Madrugada de segunda-feira, 27 de Setembro de 2010 – Hortos precisamente uma semana depois. Saído da aposta na Redacção (que resultou), nos Hortos fiquei, uma vez mais, mais tempo do que pretendia e regressei já noite, com o trabalho planeado feito e um pouco mais ainda.
O Outono entrou e nem dei por ele. Interessa-me o ciclo semanal da chuva, porventura mensal, à medida do trabalho de secretária e das voltas a pé que tenho de dar; as leituras auto-impostas a cumprir.
Hoje terminei “Desastre na Normandia: O Primeiro Dia D”, o mais pungente episódio de guerra que até agora conheci. Move-me o sofrimento de todos os massacrados e até de todos os outros que das falésias, das colinas ou donde fosse, mantiveram os dedos crispados em torno dos gatilhos que fizeram soçobrar mais de duas mil vidas em menos de nove horas. Muitos destes tiveram que viver o resto das suas vidas com o que tiveram de fazer.
Enquanto aguardo nova remessa, volto às americanadas em volume cujos caracteres do nome do autor são maiores que o título. Por isso: Christopher Reich e o seu “As Regras da Vingança” é o livro que segue, de que espero enredo à forma de filme com pouca literatura e suspense na acção que baste.
Madrugada de quarta-feira, 28 de Setembro de 2010 – O primeiro-ministro anunciou medidas tidas por draconianas para fazer baixar o deficit. Ouço-as e sei-as duras, mas não me larga a sensação de que já deviam estar há muito tempo atrás.
Mas falta o resto e, dessas, duas principais: à uma, uma apertada fiscalização de todos esses empresários que chegam ao final do ano com não mais que uma centena de recibos passados, que andam em automóveis de gamas que o seu pequeno e único negócio (correctamente taxado) nunca proporcionaria, assim como as férias nas Suíças e Bruxelas que fazem todos os anos com mulher e filhos; à segunda, a criação, para além deste novo imposto aos bancos, de escalões de taxamento sobre o nível de lucros desses mesmos e das agências financeiras.
Bem feito, isso punha este país no domínio da hombridade em seis meses.
Fui levar “As Reflexões” ao padre director. O artigo que não foi publicado na edição deste mês e o seguinte. Optei por entregá-los em mão porque perdeu o primeiro.
Entretanto, de Julho para cá, tenho lido integralmente o jornal paroquial, porque quero conhecer tudo o que lá é escrito. Quando nos metemos num buraco, deve-se conhecer bem quem já lá está; depois, os outros que entram também. É que, agora, faço parte da equipa (farei?). Nisto vou redescobrindo porque nunca me meti nestes fossos da vida. Muita da linguagem que lá é utilizada, é agressiva. Muito hostil e até provocadora, como geralmente não se vê nos outros tipos de publicações periódicas. Ainda assim, a minha colaboração neste jornal tem-se vindo a tornar para mim muito interessante a nivel intelectual e espiritual. Mas em pouco tempo já entrou no domínio político. Sairei brevemente?
Madrugada de quinta-feira, 30 de Setembro de 2010 – Dia terminado a ligeira dor de cabeça. Pensar pouco e boa postura no sofá, para não culminar em enxaqueca só debelada a comprimidos.
Cumprindo promessa à cara-metade desmarquei o trabalho de montagem da revista, tempo também pedido pela designer, e fomos ao cinema para ver sequela que há algum tempo queria. Tive de decidir acerca disso ou do jogo do campeão nacional na liga milionária. Optei contra todos, que estavam a seguir o jogo e meti-me na sala de cinema. Decidi bem, contra a corrente deste mundo de deficit, dívidas e mais deficit. A acumulação de pontos no cartão da empresa proporcionou-nos dois bilhetes gratuitos para sala totalmente por nossa conta, em cinema de quatro salas completamente vazia.
Nada como obrigar os poderosos a servirem-nos só a nós, melhor ainda que ganharmos em futebol a ingleses e alemães. Mas desta vez, nisso, perdemos.
Madrugada de sábado, 02 de Outubro de 2010 – Quase não escrevia isto porque ainda tenho as unhas cheias de terra. Depois das compras de ontem, hoje o plantio e sementeira, na terra tratada esta semana mesmo.
Começou novo ciclo de vida nos Hortos, com o anterior a produzir ainda, para além da renovação natural que brotou entre as daninhas, em pintalgos de surpresas já traduzidas em brócolos de semente que me aumentaram a felicidade. Junto couve penca, mais alfaces e nabal, este último em terreno novo a partes mal cavado. A ver as conclusões da experiência.
Estou à frente do meu tempo neste regresso à terra de que só lamento não ter começado dez anos antes, pelo menos. O corpo já só é para manter nestes anos que avançam inexoráveis. Aproveitar bem o tempo que resta desmultiplicando-o em cada segundo de vida percorrida. Construir este futuro que começa hoje, com esta energia que move mundo cada vez mais cara e transportes mais dispendiosos. Um dia acabará a maçã do Chile barata e até as laranjas da vizinha Andaluzia. Não haverá cidades cada vez maiores e luminosas, mas um mundo mais parecido com o antigo, onde os custos de transportes nos farão regressar à terra e as cidades encolherão porque ficará muito caro percorrer as distâncias até ao centro todos os dias para trabalhar. Os projectos de construção inacabados darão origem a leiras, courelas, bouças e pauis, muito mais depressa do que se poderia imaginar, porque a Natureza vai buscar o que é dela muito mais rapidamente do que nos lembramos. E os promotores imobiliários que corriam a transformar o artigo rústico em prédio de construção, vão perceber que a procura será o seu inverso para que a hortaliça para a sopa e a fruta da sobremesa possa vir a ser mais barata na meã da família constituída.
Por isso, depois do desvario e da crise, auguro um mundo melhor, de energias mais limpas e maior comunhão com a Natureza, com as pessoas a perceberem que o que lhes vinha a ser vendido como “ecológico”, “orgânico” e “sustentável”, mais não era do que a necessidade do próprio mercado que entendeu que essa era a única via possível.
Depois do verão de quase suão furioso, a chuva que começou por cantar ainda antes das últimas pencas estarem metidas na terra, agora bate furiosa trazida pela borrasca que mais agrava. Depois da entrada do Outono acabou definitivamente o Verão, confirmo, enquanto rezo para que as alfaces aguentem o vendaval.
*
Sem comentários:
Enviar um comentário