Madrugada de sexta-feira, 27 de Agosto de 2010 – Depois do escrito estival no campo das estrelas a saudar o apóstolo, o regresso a este, com tanto para firmar e sempre tão pouco tempo. Regresso a este diário depois de três dias de esforços a recuperar (algum do) tempo que ficou lá atrás, nas pedras milenares da catedral e na presença especial dos peregrinos.
Agora, estou na minha vida.
Preocupado com mais ou menos água, saúde das couves e desenvolvimento das abóboras, ao terceiro dia, e na impossibilidade da ida, telefonei à vizinha dos Hortos para saber das coisas naquela nesga de redenção. Está tudo bem, “tudo bem fechado”, a chuva de ontem de madrugada e manhã e a provável ainda hoje fazem com que “não precise”. Melhor, mas as saudades são; domino-as e meto-me a prosseguir a empreitada que levo a cabo desde terça-feira na Redacção. Aspiro na mente os odores e sons da terra enquanto bato teclas de computador a escrever outras realidades.
Termino e me trouxe aqui nesta madrugada o final do terceiro volume da “Operação Barbarossa III – O Inverno Russo”, de Robert Kirchubel. A breve pausa desta leitura temática colocou nas minhas mãos por momento vazias o “Jesus Cristo” que, sempre assentado à vista me traz a certeza de querer, se bem que não tenha podido poder. Mas as poucas palavras lidas reconfortaram-me a alma e deram-me alento a continuar, antecipando a interpretação do homem depois ressuscitado dvisto por Joseph Ratzinger. Também me trouxe a percepção do dever da participação no “Paróquia Nova” onde hoje veio o meu segundo texto publicado.
Entretanto, inicio a redacção de Carl Smith com ilustrações de Jim Laurier e Adam Hook, “O Dia da Infâmia”, onde espero, à medida dos volumes anteriores desta colecção, descobrir algo de novo ao desde já sabido.
Madrugada de domingo, 29 de Agosto de 2010 – Procuro o ritmo caseiro que julgava nem sequer ter perdido do corpo, mas não. As ondas de actividade ainda são as mais recentes, as daquele campo de estrelas do noroeste peninsular donde se regressa de alma mais repousada; não necessariamente pelas refeições sem trabalho de as confeccionar, é mesmo aquela paz que nos fica quando saímos depois de meia hora de contemplação na pacifíca igreja aberta a público, mas com pouco.
A correr atrás das gravações do “Meo”, a maximizar despesa da conta mensal, baseado na obra homónima de Goethe, vejo “As Afinidades Electivas”, uma historieta passada na região italiana da Toscana no período final do séc. XVIII, com realização dos irmãos Paolo e Victtorio Taviani. Uma triangulação arremedada a swing nas relações de dois pares: o casal jovem maduro Edoardo e Carlotta, o amigo Ottone, arquitecto, e a filha adoptiva da primeira.
Estas “afinidades” são bem o paradigma de um tempo revolucionário que me fazem lembrar uma revolução sexual à época coeva. O período romântico terá sido a segunda grande convulsão moderna de costumes, depois do Barroco de Luís XV. Nesta história e neste filme, as novas modas do tempo ficam bem patenteadas na abordagem artística do escritor alemão aos costumes, bem engalanada também com os usos de indumentárias descritas, especialmente das mulheres, desespartilhadas a vestidos redondos.
Estes sempre foram tempos que ultrapassam o tempo de uma geração e que se desenvolvem em espiral até ao corte epistemológico seguinte. Na narração do tempo mais recente dos homens, todo o período temporal desde o ensaio libertador da “Geração Beat” no pós-guerra e década de cinquenta, a revolução sexual “Hippie” nas décadas de sessenta e setenta e, neste última, o desvario “Punk”, fruto do choque petrolífero e consequente crise económica, tudo a redundar mais tarde na libertinagem “Yuppie” dos anos oitenta, altura do surgimento da SIDA que arrasou as alforrias de quarenta anos de esbatimento das fronteiras do mundo, qualquer tipo de que fossem, físicas e políticas ou psicológicas e anímicas.
Olhando a história dos homens acontecida, foram sempre mais longos os períodos de paradigma de libertação do que aqueles de repressão, apesar de serem estes últimos aqueles que por vezes parecem mais ter marcado a cultura e a memória, como é o caso da época vitoriana. Mas isso só é verdade porque os intérpretes da repressão, sempre foram mais persistentes na preservação do seu ideário; por isso mesmo são “conservadores”. Eternizam o que é socialmente contundente usando para isso os traumas colectivos amachucados por interdições anti-naturais.
Não teríamos chegado a lado nenhum sem as muitas e sucessivas libertações do corpo e do espírito, e que fossem suficientemente longas para que pudéssemos consolidar as aprendizagens de nós próprios, à luz de uma livre troca de ideias.
Domingo, 29 de Agosto de 2010 – Os Hortos passaram sem mim e sobreviveram, com a mão amiga da vizinha. Por junto, perdeu-se um pé de couve lombarda, que ainda respira, mas que mirrou à secura de um dia a mais depois da chuva de quarta-feira passada que me permitiu protelar a rega e a visita de saudade.
A terra (cuidada) é uma prisão. Prisão de amor, sim, mas ainda de ferro grosso e âncora fundeada nas profundezas da alma.
Enfim, tudo resistiu aos dias de férias sumidas e a paz disso mesmo permitiu alguns trabalhos de limpeza a ensaiar a que virá a partir de dentro de quinze dias, a acumular aos preparos das hortas de inverno, sempre rezando para que as temperaturas baixem.
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