se torce e contorce procurando a linha direita, firmam-me amiúde os dedos nestes discursos de branco no preto em tudo o que é tergiversação daquilo que realmente importa; precisamente porque a inexorabilidade da loucura humana continuamente nos espanta sempre o espanto.
Hoje, vários bancos portugueses foram baixados num nível pelas empresas de rating, e dois deles dois níveis, entre estes últimos o maior banco privado português que chegou já, inclusivamente, a apresentar lucros superiores à toda-poderosa “Caixa”.
Tido como exemplo do empreendedorismo bancário privado durante largos anos, desde o seu surgimento, arrasta-se agora do engano em vigarice, mudando conselhos de administração, e até já o seu mais notório accionista individual quase pede a “nacionalização”. Por certo quererá nacionalizar sim, as suas dívidas, à custa dos dinheiros dos contribuintes…
No actual caso da tentativa de compra da brasileira Vivo à portuguesa PT por parte dos espanhóis da Telefónica, os mesmos grandes accionistas decidiram a venda da subsidiária (depois vetada pela golden share do Estado português), apesar da importância da empresa brasileira para a PT, sendo daí que resultam sessenta por cento das suas receitas. Só mesmo a falta de liquidez pode explicar a decisão venda ao desbarato de um dos maiores capitais empresariais nacionais, privado ou não. Estão sem dinheiro, é o que é!
Entretanto, os accionistas de uma empresa do maior grupo de fabrico e distribuição alimentar em Portugal (os mesmos grandes accionistas, está-se mesmo a ver), decidiu, há dois anos, não pagar dividendos devido ao crescendo de dificuldades; ou seja, continuam a pedir dinheiro aos investidores, mas decidiram cortar nas contrapartidas. Ainda por cima com a forte desvalorização dessas mesmas acções. Ou seja, isto é pedir caridade, coitados.
Hoje mesmo, estive no banco a protestar uma “alteração das condições gerais” do meu mais recente cartão de crédito, porque os senhores querem que os clientes paguem as despesas de cancelamento em caso de perda, desvio ou furto; ou seja, a antítese daquilo que é um cartão de crédito, que normalmente inclui um pequeno seguro, precisamente para cobrir este tipo de eventualidades, sendo esse tipo de segurança intrínseca àquilo que sempre definiu os cartões de crédito. Estes coitados desnorteados que já não tem a noção do que é o decoro ou a vergonha, já não sabem, onde ir buscar dinheiro, os pobrezinhos.
Isto é, de facto, um país com “elites” que são uma verdadeira vergonha! Estes pseudo-todo-poderosos, afinal, não passam de uns pés rapados, que só se aguentam nos mercados quando as coisas correm bem, e mesmo assim sempre sob o chapéu de protecção do Estado. Grandes neo-liberais, sim senhor! Sem dinheiro, sem artes de o fazer ou, sequer, de manter aquele vindo do tempo das “vacas gordas”. Afinal, não passam de um bando de zés-ninguém é o é.
Madrugada de segunda-feira, 19 de Julho de 2010 – Nada mais excitante do que a tentativa e erro. É um jogo onde se aprende sem que se esqueça e assim têm sido os Hortos.
As aboboreiras, ainda que com pouco fruto, invadiram-me tudo, cobrindo as cebolas, as nabiças, as alfaces, que já são poucas, e continuam a correr campo fora. Até é fácil rir com aqueles metros todos percorridos em pouco mais de quarenta e oito horas.
Sem escolha possível, arranquei todas as cebolas que descortinei da terra, enquanto ia arrastando os caules e folhedos gigantescos. Duas cabaças ficaram sem o cordão umbilical, mas foram só essas mesmas. Vieram para casa, ainda pequenas, a ver se amadurecem. Com as cebolas já trazidas, as que hoje esvaziaram o restante corredor plantado, perfizeram duzentos e cinquenta tubérculos, mas posso ter-me enganado numa, para menos. Outras terão ainda ficado entre o castanho fofo do solo; poucas serão, mas ainda recuperáveis.
Para o ano que vem, sei o que é que tem de ser diferente e o meu gozo será maior. Tudo se trata de organização do espaço. A dificuldade maior: ser muito; mas chegarei para tudo. E mais ainda
Com a máquina alemã fabricada da China, voltei aos baldes e regadores. Poupa-se na água e na gasolina mas, convenhamos, a chuva que veio a cada dois dias ao longo dos últimos dias, desde o fim-de-semana passado para cá, quase, salvou-me o serviço de distribuição da revista, feito com uma tendinite feia do lado oposto do tornozelo onde, volta e meia, me surge. A coisa custou, mas hoje já estava bem composta.
Foi uma bela semana, esta. Permitiu-me toda a parte comercial, a edição de texto e imagem do número de Agosto e ainda umas belas arrumações no contentor dos Hortos onde coloquei estrados de madeira, a boa oferta de bom amigo que cumpriu parte da palavra. Benfeitorias também em casa, com uma I. conformada consigo e amada por mim. Agora, recomeço a montagem de nova edição da revista, em mais um dia trabalhado do almoço até às zero horas de terça-feira. Ou mais um bocado, como é costume.
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