*
Sexta-feira, 19 de Março de 2010 – Depois de me telefonar, interessado em falar comigo, altero as minhas rotas de distribuição da revista e sms-se-o pouco mais tarde para nos encontrarmos. Está no café, parece menos interessado, a coisa falha e decido prosseguir o meu trabalho numa segunda ronda. Encontra-me à face da estrada e entro no veículo. Dirigimo-nos ao café onde pede um carioca de limão, está muito nervoso e fala sobre as próprias frases, gesticula, expressa-se de todas as formas. Peço-lhe que se acalme, baixa o tom para logo subir de novo. Desisto da reciprocidade da conversa e ouço-o, preocupado com o projecto que me revela pela primeira vez, a abertura de loja no mais central local da cidade. Tento oferecer algumas ideias, diz que já está tudo pensado. Pergunto então porque me encontro ali. Sem o confessar directamente, dá-me a entender que quer a imprensa. Pergunto como, não responde, está tudo pensado. Ofereço espaço publicitário na minha revista, faz-se de esquisito, confessa um interesse dúbio, se bem que reconheça a importância daquela na imprensa regional. Sou directo, questiono se colocará essa publicidade nos outros sem colocar no que é da minha lavra, ao que dá a entender que sim. Manifesto estranheza e desapontamento, mas diz que não o preocupa, nem isso nem as outras preocupações que eu possa ter. Com isso já me revelo incomodado, mas reafirma o seu desinteresse nisso tudo e no que eu possa ou não pensar. Não acredito nisso pois manifesta algum prazer em dizê-lo. Pergunto uma vez mais o que ali faço, ameniza o tom, descreve os trabalhos em que está metido, as mesuras a que se sente obrigado face ao poder político autárquico e a outros interesses. Confessa que a loja já deveria estar aberta há meses, mas não especifica há quanto tempo, não especifica nada, quase me sinto concorrência quando só concorro para o seu sucesso. Conta-me situações e circunstâncias, com muita irritação apresenta-me as histórias das suas dificuldades, refiro-lhe esses seus obstáculos como ossos do ofício, mas não concorda, não concorda com nada, pergunto uma vez mais para o que estou ali a fazer. Voltamos ao tema do espaço publicitário na minha publicação, não tem a certeza de nada, di-lo com algum regozijo à mistura, que ainda não sabe como fazer, ou quando vai abrir o estabelecimento. Julga que lá vai ter a imprensa a noticiar a abertura da sua loja, digo-lhe que só se for pela cor corporativa, viva, em espaço antigo e nobre, mas não por outra razão – só se lhe assaltarem a loja. Não concorda, não concorda com nada. Tento assessorá-lo com o meu conhecimento da cidade e das suas pessoas, com a minha experiência antiga, mas não ouve, não quer ouvir. Desejo-lhe sorte. Quando à publicidade, diz-me para lhe telefonar no final do mês. Penso que dificilmente o farei, apesar de querer ajudar.
*
Sem comentários:
Enviar um comentário