Madrugada de segunda-feira, 26 de Abril de 2010 – No Dia da Liberdade saímos a pé, porque ela não pode ficar prisioneira da doença que lhe cativa o corpo e o espírito, e a afasta do aconchego da cama comum. Fi-la andar e andou muito, para além daquilo que ela mesma se permite mas que nunca me chega pois não quero que alguma vez pare. Só não digo que é a minha maior liça pois tenho muitas que me acompanham quase todos os dias e esta é uma daquelas que mais me faz porfiar o corpo e o espírito.
Dia da Liberdade que fez transformar os humores da madrugada num claro dia de primavera solarengo, de ares amenos e elementos anunciadores da nortada de verão que refrescaram o éter.
Antes do percurso final do regresso, conversa num banco de jardim, depois de outras tidas na tarde. Após os lamentos à conta dos apertos das circunstâncias que inscrevem os condicionalismos que nos tolhem, disse-lhe dos meus privilégios que entendo serem meus nos últimos anos. Preocupações financeiras apenas ao nível dos investimentos, da maior ou menor valoração dos metais preciosos, deflação que nos torna mais abonados, segurança nos proveitos acima da média dos casais portugueses, não sujeição ao horário de uma labuta imposta por terceiros, a possibilidade imediata de substituir materialmente o que se vir necessário, a faculdade rara do poder de parar quando bem entender, o facto de só a nós mesmos e a Deus devermos o que quer que seja e, no meio de tudo isto, a consciência disto mesmo.
Edito construindo as páginas que publico e cultivo fazendo uso da terra que é nossa. Tudo sem entraves, discricionariamente nas horas que bem entendo, repartindo os dias como me convém, as semanas como achar melhor, os meses do modo que se me ajustar preferivelmente, assim tornando os anos num quadro que tenho vindo a pintar com as cores que escolho, nas tonalidades que prefiro com suas variações imensas que jogo artisticamente, dispondo ainda do tempo necessário para o efeito. E no meio disto tudo, os amigos que preciso.
Claro que falta todo aquele resto. Mas hoje, nos 36 anos da Revolução dos Cravos, cheiro-lhes o perfume!
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