domingo, 19 de dezembro de 2010

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Nos primeiros dias de 2009 – Leio o “Diário” do Torga, o quarto volume, e numa das passagens, de 1948 ou 49, refere-se filosoficamente a uma situação passada com um “ganhão”, a mais simples condição de ser português na época, figura que me é fácil imaginar e projectar no seu tempo mas… depois lembrei-me de mim e deste Portugal pós-25 de Abril: eu vivi profundamente a situação de “ganha-dinheiros”, quando me casei pela primeira vez; no trabalho como escriturário que desempenhava para o Centro Regional de Segurança Social recorrendo à minha organização mental, aos meus conhecimentos administrativos, às minhas competências na utilização dos teclados nacional e internacional; no serviço em restaurantes e cafés, à minha predisposição e simpatia natas com os clientes, e ao recurso do Inglês e do Francês; nas recepções das residenciais onde me empreguei, no rigor, na boa memória, na apresentação e postura perante aqueles a quem servia.
E, às segundas-feiras, voltava para a secção de Relações Públicas e Documentação do Centro Regional, à minha condição de “administrativo”, numa roda-viva de todos os empregos que conseguisse encontrar, sem nunca saber dos meses seguintes.
Fui um “ganhão” dos tempos modernos, precariamente oferecendo os meus préstimos, a troco de muito pouca coisa, por vezes coisa nenhuma. Passados todos estes anos, vejo-os por aí, anos mais velhos, derreados, cada vez mais nestas crescentes crises económicas. Já não apenas os jovens iludidos no ingénuo acreditar da vida, mas também os mais maduros – uns mais tristes, outros mais o inconformados –, são cada vez mais.

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Meadela, terça-feira, 06 de Janeiro de 2009 – Enquanto transformava o original brasileiro do Tarot para português, a publicar na edição deste mês na revista, pensei que algo me falava de Deus, ou algo por aí. Mas, parece-me, é algo que se foi embora, há muito tempo.

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