sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Madrugada de quinta-feira, 17 de Junho de 2010 O arranque do início do dia de trabalho custou-me muito, mas passei uma tarde maravilhosa. Houve vendas, tive belas conversas (a que acrescem as boas relações públicas) e um amigo fez questão de ir à Bertrand comprar um livro que me ofereceu.

A selecção da África do Sul perdeu por três bolas sem resposta. Seria bonito outra coisa, mas o tempo dos contos de fadas já acabou há muito tempo.


Madrugada de sexta-feira, 18 de Junho de 2010 No caminho da consciência cósmica que se me corporiza no cultivo da terra, a distância é ainda imensa. Todo o intervalo da diferença de perceber quem fui, tão lá atrás, com a minha cara, que transporto.
Espero o dia de hoje e o compromisso de A., a juntar-se ao meu com os Hortos. Muito pode ser feito com a minha contemplação de permeio. Desejo a jorna acompanhada com o mesmo prazer que me entrego ao descanso do esgotamento do dia trabalhado. Há os homens que fazem, os que assistem e os que perguntam o que aconteceu. Eu, faço enquanto aprecio também o labor alheio e me questiono do que acontece do outro lado do mundo. Por isso tudo vivo, mesmo não quando estando.

A selecção argentina joga mágica. Ataca a toda força concretizando e defende negligentemente fazendo suspirar. É isto o futebol espectáculo.


Madrugada de sábado, 19 de Junho de 2010 Morreu durante o dia, sexta-feira, pelas onze horas da manhã, o escritor José Saramago, Prémio Nobel da Literatura. A notícia começou a correr antes da hora de almoço e percorreu todo o dia, entremeada com os resultados dos jogos de hoje do campeonato Mundial.
Como seria de esperar, toda a ênfase da sua vida foi colocado nas polémicas em que se viu envolvido, especialmente o caso do seu ”Evangelho Segundo Jesus Cristo”, censurado a um prémio internacional pela então secretaria de Estádio da Cultura, por um tecnocrata pseudo-intelectual que aqui nem nomeio, motivo pelo qual fixou residência em Espanha, nas ilhas vulcânicas de Lanzarote. Esperava esta abordagem, mas não gostei.
José Saramago foi, pela distinção recebida, considerado extra-muros o maior escritor do século XX em Portugal. Marcou a transição do milénio pela inovação, colocou Portugal nas bocas do mundo, foi reconhecido pelo academismo estrangeiro; detinha uma lucidez extraordinária, um inconformismo notável, polvilhado de um determinado iberismo que já vertia de Miguel Torga (por alguma razão muitos dos nossos grandes pensarão assim). Tinha 87 anos e mantinha-se na esquerda fiel ao seu comunismo ortodoxo. Deixou-nos na mesma semana em que António Manuel Couto Viana, poeta da direita, também partiu.

Hoje consegui a ida de I. aos Hortos. Creio que não deu a atenção que eu gostaria de lhe ter visto. Aproveitei a boleia de C., sempre a contragosto, sempre querendo fazer outra coisa, impeditivo, nervoso. Pedi-lhe que me trouxesse o regador do vizinho. Não quis ir mas não teve a coragem de dar o não. Quando o trouxe atirou-o para o chão. Mais tarde, quando, propositadamente, lhe pedi que transportasse um balde cheio de água, ia rebentando, do corpo e do espírito. É tão fraco, Deus meu.
Apanhei com I. as primeiras cebolas, no meio de alguma atrapalhação, mas consegui-a fazer pensar apenas no que estava a fazer e, só por isso, valeu a pena.

Chego-me às páginas finais da biografia de Jack Kerouac. Tremendas de desperdício humano, leitura custosa. Mas não podia o escritor acabar de outra maneira, passando antes pelos processos respectivos que acabaram por levar àquele tipo de fim. Não teria sido ele de outra maneira.

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