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Domingo, 17 de Janeiro de 2010 – Durante o zapping televisivo matinal – ainda não se percebe se vai continuar a chover ou haverá alguma parança destes dilúvios diários –, a missa dominical na TVI, o último resquício da “televisão da igreja” na TV nacional. Uma jovem (bem saudável, por sinal) defronte o altar, uma sujeita idosa que passa a seu lado avança para o púlpito (?) e canta divinamente.
No meio da manhã maldisposta, com a minha expressão franzida, penso nos pecados de todos aqueles misseiros(as) bem trajados e não deixo de pensar no pecado maior, fazer crer aos outros a nossa falsa crença, todos os dias; ou pelo menos todos os domingos, porque nos outros dias é muito difícil enganarmos sempre, fazermos os outros pensarem permanentemente que afinamos por determinada bitola. É campo perigoso, perigosíssimo, onde se brinca com fogo… o fogo dos infernos.
Lá fora, a momentos, rompe o sol molhando-se na cidade encharcada, para logo se retirar e devolver-me uma fina depressão, tão leve que insustentável. Reflicto nos meus pecados. São três, na forma de árvores compradas há uma semana, ou um pouco mais do que isso. Uma macieira, uma tangerineira e um limoeiro. Estiveram abrigados desta chuva destes dias, mas a água que traziam na terra colada à raiz, bem pode já ter desaparecido, apesar de toda esta que dança lá fora. Terei de ir aos Hortos hoje à tarde pela estrada encharcada, fender a pneu de bicicleta os caminhos alagados a cheirar ao frio da terra deste Janeiro inundado às chuvas e saraivas, assim como dos muitos mortos nos noticiários do mundo.
Penso e há mais pecados, por aqui. Uma conversa ainda não tida com um colaborador e uma carta ainda não enviada a outro. Ambos assuntos urgentes e já algo antigos. E outras tantas faltas, antes de mais, e sempre, para comigo mesmo; contra mim sou!
Mas os Hortos, oh, os Hortos, têm sido a minha remissão que, nestes dias, desmereci. Tal como as arvorezinhas encafuadas no contentor, esperam sempre por mim e dão-me a quieta calma que só lamento só encontrar por lá. Eu, os sons do sítio, os aromas dos ares e da terra e, nessa, os meus passos. Oh, quadricromia perfeita, se em perfeição nos podemos meter, nós, que tão perfeitos somos das nossas imperfeições.
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