Madrugada de sexta-feira, 28 de Maio de 2010 – Dia de aniversário cumprido. Um dia igual aos outros, com um pouco de menos trabalho, mas mais ansiedade por isso.
Reflicto naquela que me troca o seu trabalho pelo dinheiro que lhe pago. Digo-lhe: “A honestidade no pagamento das nossas dívidas abrem-nos imediatamente as portas de meio mundo. A sua falta fecha-nos inexoravelmente a outra metade”. Mas estão longe de ser a mesma coisa. No primeiro caso, essa honestidade encontra-se no nosso coração, que transborda, e os outros notam-no imediatamente, ainda antes do pagamento efectuado, que deve acontecer sempre a tempo e horas. Por isso essa metade pode torna-se em todas as portas; no segundo caso, acabam sempre todas elas por fechar-se. E isso faz toda a diferença entre ambas.
Madrugada de sábado, 29 de Maio de 2010 – É assim mesmo, um agricultor não pode comemorar o seu dia de anos. Deveria ter ficado a maquetar com a rapariga na quinta, não passar para a sexta seguinte e, aí, ter ido regar, pelo fim da tardinha. Amanhã vou lá chegar e tudo estará um desastre, com certeza. É que não chove, como garantia a meteorologia!
E continua a troca de emails com o saltimbanco da carta, que não larga e alarga esta pantomina. Só por dizer que perdeu de vista a posição dos adereços e enfia para o buraco do palco, que escurece, com o figurante que leva atrás de si no meio de penumbra que se adensa, enquanto vou insinuando que os acompanho. Vai falando sozinho, masturbando-se com as suas redacções, julgando-me à sua esquerda. Sigo pela direita, em sentido oposto, dizendo-lhe que sim. Pena que esta comédia vá acabar mal, como boa tragicomédia que se preze…
Madrugada de domingo, 30 de Maio de 2010 – Dia de greve geral. Os sindicatos reclamam um número de manifestantes, em Lisboa, na casa dos 300 mil, mas não ouvi em nenhum dos canais de TV ou rádio aqueles normalmente contrapostos pelo Governo. É o cumprimento do fim-de-semana do Executivo que durante os dias anteriores afirmou, pela voz de destacados dirigentes, assim como pela boca do primeiro-ministro, que “os portugueses não concordam com esta greve”.
No entanto, lamento que cada manifestante questionado pelos jornalistas não tivesse sabido explicar mais que o descontentamento geral, sem especificar numa linguagem escorreita e sem dúvidas as especificidades e cerne de toda esta questão. É que se não o sabem fazer, nunca encontrarão o caminho de saída disto tudo.
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