sexta-feira, 6 de julho de 2012


Madrugada de segunda-feira, 6 de Junho de 2010 Seis horas de campo e estou cada vez mais em forma. Quase já nem transpiro. Ergo mais de quarenta baldes de água a mais de quatro metros e passeio com dois regadores cheios, acima e abaixo e nem humedeço a pele. Hoje, depois das mais de seis horas de montagem e finalização da edição de Junho da revista, ontem. E as ervilhas continuam a surgir nos arbustos como num passe de magia. Não acabam, mais de uma centena de vagens colhidas de dois em dois dias!

À noitinha, passo na TV a gravação o programa “Parlamento”, a síntese e debate sobre os temas da semana, que acontece semanalmente na “2” da RTP. Em causa o encerramento de escolas primárias com menos de vinte e um alunos. Serão quinhentas e depois mais quatrocentas, um pouco por todo o país (com a tónica no interior), tudo até ao fim deste ano. As autarquias dizem ter sido apunhaladas nas costas pelo (des)Governo. Eu, estremeço.
Não acredito na justificação da “poupança”, nem da “melhor escola”. Não há nada melhor quando se arranca as crianças às suas famílias e às suas freguesias colocando-as nos actuais centros escolares sobrelotados onde falta todo o tipo de recursos humanos. Escolas de centros urbanos com cada vez menos professores e turmas de trinta alunos sem o necessário apoio de pessoal auxiliar.
Mas pior ainda, para além do facto de arrancar meninos e meninas de seis aos onze anos às seis da manhã à cama e devolvê-las ao lar familiar até doze horas depois, é a imposição deste modelo único de escola que tudo engole, vomitando, depois, um cada vez maior insucesso escolar e pior insucesso educativo, porque mais diáfano. Alunos mais iguais num mundo cada vez menos diverso e, logo, com menores capacidades de resposta a um futuro cada vez mais incerto, onde a certeza é a de que tudo é cada vez mais inconstante e aleatório.
Aqueles meninos, que deixarão de saber revolver a terra, semear ervilhas e beber o leite da teta da vaca, de seis a onze anitos de idade, não deviam estar a pagar as recessões económicas dos poderosos do mundo e de políticos incompetentes, marcados a prazo.
Que mundo terei, quando me faltarem as forças?

Mas ninguém assiste à “2”. Estão a ver os telejornais com a chegada da selecção nacional de futebol à África do Sul. Movo-me com a recepção à chegada dos jovens futebolistas, mesmo na ponta sul daquela África desgraçada. É tão larga, a diáspora! O verde e o vermelho agita-se nas mãos das pessoas que dão as boas-vindas. Com um sabor a ambrósia no céu-da-boca, quase junto ao cérebro, logo amarga um pouco às perguntas destes jornalistas de pacotilha que se colocam a correr atrás dos putos chegados do autocarro (que já os não devem poder ver) e que de microfone avançam sobre a multidão enfileirada que acena. As questões colocadas são de uma indigência intelectual atroz: – “É um super-adepto?” berra o repórter a um paz de alma, feliz, com a chegada dos compatriotas, no meio da multidão ululante. – “Quê?”, pergunta sem conseguir ouvir. – “É um super-adepto?”. É, deve ser, coitado.
E pergunto-me sobre isto perante a minha própria vergonha, em assistir a tanta indigência mental.

*

Sem comentários:

Enviar um comentário