Domingo, 27 de Junho de 2010 – A Argentina bate por uns inapeláveis 3-1 o sempre crente México e avança para os quartos de final. É empolgante ver esta Argentina jogar, desde a frescura da juventude de um Messi estonteante à persistente veterania de Verón, passando pela agitação sofrida de um Maradona nunca no banco.
Já os alemães cilindraram a velha Albion por 4-1, num resultado que não me surpreende, ou não aposte na Alemanha como um dos semi-finalistas… pelo menos. Os ingleses viram um golo mal anulado que, a meu ver, poderia ter alterado o resultado final; Fábio Cappelo, o treinador italiano que lidera a esquadra britânica, disse que não.
Ângela Merkel e o primeiro-ministro inglês, de quem ainda não fixei o nome, interromperam a cimeira para assistirem à segunda parte do jogo. A primeira sorria francamente, o segundo desagradavelmente, noblesse oblige.
Os germânicos crescem inexoravelmente. Temo esta Alemanha de novo forte, não foi por acaso que a partiram a meio no pós-guerra. Depois da unificação já desencadeou uma guerra, a da ex-Jugoslávia, quando reconheceu a independência da Croácia à revelia dos parceiros europeus. Nos últimos anos andou a emprestar à Grécia o dinheiro que esses gastaram perdulariamente e agora (só agora, depois do desastre) vem apelar à defesa do euro forte impondo políticas restritivas aos gregos e aos restantes povos “do sul”. Nas manifestações em Atenas já morreu gente…
Bom, estes resultados vão dar um Alemanha-Argentina nos quartos, partida que bem poderia vir a ser a final deste Mundial. Aceitam-se apostas entre a eficácia e pragmatismo teutónicos, e a beleza e repentismo dos alvi-celestes. Espero que não seja “onze contra onze e, no fim, ganha a Alemanha”.
Segunda-feira, 28 de Junho de 2010 – Insucesso antecipado consumado, no regresso àquele Porto dos meus males. A resposta foi rápida, no resultado previsto desta sociedade viciada até à última das mulheres. Na minha indignação segue-me I., na sua desilusão, e daí a minha grande pena por tudo.
Madrugada de terça-feira, 29 de Junho de 2010 – Brasil será Brasil, digo, resignado, ao amigo retornado de mulher brasuca exultante, vendo mais vibrante o jogo dos irmãos do que dos nacionais. Retornado, pois. Os três secos ao Chile, agora fora da competição, atestam do utilitarismo da horda de seguranças que jogam na Europa, sem o enlevo do futebol carioca e com a dureza do pior central italiano. É o mundo ao contrário, como nas suas restantes partes.
E a Holanda, oh, a Holanda, despachou os Eslovacos (os que atiraram borda fora os italianos) por duas bolas a uma, à melhor tradição ajaxiana. Continuam a aceitar-se apostas.
Na sala, a ouvir os resumos televisivos, vou-me consumindo em culpa, mormente os cigarros reduzidos. O fumo que permanece, mormente os esforços das janelas abertas, ainda me acaba com a companhia, que, mesmo parecendo que não, me vai aturando tudo. Eu procuro dar, mas por vezes sinto que tenho tão pouco…
Madrugada de quarta-feira, 30 de Junho de 2010 – Os dias passam céleres na velocidade do trabalho que dificilmente acompanho, na roda-viva de elementos que giram em torno de mim. Rodopio estonteado, prazenteiro e sôfrego, engolindo a vida que se me escapa em golfadas de agitação que voluteio nas coisas que me passam frente ao olhos e à respiração.
Quero ler, mas o tempo rouba-me as páginas da vida seleccionadas; ver, mas o tempo escapa-se-me remetendo os programas para o fundo das horas passadas; conversar, mas tempo serpenteante leva-me a companhia e deixa-me o seu cansaço.
Irritado, não me canso, cerro os dentes, reteso os braços, as pernas e parto em perseguição da vida numa maratona de pressa e eventual alcance.
Entretanto, vivo.
No duelo ibérico a sorte não nos sorriu e a Espanha conseguiu o único golo da partida (que bem poderiam ter sido mais) colocando-nos fora do Mundial. Cheguei a baixar à depressão, mas não merecemos melhor.
Da equipa do “Ronaldo +10” , em inícios da competição, ficaram estes “10 -Ronaldo” com que se encerrou o ciclo. Uma pena, porque, agora, é que ia começar a ser mais à séria, já dentro do nível competitivo que os analistas colocavam a turma portuguesa. A fase de eliminatórias é que seria a passagem. Enganaram-se. Faltou-nos um determinado estatuto de maturidade competitiva que os espanhóis revelaram. Esta equipa campeã europeia é, de facto, diferente das selecções espanholas das últimas décadas. O meu receio era aquela inteligência que, de uma forma geral, se lhes lia nos olhos. Nós, à genialidade intrínseca de um ou outro jogador, não tivemos a bitola necessária de discernimento, sagacidade e, fundamentalmente, espírito de luta que se impunha.
Agora, torço pela Espanha e pelo Brasil. Estes, pela fraternidade; aqueles, porque nos bateram e antes batidos por campeões, do que por outros.
Madrugada de quinta-feira, 01 de Julho de 2010 – A nação derrotada zangada, dá largas ao vitupério, mais ou menos velado, mas dispara em todas as direcções. As culpas do treinador estarão ao mesmo nível das do capitão e da estrela da companhia, a que ninguém perdoa a reacção a quente quando manda o jornalista pedir as explicações da derrota ao primeiro. Este, com muito mais classe e elevação, reage pouco menos que mansamente; aquele pede desculpas via site oficial da federação. E nisto se esquecem todas as outras culpas dos outros todos, a começar na própria nação, que pretendeu mais do que aquilo que era possível prometer.
“Os espanhóis acarinham mais Ronaldo do que os portugueses”, ouviu-se hoje dentro e fora de portas. Talvez seja verdade. E também é verdade que o seu desacerto e nervosismo também contribuíram tanto para a derrota portuguesa, como para a vitória espanhola.
Enfim, tanto haveria aqui a considerar que desisto e fecho o teclado agora. Não quis enrolar-me na aventura portuguesa do Mundial e quando me deixei levar completamente, este balde a água fria que quase me conduziu à depressão. Mas não a passarei a irritação. Agora, fecho. Amanhã, tudo começa de novo para os dias a seguir.
Até daqui a dois anos, por alturas do Europeu.
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