sábado, 15 de dezembro de 2012

                                   
Madrugada de sexta-feira, 30 de Julho de 2010 Triste, triste, a morte hoje do actor António Feio, aos cinquenta e cinco anos de idade, vítima de cancro no pâncreas contra o qual lutou duramente, sempre com aquele brilho nos olhos que só é possível encontrar nas crianças, assim como aquele sorriso.
Também a sua vida foi uma luta permanente, pelo trabalho, pela aceitação, pelo espaço, tudo apenas conseguido nestes últimos anos. Conseguira comprar o carro que sempre desejou, um Porshe, o novecentos e onze… em segunda mão. Anunciou-o exultante à revista social que o solicitara para mais uma entrevista na ressaca do sucesso da sua “Conversa da Treta”, com o colega e amigo José Pedro Gomes.
Era uma alma boa e Deus quer sempre as boas almas junto de si, mais cedo.


Madrugada de segunda-feira, 02 de Agosto de 2010 Agosto, mês de festas e romarias. Os emigrantes enchem as freguesias e os filhos voltam às casas paternas com os seus. Sol e foguetes enchem os dias e as noites fazendo o ano dobrar enquanto me parece estar ainda no princípio. Passa a primavera e ainda não saí do inverno, o verão comigo a viver a primavera e a estranhar o calor. Por isso sinto que devo alguma coisa à vida; por isso com I. saí para o encerramento das festas da freguesia, já perto da meia-noite; e procurar umas farturas que não comprámos. Também não tomámos o café porque a máquina já estava desligada e repetimos a exposição do costume do grupo folclórico, que fica sempre no caminho. Depois, fazendo afastar gente, atravessámos o adro da igreja atravancado de gentes e bandas de música que esperavam a vez. Entrámos após cumprimento ao padre e membros da comissão de festas, à soleira da porta.
Gosto da igreja nestas alturas, despida de mobiliário e com todas as luzes acesas. A paz é maior. Percorremos todos os andores (S. Vicente, S. Amaro, Sr.ª da Ajuda, os outros…) até pararmos no maior, em honra de St.ª Cristina, padroeira da freguesia da Meadela. Recolhemos umas orações, deixámos esmola à Santa e acendemos uma vela, daquelas eléctricas, que sai mais barato e pressiona menos o ambiente.
À saída vimo-nos bloqueados. A última banda a actuar estava toda formada defronte a igreja e tocou para o pároco, connosco e outros atrás dele. Esta, veio de Ílhavo, esclareceu-me um dos senhores da comissão de fesrtas. A certa altura o maestro, que já havia saudado o monsenhor com grande abraço, assim como aos senhores a seu lado – ainda olhou para mim mas mantive-me no meu sítio, mais retirado –, oferece-lhe a batuta, num gesto de distinta honra, entregando-lhe a direcção da banda. O padre V. entendeu-se bem com a coisa, sob o olhar de todo o mar de gente que se perfilava a várias filas enchendo o espaço, que não é pequeno. Depois, o maestro reassume a direcção musical e faz a banda voltar à direita por três vezes, assim saudando também o público em audiência. Depois, uma vez mais, entregou a batuta ao pároco que voltou a cumprir bem o seu papel. No final, o maestro voltou a cumprimentar os senhores à soleira da porta com grandes e sentidos abraços, com o sujeito a meu lado, velhote nos seus sessenta e muitos anos, a protestar, para quem quisesse ouvir, que já eram “abraços demais”. E percebendo que, provavelmente seria ele o próximo, trata de recuar para o interior da igreja a passo apressado. Situação digna de nota, sem dúvida!
Mas a coisa soube bem. A banda seguiu com o “Havemos de ir a Viana” e encerrou com uma cantiga de ocasião de despedida, coisa a que assisti pela primeira vez.
Há sempre uma comunhão muito grande entre as pessoas nestas coisas. Por isso, e até mais do que devendo à vida, devo a mim próprio também sê-las, para que me cumpra bem no meu lugar.


Madrugada de terça-feira, 03 de Agosto de 2010 Hoje morreu o jornalista Mário de Bettencourt Resende. Vinha a observá-lo cada vez mais magro, talvez ao longo deste último ano, quando opinava nos telejornais ou discutia nos programas de política. Ex-director do “Diário de Notícias”, vinha envolvido em polémicas sobre política, dada a actual propensão do actual editorialismo em participar directa e activamente na vida política. Admirado mais por uns que por outros, era um dos senhores do domínio do alvitre jornalístico.
Tinha cinquenta e sete anos e foi-se de cancro, como muitos outros. Os jornalistas especialmente, que sou.

A braços com três livros; com dois diários quase todos os dias. Consumo-me na concretização, roubando horas ao sono, reforçando a gastrite e a permanente sensação de fome. Dói-me o estômago sempre. Acordo e deito-me com a coluna dorida, o ombro esquerdo fora do sítio, mazelas nos joelhos e tornozelos. Enxaquecas ocasionais…
Tenho sido dor, sempre.

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