sexta-feira, 10 de agosto de 2012


Madrugada de segunda-feira, 14 de Junho de 2010 Mais um domingo de trabalho. Alguma distribuição pela manhã e tarde na Redacção. Não sei porque será, mas a ideia de pecado incomoda-me. Pecado contra mim.

Depois, noite dentro – ainda antes destes escritos e das leituras finais –, a ver película no brasileiro “Canal Europa”, com os respectivos filmes. Franceses e alguns italianos, na sua grande maioria, todos já com alguns anos. Mas vejo-me a vê-los da mesma forma como leio um livro.
É das coisas que falta, nestas minhas epístolas a mim próprio: o cinema e a música. Mas isso, oh, isso, seria outro livro.


Madrugada de terça-feira, 15 de Junho de 2010 Primeira rega com todos os passos antecipados. Assim é diferente do balde erguido à força de braços e dos regadores transportados a todo o comprimento do campo. Uma hora com a máquina a funcionar e está feito. O trabalho torna-se mais contemplativo, acompanha a medida dos sons bucólicos e dos aromas da terra, das plantas, dos pássaros e dos insectos. Mesmo o matraquear do engenho parece-me fazer parte do conjunto. E que delícia é ver o ribeiro a aparecer no rego e a abrir-se por entre as hortas com o cheiro a terra húmida a lavar-me a alma.

Essa tão condoída, diga-se. A. regressou às velhas rotinas depois do retiro interrompido, já me falhou dois encontros. Três, a bem ver. A minha esperança no seu porvir fica-se em pequena réstia que continuo a alimentar, detestando o seu contrário. Mas, ao fim ao cabo, não creio. Como muitos na sua condição isola-se, resguarda-se, oculta-se, pensando os outros cegos como ele. Espero os próximos dias, não as semanas à frente; depois, esperarei meses tudo voltando ao princípio. Está sozinho porque sem ânimo nem inteligência a seu lado. Apenas um patético amor de família, que é também nó de toda esta cegada.

Entretanto, espero o primeiro encontro da selecção de todos nós. Será hoje à tarde, comigo cheio de trabalho, a noite comprometida com Ana, a montar a próxima edição e sem A. que me ajude, apesar de andar por cá outra vez, e I. sempre ocupada consigo própria. Resto-me eu.


Madrugada de quarta-feira, 16 de Junho de 2010 Primeiro jogo de Portugal neste Mundial, com a costa do Marfim. Jogo de empatas, sem golos, como o mundo e como este país.
A estas equipas africanas falta ordem e mentalidade. Mas para isso está lá o Eriksson, que conseguiu resultados. Do nosso lado, um Cristiano Ronaldo muito ansioso condicionou toda a equipa e perdeu a cabeça logo no início. Um Deco substituído reagiu mal. O futebol clássico de Queiroz, à inglesa, não nos serve, parece-me óbvio. Valemos pela imaginação e não pelo jogo directo. Precisamos de criatividade, constantes alterações de posição, mas não houve nada disso. E, portanto, não houve golos. Do outro lado também não, valha-nos isso.
E esta diáspora que vibra. Ali, na África, há qualquer coisa de especial, um perfume diferente. Vi algo parecido, aqui há uns anos, nos luso-descendentes na Austrália.

Entretanto, vogo completamente nesta biografia de Jack Kerouac, a todos os níveis. Neste momento, vou entrar em Paris; com saudade, diga-se, ou escreva-se, o que é manifestamente o caso.
Curta visita foi, diga-se em abono da verdade (lembro-me aqui de uma ida ao Algarve com um amigo, para umas pequenas férias, mas que se transformou numa visita fugaz). Mas o que mais me marcou naquela cidade de luzes, foi precisamente aquilo que eu trouxe mais profundamente inscrito de quando lá estive. O local favorito, para viver e ser feliz, se isso fosse possível, também o mesmo: Montmartre.
Mas depois há o resto e tudo: o costume de passar os sonhos a papel, o método dos papéis e papeizinhos, folha e caderninhos nos bolsos, escrevendo tudo e mais alguma coisa, assim construindo coisa maior, a escrita compulsiva, a escrita como forma de resistência, esta como forma de perenidade, eventualmente de posteridade; ainda as incompatibilidades comunicacionais com o genitor; a paixão por festas e festins; a necessidade do fio da navalha debaixo dos pés; da sensação de limite seja no que for; mas também aquela pertinácia no trabalho, mormente a necessidade de fases agudas de loucura e desvario; sem qualquer orgulho mas a perfeita noção da utilidade que isso teve na minha vida, os momentos de degredo e degradação, para comigo e relativamente aos outros, conhecidos e desconhecidos, que ambos partilhamos, assim o sofrimento como implicação do acto de existir (se bem que eu infira dos seus ápices de felicidade e êxtase, sob o efeito ou não , instantes e momentos esses que devem ter sido em dose q.b., se bem que esta obra não os traduza da forma como, creio, preencheram grande parte da sua efemeridade); e até aquela foto do tipo no início desta edição da Bertrand (Abril/2010), que, de relance, bem poderia passar por mim…
Mas tenho outros cuidados com o corpo e, mais recentemente, também com o espírito. Quero por cá andar muitos mais anos!

Faltam aqui os filmes e a música, já o escrevi. Mas também o sexo, e, esse, daria obra a vários volumes. Não sei se mau sexo, ou a sua ausência, será motivo suficiente para acabar com um casamento. Mas tenho a certeza que bom sexo é argumento suficiente para mantê-lo.
 
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