Madrugada de terça-feira, 1 de Junho de 2010 – Vendo o primeiro-ministro com os olhos a brilhar como os de um menino, por ter visto aprovar a “lei do casamento homossexual”, rodeado de figurões da causa, nacionais e estrangeiros, onde o senti como peixe dentro de água, penso neste encravado país. Penso nesta Europa a tremer com a derrocada da economia grega, nuns Estados Unidos da América a temer a propagação da crise que continua a acentuar-se neste mundo ocidental; penso numa China, numa Índia e até num Brasil, a crescerem a olhos vistos e a receberem os salamaleques ocidentais como os antigos dos “impérios do meio” viam os andrajosos das caravelas que lá chegaram, enquanto vestiam seda e se passeavam por passeios empedrados abanando leques. Penso como se riem porque perceberam que está a voltar aquilo que, para esses povos das índias, é a situação normal do mundo.
No meio do nacional desvario por causa do sempre eterno déficit, penso nas palavras de Eça de Queiroz, escritas em “Uma Campanha Alegre”, com o amigo Ramalho Ortigão:
“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, a Grécia e Portugal.”
Estávamos nós em 1872…
Madrugada de terça-feira, 2 de Junho de 2010 – Termino “O Grande Assalto Pára-Quedista Nazi”, a operação Mercúrio alemã, que tomou Creta. Foi uma leitura carregada de sortilégios, talvez porque o mito do Minotauro foi dos primeiros que conheci, ainda não lia; talvez porque a civilização Minóica foi a primeira desta Europa que sou. Também porque encontrei uma lógica indefinível (mas tão palpável) na feroz resistência dos partisans cretenses contra o invasor teutónico, na melhor tradição da poderosa Minos que tudo conquistou exigindo tributos às imberbes cidades continentais gregas, que assim também alimentavam, de nove em nove anos, os rituais de sacrifício minóicos com jovens rapazes e raparigas virgens, porque mais puros, e com eles assim nutrindo a lenda do touro-homem, apenas derrotado por Teseu, o primeiro herói da Grécia antiga.
Abro agora o volume seguinte, “Operação Barbarosa I”, de Robert Kirchubel com ilustrações de Howard Gerrard. Esperam-me aí dos mais negros episódios que a II Grande Guerra tem para contar; largos e sucessivos momentos de fogo e gelo, sacrifício extremos, lutas de mãos contra armas, corpos contra tanques, vidas arrancadas aos milhões. Mas não é toda a guerra assim?
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