Meadela, terça-feira, 17 de Março de 2009 – Continua o julgamento de H. Fritzel, o “monstro” austríaco, que sequestrou e manteve relações sexuais com a filha durante décadas. Teve filhos-netos, incinerou outro que não resistiu, em bebé. Soube-se entretanto, que também manteve a sua própria mãe sequestrada durante vinte anos, até à sua morte. Uma verdadeira tragédia edgaralanpoeana acerca da qual me pergunto acerca da nossa própria responsabilidade acerca disto.
Meadela, terça-feira, 24 de Março de 2009 – Neoliberalismo, “terceira via” socialista (outra forma do primeiro) e quejandos, não tenho dúvida, estão mortos e só falta enterrá-los, de vez.
Como um vulcão irrompante, o que está a acontecer nos últimos anos no laboratório social que é a América do Sul, surge numa nova e perfeita simbiose lançando as primeiras réstias de luz sobre a Humanidade: a união entre os ideais do moderado socialismo democrático, uma profunda fé cristã, e o ambientalismo, tão mais necessário a cada corte de uma árvore – o Homem entendido consigo, com Deus e com a Terra. Será aí que residirá a Nova Ordem do Mundo, que perdurará por milénios, nas mais diversas formas.
Meadela, terça-feira, 25 de Março de 2009 – Quanto mais leio mais me assusto. Há cada vez mais formas do saber que têm sido obliteradas por este presente. E não quero morrer em pânico!
Meadela, quinta-feira, 21 de Maio de 2009 – Hoje morreu o João Bénard da Costa, de 74 anos, presidente da Cinemateca Portuguesa nos últimos trinta anos.
Nos últimos vinte viveu serenamente inquieto. Era um Homem que conhecia bem este Portugal de que era um dos meus Mestres. Se calhar, aparou-lhe demasiados golpes. Mas também os deu.
Viana do Castelo, por Abril de 2009 – Este é um país de gente que não chega a horas. E sem se chegar a horas não há organização, condição sine quo non para a formação de um Estado responsável, íntegro e integral. Não há outra saída para a sobrevivência autónoma – tomar consciência dos problemas colectivos e individuais (até porque se tornarão, a prazo, colectivos), identificá-los, referi-los atribuindo o nome aos bois, chamar-lhes cornudos em voz alta, se necessário for.
Esse será o princípio.
Por Maio (creio), na Redacção, no final da entrevista com o escritor Orlando Ferreira Barros – Falávamos das coisas e das pessoas. Afirma-me: “Você é um optimista!”. Respondi-lhe que não, que, isso, talvez houvesse por aqui numa forma simples de "fleumatismo"; porque as pessoas, pela força das coisas, são cada vez menos ignorantes mas (cada vez) mais incultas e que por aqui há, ainda, muita consciência de que o atrevimento será cada vez mais descarado. Por isso é que é preciso ter paciência; daí, eventualmente, a sua leitura do optimismo. Mas não, na verdade. Apenas coloco a fasquia muito baixa, no que toca aos outros.
Desiludo-me menos…
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