Madrugada de segunda-feira, 21 de Junho de 2010 – A propósito desse, este Livro do Pastor. A sua leitura aconchega-nos a alma. O seu léxico simples torna-nos crianças de novo. A linearidade da narrativa, consolida-nos ideias. Tudo nele é um encanto, literalmente. Cada capítulo uma lição de vida que serve a todos e a todas as idades. Não podia ter-me surgido em melhor altura, estava a precisar disto.
Nota à revista “Exame” de que recebi este mês o primeiro número, de seis meses de assinatura oferecida por um banco, e que chegou com seis meses de atraso. Gostei das principais reportagens desta edição, mas o conjunto parece-me fraco. Tudo muito sobre este ou aquele empresário, mais os seus supostos sucessos, estratégias e outros que tais. Leio o que dizem, aprecio as fotos e suscitam-me vulgaridade. Até de barba mal desfeita se mostram, com maus nós de gravata, sentados de lado em cima de mesas de trabalho. Faz-me lembrar o programa da RTP “Liga dos Últimos”, dentro da medida em que ali se exibe o Portugal profundo. E este é feito de muita vulgaridade, lugares comuns e parolice. Enfim, somos o que somos, aquele povo que anda a roubar antenas dos automóveis uns aos outros…
Mas já cá faltava: goleámos a Coreia do Norte por 7-0 e assim prosseguimos a nossa história nos mundiais de futebol. Ronaldo, que não marcava pela selecção desde Fevereiro de 2009, quebrou o enguiço e marcou, num golo “tonto”, nas palavras alegres de Paulo Futre, outro excelente da nossa selecção de há uns bons anos.
E comovi-me com aquele golo esquisito que lhe fez saltar a bola num ressalto das costas para a cabeça, daí para a frente dos seus olhos até o pé se chegar imediatamente à frente para marcar. O rapaz merecia-o. E nós também.
Mas não deixei de ficar com uma profunda pena daqueles norte-coreanos, saídos da Idade Média, com seu o treinador nas conferências de imprensa a tecer loas ao “chefe”, sob o olhar atento dos cães do regime do ditador que reina sobre a fome dos seus súbditos. Até as suas expressões são diferentes da do comum dos mortais livres. Cada tento que sofriam, sofriam mesmo, com o semblante de um agricultor que vê as suas colheitas devastadas pelo fogo, ou do criador que vê o seu gado a morrer à sede. Acreditavam mesmo que podiam vencer e vingar a derrota de 66. Nota ainda para o facto de vários jogadores terem aproveitado a saída fora de portas para não mais voltarem. Temo agora pelas suas famílias.
À noite acompanhei como costumo, entre notas, os comentários dos actores do desporto nacional. Vários desportistas, do hoje e do ontem, vão rodando, dia após dia, na apreciação aos lances e incidências dos jogos. Tudo bons rapazes, que amamos, mas a questão da língua, oh, a questão da língua, faz muitas das vezes aquilo parecer também “a liga dos últimos”.
Madrugada de terça-feira, 22 de Junho de 2010 – Os deveres para com a terra obriga-nos a pagar tornas. Lá trabalhei mais de sete horas, regressei com o sol-posto, passa das quatro da madrugada mas encontro-me ainda energizado. Adormecer vai ser igualmente trabalhoso. Também porque as lições que retirei do programa de debate “Prós e Contras”, na RTP1, sobre o Estado de Portugal, da Europa e do mundo, são arrebatadoras, ou não tivessem sido os mestres das controvérsias em questão Mário Soares, Boaventura Sena Santos, Ângelo Correia… e António Vitorino, vá lá. Tudo digno de menções escritas aqui, mas não hoje, que ainda me falta a leitura do João Pestana.
A bem de ver, estas epístolas a mim próprio que nunca reli. Um trabalho a que já me impus várias vezes, mas nunca cumprido. Estou numa antecipação crescente, mas, às tantas, a surpresa só o será bastante mais tarde.
Aqui, aguardo-me.
Ainda, mais dois volumes recebidos da colecção da II Guerra. Continuamos, eu e os livros, pela Rússia invadida. Amanhã iniciarei o próximo.
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