Madrugada de domingo, 11 de Julho de 2010 – Aguardo com curiosidade bastante a Final jogada neste domingo. Acabará assim este Mundial que fez a Europa (e o mundo) regressar a África. O destino parecia querer escrever isto mesmo: o cenário, a África do Sul; o governo do país, negro; o antigo colonizador holandês disputa a sua honra. Receberá o prémio maior da mão do governante?
Ambas as equipas jogam logo de início com os seus blocos bastante subidos no terreno de jogo, ao contrário daquilo que se viu neste Mundial. É por isso mesmo que esta Espanha e esta Holanda são as equipas finalistas. A partida começa logo com jogo vivo, oportunidades para ambas as partes, com um ligeiro ascendente da Espanha que joga vibrante e com alegria; os Holandeses seguem frios o percurso da bola, cerebrais. Sem prejuízo dos seus méritos, estas selecções traduzem bem o futebol das equipas do Barcelona e do Inter de Milão, ou não estivessem estas turmas recheadas dos seus jogadores, as duas melhores equipas europeias neste ano futebolístico.
Ao intervalo de uma primeira parte bem jogada, 0-0, a traduzir igual pressão de futebol excelentemente interpretado de parte a parte, com pequenas doses de quezilice a apimentar e algumas iminências de golo.
Se houve alguma ascendência espanhola do início, o intervalo chega com o crescendo holandês.
A partida recomeça com mais picardia. À alegria e dinâmica do jogo espanhol, opõe-se o nervosismo concentrado dos holandeses que impedem sucessivamente as saídas da Espanha travando os seus jogadores em falta. Os cartões amarelos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, mas ainda assim é a laranja mecânica que cria as melhores oportunidades com Robben a falhar incrivelmente na cara de Cazillas. A eficácia pertence toda à equipa do norte, mau grado o mau humor implícito.
Há mais posse de bola para a Holanda do que para a Espanha que é com bola que gosta de jogar, como aliás foi dito depois da derrota imposta a Portugal, que lhe entregou o esférico durante quase toda a partida. Poderia estar aqui a chave da vitória laranja.
O meio disto, segue David Villa na imitação de Robben e falha clamorosamente, muito perto do minuto setenta. Menos de dez minutos passados é o jogador com ar de estrela rock, Sérgio Ramos, que cabeceia por cima da barra.
agora, a Espanha volta a assumir as despesas do jogo, consegue o canto, mas as sucessivas manobras batem no muro holandês.
Na recta final do tempo regulamentar, Robben faz uma arrancada conduzindo a bola a solo numa corrida impressionante, bate Pujol na velocidade, mas a experiência do catalão impede-o na sua progressão com a bola a ficar em Cazillas. No protesto com o árbitro, o ex-Real Madrid acaba amarelado.
Últimos cinco minutos, ninguém arrisca. Um erro pode matar o jogo, que acontece no meio campo. Ainda um fogacho holandês, mas é fora-de-jogo.
Três minutos de tempo-extra, a toada mantém-se e as equipas técnicas recomendam calma e assim se segue para prolongamento.
É a Espanha a primeira a fazer suspirar, mas bola sai na rede lateral. Passam dez minutos. O intervalo chega sem golos e no segundo tempo a Holanda é reduzida a dez. É à chegada do minuto cento e quinze que Andres Iniesta, o pequeno jogador, recupera a posição regular para uma bola cruzada fugindo ao fora-de-jogo e sobre a direita fuzila a baliza adversária fazendo o mais importante golo deste Mundial 2010.
Espanha consegue assim a “dobradinha”, depois da vitória do Europeu em 2008; a Holanda, essa, continua a ser a grande equipa das finais perdidas.
No fim de tudo, e apesar de tudo, fico a matutar que Portugal acabou precocemente eliminado… mas aos pés do Campeão Mundial; também que África teve os seus 15 minutos de fama positiva.
Madrugada de terça-feira, 13 de Julho de 2010 – Soube hoje, segunda-feira, do suicídio do único filho do Dr. F., E., cujo pai é meu conhecido e da minha família desde que me conheço, e meu anunciante na revista desde a primeira hora. Muitos anos antes já enfrentara o suicídio de sua filha e uma primeira tentativa do agora malogrado.
Não perguntei pormenores, nunca me interessam. O que é que interessam? Um jovem morreu porque se matou. Várias versões do sucedido correm desde a madrugada de sábado, altura do triste episódio, ocorrido em Santa Marta de Portuzelo. Fonte próxima diz-me que ainda telefonou ao progenitor dando conta da intenção. A emergência foi logo accionada, mas a chegada dos meios seria sempre tardia, como se veio a verificar.
A notícia foi-me dada por I., por volta das dazesseis horas, quando almoçávamos em casa. Desde aí, passei o resto do dia, sempre de trabalho até depois das vinte e uma, numa espécie de limbo devido ao choque e à tristeza; também muito preocupado com os meus próprios filhos de quem vivo fisicamente distante. Acabei por telefonar para o D., no Porto, e senti-me um pouco melhor.
Apesar das tendências suicidas já reveladas anteriormente, há uma ténue raiva e fina revolta que me envolve o espírito. Deve-se à minha incompreensão da escolha desta opção terminal por quem tinha apenas trinta e oito anos, uma vida à frente, já alguns anos cumpridos com obra feita de alguma relevância. E. tinha tudo o que alguém da sua idade poderia querer. Família, estabilidade financeira e amor à sua volta, inquestionavelmente, apesar de tudo.
Esta manifesta incompreensão da minha parte, leva-me a preocupar com os meus próprios filhos. Até que ponto, perguntei-o toda a tarde nos meus contactos pelos revendedores da revista na cidade e não só, é que seremos nós, os mais velhos, quem não está a compreender? É que eu acredito que, fundamentalmente, precisamos de muito pouco para viver, e os maiores problemas que nos levam ao mais fundo dos desânimos, mesmo mantendo-se o berbicacho, no dia seguinte tomam sempre novo aspecto. E então descobrem-se novas forças interiores, o alento recobra-se, a vida simplifica-se e tudo se torna mais plano, esperando os nossos passos mais resolutos que voltam a transportar consigo a própria vida.
E. conseguiu relativamente cedo aquilo que nem todos conseguem ao longo de uma vida, deu um importante contributo para alguns desportos náuticos até a nível internacional, lançou uma marca que franchizou, bateu um recorde do “Guinness Book”. Tinha amigos; tinha pais a caminho da última idade. Se ele não aguentou, quais dos outros aguentarão?
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