Madrugada de sábado, 10 de Julho de 2010 – Na obrigação da rega, noto que há semanas que trabalho sem o cinto de apoio à zona lombar. Tinha a permanente sensação de que me faltava algo. O boné? Não. As luvas? Impossível seria. Mas então o quê? È o cinturão, sim senhor.
Quem diria. Eu, que com as mazelas de anos imberbes de sobre-esforços e discos desviados, estou a levantar dezenas de baldes com mais de treze quilos e peso a nove metros de profundidade e já nem me lembro do cinto ainda há bem pouco imprescindível, sob pena de quase mobilização em dores. Quem diria, hã?
Tivesse eu seguido os conselhos do médico na juventude e, hoje, às tantas já andava de muleta. Viva eu!
Noite funda. Lá em baixo, no jardim público, corre a Feira do Livro. A música que chega ao meu recanto de descanso faz-me sentir um meio-desejo de me envolver; outrossim os emails que diariamente recebo dos serviços de relações públicas da biblioteca municipal. Também a vontade de vivenciar a festa do livro de que tenho sido fruidor ao longo de todos estes últimos anos, especialmente quando lancei o projecto “Viana Social & Cultural”. Mas este ano não estou lá, mau grado este afecção inabalável de quem ama o toque e o cheiro dos volumes, as ideias e experiências que os construíram.
Na verdade, mais ainda estou farto. Da feira, do festival de teatro que deixou de ser internacional “porque as pessoas não percebiam o galego”, segundo os seus responsáveis (cretinos), dos ajuntamentos, desta multidão que não percebe, destes vendedores que vendem os livros como quem venderia outra coisa qualquer; a bem dizer, destas gentes que se reúnem sob as luzes, envolvidas pela música que quer celebrar o livro, mas que não o compram e ainda menos o lêem; desta organização que transforma a feira do belo artigo num arraial onde o óleo doce das farturas se mistura com o odor agradavelmente acre dos volumes… a paredes meias com os carrosséis. Não, não assim, canso-me e por isso, hoje descanso, depois do dia de campo, do dia comercial e do dia editorial que cumpri para além do dia doméstico, porque o lar não pára e só cá está em casa meia parte de gente.
Do quebranto da tanto dia assim, ou mais ou menos, que começa por terminar nos magazines culturais gravados automaticamente durante o dia para ver à entrada da madrugada a anteceder as leituras finalizadoras, para que a exaustão possa ser, finalmente, completa, e o sono possa vencer então vencer a insónia reinante, de há trinta anos, em muitos meses faço zapping e detenho-me, pela curiosidade no estranho semelhante, num reality show na MTV, pleno de “joves” norte-americanos. São rudes, vulgares, as suas relações estapafúrdias, brutais. Por aí paro e insisto. Piora a olhos vistos, tudo passado como num filme, numa série de um futuro próximo já agora. Nada existe para além deles e mais uma vez temo o futuro longínquo, menos o próximo porque, com aquilo, podemos nós bem. Com juventudes assim se comprometem países, se hipoteca o devir, mas lá diz o ditado que quem tem olho é rei. E aqueles não o serão, com certeza.
Ainda hoje e agora: neste momento de fim do meu dia, no nó da noite, nesta hora madruguenta onde já se vislumbram os alvores de novo dia, termino bem o “Hitler Desafiado em Moscovo” (União Soviética, Setembro de 1941) de Robert Forczyk. Tem-me sido difícil estabelecer preferências neste novo seguimento da minha vida da maior das guerras do séc. XX, objecto dos meus maiores interesses históricos de sempre, só mesmo comparável à paixão que sinto pela civilização romana – República e Império.
Já dei conta da Polónia primeiro, depois a França, o norte de África, a ilha de Creta e agora esta invasão da Rússia. Continuo sem saber o que poderei explicar melhor ou, melhor dizendo, menos compreender: se o falhanço nazi no cometimento, se a sobrevivência soviética.
Arrumado o volume na companhia dos restantes, com a leitura da oferta do amigo P. em suspenso e o meu “Jesus Cristo” de Ratzinger, sempre aguardando aquele momento (ainda o magnífico trabalho sobre José Saramago publicado na Playboy portuguesa que junto à leitura em espera da revista “Exame” – os jornais regionais e a Revista de Imprensa da VS&C levam-me o todo o tempo), início, em prazer, “O Livro Inacabado de Dickens”, de Mathew Pearl, em edição da Planeta – editora de boa-ventura que me surgiu na vida com a transferência de funções de B. de comunicação e marketing da Bertrand para essa.
Foi o livro que seleccionei daqueles recebidos no último mês e meio para as páginas de divulgação da revista; este, pedido especificamente e não estou nada arrependido, ou não acertasse quase sempre. É um romance intrincado, que asperge laivos que, de facto, fazem parecer que foi escrito na época. “Pearl enriquece a sua história através de um conhecimento profundo não só da carreira de Dickens como das suas obras literárias” (Library Journal).
Devo lê-lo com calma. Intrincado, com muitos personagens, locais e circunstâncias, para além de definir muito bem o pensamento da época, o que me distrai sempre, apresenta uma riqueza narrativa que me enleva. A fazer durar, o que se torna difícil pois a antecipação desta espécie de thrilller de época, impera no meu espírito.
Sábado, 10 de Julho de 2010 – Para um público mundial menos intenso, que espera a final de amanhã, hoje a disputa do terceiro lugar deste Mundial corporizado no Uruguai-Alemanha. Mas a partida não esteve de acordo com o sentimento mundial. Correu um jogo eléctrico, a todo o comprimento do campo, com duas reviravoltas no marcador e cinco golos feitos, o último quando já se cheirava a prolongamento.
Os teutões cumpriram aquela insustentável superioridade germânica perante a emoção do jogo uruguaio, latinizado da respiração ao toque de bola…
(e por aqui me fico, cansado…)
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